SE ELES FOSSEM MULHER

Na TV a moça rica mostra o rosto machucado e conta sobre as costelas quebradas, na periferia a menina de 15 anos é brutalmente assassinada. Elas não têm nada em comum, a não ser o machismo.

Há quase um ano eu estaria como elas: Perdida, saindo da Delegacia depois de um interrogatório infeliz em que o policial só me responsabilizava por ter permitido tantos anos de agressão. E eu não sabia responder.

Me lembro que o outro disse que eu poderia perder a guarda dos meus filhos por anos de exposição. Ele citou as Leis e falou sobre a minha responsabilidade. Questionou onde eu trabalhava, quais exemplos dava a eles, falou sobre roupa e palavrões, questionou meu jeito e queria saber se eu levava os meninos na escola. Depois pediu o cartão de vacina dos meninos “só pra conferir” – E eu não tinha não. Eu gelei, com medo de ter entrado pra denunciar um abuso e sair de lá sem meus filhos. Eu só queria ir embora.

Mas lembrei que, antes disso, minha filha me botou no carro e disse que aquele seria o último soco. E que ela me obrigava a denunciar.

“Coragem, mãe!” (As meninas de hoje em dia tem uma coragem que a gente não tinha, né?)

Então eu fiz. Por ela! Mantive a denúncia, juntei o boletim de ocorrência e pensei: Vai dar tudo certo: Voltaremos para a casa da minha mãe, e tudo será um recomeço!

Mas, no dia após a violência, eu descubro que não há vagas para meus filhos na Escola Municipal do nosso novo endereço, eles teriam que permanecer estudando lá do outro lado da cidade, no bairro do pai agressor.

Prefeito de Belo Horizonte - Márcio Lacerda, veta projeto de Lei que permitiria a prioridade de crianças filhas de mulheres vítimas de violência em vagas de escolas no Município.
Prefeito de Belo Horizonte – Márcio Lacerda, veta projeto de Lei que permitiria a prioridade de crianças filhas de mulheres vítimas de violência em vagas de escolas no Município.

Isso eu não poderia permitir. Eles sozinhos lá? De jeito nenhum. Eu não poderia voltar, mas também não poderia deixá-los sem estudo. Não havia condições de pagar tantas viagens de ônibus, todos os dias, pra atravessar a cidade.

A Diretora me manda pra Secretaria, o funcionário da secretaria diz que é ordem do Prefeito¹. E eu lá, perdendo dia de trabalho, gastando o que não tinha, depois de ser violentada… E meus filhos sem escola.

“A culpa é dessa mulher, os meninos vão ficar sem estudar”

“Menino na rua já sabe o que vira, né?”

É muito peso, muita dor pra uma pessoa só. Passaram alguns meses, e nada da vaga pras crianças. Decido voltar. Minha filha me olha com raiva: “-Parece que você gosta de apanhar!”

Não tem o que fazer, não tem escola, não temos condições de alugar nada por lá. Só tem aquela casa que, afinal, é nossa também. E o risco da violência, mas fazer o quê?

Orientações Ministério Público e UNICEF
Orientações Ministério Público e UNICEF

Se esse pessoal fosse mulher e pobre, eles entenderiam. Se fossem mulher violentada, eles nos contemplariam. Mas essa burocracia é feita pra controlar máquinas e não pessoas. A cidade gira que nem uma empresa, mas aqui mora é gente.

E aí você pensa: Se morre uma mulher, a criança fica abandonada. No entanto, se ela consegue fugir, a criança ficará sem estudar. E a culpa vai ser sempre da mãe desnaturada, desleixada.

Dos males o menor: Melhor em casa apanhando. É o que me resta.

“Salve a família tradicional e a educação em primeiro lugar.” Quantas mulheres não passaram pelo mesmo?

Eu, a moça da TV e a menina de 15 anos. Nada em comum, mas no fim, tudo: Independentemente de como o caso se desenrole, a culpa é toda nossa.

Desligo a TV antes do meu marido chegar, ele se irrita com esse barulho. Oxalá mais uma noite tranquila, e os meninos na escola.

   

¹Projeto de Lei 1543/15 encaminhado pela Câmara Municipal e vetado pelo Prefeito de Belo Horizonte em 25 de maio de 2016.

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Luara Colpa é brasileira, tem 28 anos. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 

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Luara Colpa

Luara Colpa é brasileira, colunista no Bhaz e na Carta Capital via Blog Negro Belchior. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.