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Globo repudia ataques de Bolsonaro contra jornalista Miriam Leitão

O Jornal Nacional dessa sexta-feira (19) transmitiu a quem acompanhava o noticiário uma nota de repúdio assinada pela Globo contra declarações feitas pelo presidente Bolsonaro (PSL) ainda pela manhã.

Durante um café com jornalistas estrangeiros, Bolsonaro foi questionado a respeito do cancelamento da participação da jornalista Miriam Leitão, e do marido dela, Sérgio Abranches, em uma feira literária que ocorreria na cidade de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina. Os dois deixaram de ir ao evento por conta de ameaças recebidas por meio das redes sociais, onde um grupo organizava um movimento de ataques e insultos contra Miriam.

Na resposta, o presidente disse que em uma democracia críticas devem ser aceitas e que sempre foi a favor da liberdade de imprensa. No entanto, logo em seguida, disse que Miriam Leitão foi presa tentando instaurar uma ditadura no país e que mentiu sobre ter sido torturada e vítima de abusos por parte de militares da então ditadura brasileira.

No comunicado, a Globo disse que “não é a jornalista quem mente” e que “as afirmações do presidente causam profunda indignação e merecem absoluto repúdio”. Em outro trecho, a nota diz que Miriam também foi atacada durante o governo de Lula e que tal fato mostra que ela manteve “independência em relação a governos, sejam de esquerda ou de direita ou de qualquer tipo” (leia a nota na íntegra ao fim do texto).

Cancelamento em feira literária

Miriam Leitão foi desconvidada da 13ª Feira do Livro de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, onde deveria marcar presença em agosto. O cancelamento da participação dela ocorreu depois que uma petição online alcançou mais de 3 mil assinaturas.

A organização do evento disse, no entanto, que desistiu de convidar Miriam por conta de ameaças anônimas e da possibilidade de agressões contra ela. O responsável pela petição, um advogado apoiador de Bolsonaro, disse que ela não corria tal risco em entrevista para a Folha de S. Paulo.

Nota da Globo na íntegra

“O presidente Jair Bolsonaro recebeu nesta sexta-feira (19) um grupo de jornalistas estrangeiros para um café da manhã. Os jornalistas cobraram do presidente um comentário sobre o ato de intolerância de que foi vítima a jornalista Miriam Leitão, no fim de semana.

Miriam e o marido, Sérgio Abranches, participariam de uma feira literária em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Em redes sociais, foi organizado um movimento de ataques e insultos à jornalista, cuja postura de absoluta independência foi tratada como um posicionamento político de esquerda e de oposição ao governo Bolsonaro.

Em resposta aos correspondentes internacionais, o presidente Jair Bolsonaro disse que sempre foi a favor da liberdade de imprensa e que críticas devem ser aceitas numa democracia.

Mas, depois, afirmou que Miriam Leitão foi presa quando estava indo para a Guerrilha do Araguaia para tentar impor uma ditadura no Brasil e repetiu duas vezes que Miriam mentiu sobre ter sido torturada e vítima de abuso em instalações militares durante a ditadura militar que governava o país então.

Essas afirmações do presidente causam profunda indignação e merecem absoluto repúdio. Em defesa da verdade histórica e da honra da jornalista Miriam Leitão, é preciso dizer com todas as letras que não é a jornalista quem mente.

Miriam Leitão nunca participou ou quis participar da luta armada. À época militante do PCdoB, Miriam atuou em atividades de propaganda.

Ela foi presa e torturada, grávida, aos 19 anos, quando estava detida no 38º Batalhão de Infantaria em Vitória. No auge da ditadura de 64, em 1973, Miriam denunciou a tortura perante a 1ª Auditoria da Aeronáutica, no Rio, enfrentando todos os riscos que isso representava na época.

Narrou seu sofrimento aos militares e ao juiz auditor e esse relato consta dos autos para quem quiser pesquisar.

A jornalista foi julgada e absolvida de todas as acusações formuladas contra ela pela ditadura. A absolvição se deu em todas as instâncias.

É importante ressaltar que Miriam Leitão, ao longo dos governos do Partido dos Trabalhadores, foi também alvo constante de ataques. Não questionaram, como agora, o sofrimento por que passou na ditadura, mas a ofenderam em sua honra pessoal e profissional em discursos do ex-presidente Lula em palanques, e até mesmo a bordo de avião de carreira, quando Miriam Leitão ouviu insultos e ofensas por parte de militantes petistas, que então a chamavam de neoliberal e direitista.

Esses insultos, no passado como agora, em sinais trocados, apenas demonstram a maior das virtudes de Miriam como profissional: a independência em relação a governos, sejam de esquerda ou de direita ou de qualquer tipo.

A Globo aplaude essa independência, pedra de toque do jornalismo profissional, e se solidariza com Miriam Leitão”.

Uma solidariedade compartilhada por nós, seus colegas da TV Globo, da rádio CBN e do jornal “O Globo”.

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