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Coronavírus: Minas não finaliza Plano de Contingência e convive com bomba-relógio

coronavirus em minas

Minas vive em estado de apreensão. Se não bastassem as chuvas, o Estado convive com uma bomba-relógio chamada coronavírus: sem Plano de Contingência concluído, falta de leitos e o desconhecimento geral sobre a nova doença, o temor ronda a saúde pública e privada. Somam-se ao cenário a certeza de que o novo vírus chegará em breve e a sempre problemática dengue, que já acumula mais de 6 mil casos suspeitos.

“A gente fica inseguro. Não há tratamento específico, como vacina. E a chegada por aqui é uma questão de tempo, dentro de semanas ou meses o vírus será confirmado”, crava ao BHAZ o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Estevão Urbano. Nesta semana, BH registrou mais uma paciente com suspeita de coronavírus, mas, até o momento, nenhum caso foi, de fato, confirmado (leia mais abaixo).

Todos os especialistas entrevistados pelo BHAZ, no entanto, são categóricos: a dúvida não é se o vírus vai chegar, mas quando e com qual força. “A minha maior preocupação é com a mobilização do serviço de saúde. Teremos insumos e leitos para todos? Não temos gente suficiente, não temos insumos e nem leitos nos hospitais públicos para as doenças que já conhecemos. Imagine para esta”, afirma o diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Marcos Cyrillo.

“Tem muita coisa ainda sem resposta. A gente vai ter que se preparar e aguardar para ver o que vai acontecer”, complementa Urbano. É possível, no entanto, fazer uma constatação: Minas não fez o dever de casa – e teve a atenção chamada pelo Ministério da Saúde.

Sem plano concluído

Com o panorama global cada vez mais preocupante – são mais de 600 mortes e 31 mil infectados -, o governo federal resolveu colocar um ponto final. Os Estados têm até a próxima segunda (10) para entregar, individualmente, o Plano de Contingência para a doença. O documento traça estratégias de prevenção, vigilância e assistência.

Para não desrespeitar a determinação do Ministério da Saúde, o Governo de Minas precisará, provavelmente, trabalhar durante o fim de semana. Isso porque, nesta sexta-feira, o plano ainda não tinha sido concluído, conforme admitiu ao BHAZ a assessoria da SES-MG.

Além disso, a região Norte, conhecida justamente pelo baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), não tem nem mesmo um hospital definido para ser referência no tratamento à doença (leia mais abaixo).

O alento para os mineiros é que o Protocolo Coronavírus está definido. O documento aponta como os profissionais da saúde devem lidar com casos suspeitos.

“Temos a estrutura montada. Os profissionais da saúde já sabem o que precisam fazer em casos suspeitos, como o local que o paciente precisa ser levado. O importante é esta estruturação que, praticamente, é um guia para conduzir os primeiro casos”, explica o infectologista Carlos Starling.

Qual vírus chegará?

Mesmo que o governo mineiro consiga concluir o plano a tempo, Estevão Urbano destaca que pouco se sabe sobre qual coronavírus chegará ao Brasil. Dos 26 tipos existentes, sete causam doenças em humanos. O jeito, segundo o estudioso, é “aguardar para ver o que vai acontecer”.

“Ainda estamos aprendendo sobre o novo coronavírus que começou a atuar em dezembro de 2019. Não o conhecemos direito, por isso nossos planos são baseados em outras experiências. Outro fator que dificulta é o fato de não termos casos registrados na América Latina”, diz Marcos Cyrillo.   

Mesmo com o desconhecimento do tipo de vírus que chegará ao país, Urbano relativiza a letalidade da nova enfermidade. “O momento não é de pânico, até porque a grande maioria dos casos tem evoluído para cura”. 

O BHAZ procurou o Ministério da Saúde e foi informado que os insumos, como máscaras e equipamentos de proteção, estão sendo adquiridos e repassados às secretarias. A pasta ainda esclareceu que nenhum valor financeiro será passado aos Estados por conta da doença.

Agência Brasil/Divulgação

Hospitais referências

Apesar do Norte de Minas, com 360 mil habitantes, não ter o hospital referência definido, Belo Horizonte já possui duas unidades de saúde com esse título: o hospital Eduardo de Menezes e o hospital infantil João Paulo II.

Sobre o Eduardo de Menezes, o BHAZ recebeu denúncia de servidores que a unidade não estava preparada adequadamente quando admitiu, na última semana, uma paciente com suspeita de ter contraído o novo vírus. O leito, por exemplo, possuía frestas.

A Fhemig (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais) confirmou que R$ 560 mil foram investidos em manutenção e reparos na unidade que desponta como a principal no tratamento ao novo vírus. Até mesmo novos leitos estão sendo construídos nos últimos dias.

“Os novos espaços estão sendo feitos onde a jovem estava internada”, informou uma funcionária que, com medo de represália, preferiu não se identificar.

Servidores do hospital denunciaram condições precárias na unidade de saúde (Arquivo pessoal)

Questionada, a SES-MG garantiu que “o ambiente no qual a paciente esteve não comprometeu sua segurança, nem dos profissionais e familiares que estiveram em contato com ela”.

Já a Fhemig confirmou novas intervenções no hospital. “Estão sendo preparados quatro leitos privativos no Setor B e outros dois quartos privativos, com antecâmara, do Centro de Terapia Intensiva (CTI) da unidade”.

Nas outras regiões do Estado, as unidades de saúde escolhidas foram: Hospital das Clínicas, em Uberlândia (Triângulo Mineiro); hospital Samuel Libânio, em Pouso Alegre (Sul); hospital Márcio Cunha, em Ipatinga (Vale do Aço); e hospital regional João Penido, em Juiz de Fora (Zona da Mata).

SUS estrangulado?

O temor dos especialistas ouvidos pelo BHAZ é que, dependendo de como o vírus chegar à capital e ao Estado mineiros, o sistema público de saúde não aguente. Por isso, os estudiosos avaliam que os hospitais particulares serão fundamentais – e reforça a necessidade da conclusão do plano, pois também norteia o setor privado.

A mulher de 49 anos suspeita de ter contraído o coronavírus, por exemplo, está internada em uma unidade particular de saúde particular na região metropolitana de BH.

A mulher viajou para as Filipinas na segunda quinzena de janeiro e chegou ao Brasil no último sábado (1). A paciente está internada em isolamento e o quadro de saúde dela é considerado estável.

Dengue

Como se o cenário previsto para a chegada do coronavírus não fosse, no mínimo, preocupante por si só, a saúde de Minas terá ainda que driblar outra enfermidade, desta vez uma velha conhecida: a dengue. Somente nos primeiros dias deste ano, a SES-MG já registrou 6.988 casos prováveis de dengue.

O possível surto de duas doenças ao mesmo tempo no Estado pode dificultar o atendimento na rede pública. “É muito difícil precisar como o SUS vai se comportar. Se não tiver explosão de casos dá para atender, mas é igual chuva: se é um volume razoável ok, mas, quando bate recordes, por mais que se prepare, danos vão acontecer”, disse.

A SES-MG informa que até o momento não há relatos de sobrecarga nos serviços de internação. A secretaria esclareceu ainda que os casos de dengue são, em sua maioria, “manejados na Atenção Primária (em Unidades Básicas de Saúde)”, enquanto os possíveis casos suspeitos de coronavírus “são atendidos em hospitais de referências”.

No ano passado, a dengue matou 178 pessoas, e outras 89 seguem em investigação. Em 2020, cinco óbitos são investigados, mas até o momento nenhum foi confirmado.

O infectologista Marcos Cyrillo ressalta que há quatro tipos de dengue e que ainda não se sabe qual será a mais frequente neste ano. “No ano passado, o mais comum foi o do tipo 2. Há muito tempo ele não aparecia e ainda não dá para falar se ele vai mudar ou permanecerá”, conclui.

Vitor Fórneas

Vitor Fórneas

Jornalista no Portal Bhaz

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