Home NotíciasBrasil‘Faria coisas que seu pai não faz’: Motorista é banido da Uber após garota gravar assédio em corrida

‘Faria coisas que seu pai não faz’: Motorista é banido da Uber após garota gravar assédio em corrida

Adolescente é assediada por motorista de Uber

“De 14 anos para cima você já é capaz” e “eu faria coisas que seu pai não faria”. Estas foram algumas das frases que uma adolescente de 17 anos ouviu de um motorista da Uber neste domingo (16), em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Durante o trajeto, que durou cerca de 5 minutos, a jovem filmou o assédio sem que o motorista percebesse e publicou as imagens nas redes sociais.

O motorista concedeu entrevista na tarde desta terça-feira (18) ao deixar uma delegacia. Ele deu a entender que a garota foi a responsável pelo ocorrido, mas não é o que mostra o registro feito por ela. O caso é investigado pela Polícia Civil.

As imagens mostram a adolescente questionando o motorista se ele não vê problema em se insinuar para uma menor de idade. Ele responde “seria problema se tu tivesse 13 anos. Com 14 anos pra cima já é responsável” e continua a constranger a jovem. Veja o vídeo abaixo:

Ao BHAZ, Carla Borges, mãe da vítima, contou que a filha estava indo para a casa de uma amiga e, apesar de ter sentido muito medo, decidiu gravar as investidas do motorista. “Mesmo quando ela desceu do Uber, ele ainda continuou, falando ‘beijo, linda’ e coisas do tipo. Por sorte a amiga a acalmou e incentivou a postar o vídeo no Instagram.

Carla contou também que, à medida que o vídeo alcançou novas pessoas, diversas outras jovens e adolescentes procuraram a filha dela pelas redes sociais para relatar terem sido vítimas do mesmo tipo de assédio.

‘Justificar o injustificável’

No fim da tarde desta terça (18), o motorista concedeu entrevista a algumas emissoras acusando a adolescente de ter o “instigado”. “Ela estava com um short tipo Anitta, uma miniblusa, com as pernas abertas e me chamando atenção”, disse.

O posicionamento do motorista, bastante comum em casos como este, não foi diferente de muitas das respostas que tomaram as redes sociais da adolescente. De acordo com a mãe, não foram poucas as pessoas que tentavam amenizar o caso usando argumentos como as roupas que ela usava, as músicas que ela postava e a reação dela às falas do motorista.

Carla explica que a filha ficou surpresa com a polêmica e rebate as tentativas de relativizar a situação. “Ela estava rindo de nervosa, primeiramente. Quanto à roupa: a gente tem o direito de usar qualquer roupa e não é porque eu estou com meu braço de fora que algum homem vai ter o direito de tocar em mim. E todo mundo escuta a música que quer também, isso não diz do caráter da pessoa, mas sim dos gostos dela”.

A cantora Anitta também recorreu às redes sociais para reforçar o óbvio: “Nada justifica um assédio. A forma de se vestir, sentar, falar etc não significa qualquer autorização ou pedido ou convite a ser assediada”, publicou.

A artista ainda rebateu a expressão “short tipo Anitta” usada pelo motorista como justificativa. “Pra mim significa que ela é independente, não tem medo de ser quem ela quer e, acima de tudo, bem inteligente pra denunciar e expor um assediador para que outras meninas não passem pelo mesmo que ela”.

Medidas

Com a repercussão das postagens, Carla foi procurada por uma delegada da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, onde o homem já era conhecido por ter assediado outras mulheres. Ela registrou a denúncia junto à corporação e também no aplicativo de transporte, mas conta que não obteve nenhuma resposta. “De acordo com a mídia, a Uber agora disse que ele será banido, mas só responderam os jornais. Para mim e para ela [a filha] a Uber não deu nenhum esclarecimento”.

Além da revolta com o assédio, a indignação da mãe se estende à conduta profissional do homem. “No Uber, ele estava trabalhando, nós estávamos pagando pelo serviço dele, ele não estava ali a passeio ou numa viagem de férias. É preciso que ele entenda que isso não pode ser feito e que respeito é primordial”, desabafou.

A mulher contou ainda que sempre confiou no serviço do aplicativo: “Eu sempre aconselhava ela, falava ‘minha filha, não anda de ônibus, porque é perigoso’. Depois disso, eu fico completamente assustada com o que ele fez”.

Agora, após o episódio, o medo se junta a diversas críticas ao sistema da empresa. “Eu espero que mudem a forma de contratação e que haja um sistema de revisão. Que a Uber faça uma avaliação mais delicada desses motoristas e que essa avaliação seja feita periodicamente”, pediu a mãe.

A Uber informou, em nota (confira na íntegra abaixo), que a conta do motorista foi banida assim que a denúncia foi feita e que a empresa já tem um sistema de triagem e de checagem periódica. “Todos os motoristas passam por uma checagem de antecedentes criminais realizada por empresa especializada. A Uber também realiza rechecagens periódicas dos motoristas já aprovados pelo menos uma vez a cada 12 meses”.

A empresa também reforçou que repudia e considera inaceitável qualquer ato de violência contra mulheres: “A empresa defende que as mulheres têm o direito de ir e vir da maneira que quiserem e têm o direito de fazer isso em um ambiente seguro”.

Nota da Uber na íntegra

A Uber considera inaceitável e repudia qualquer ato de violência contra mulheres. A empresa acredita na importância de combater, coibir e denunciar casos dessa natureza às autoridades competentes. A conta do motorista parceiro foi banida assim que a denúncia foi feita.

A empresa defende que as mulheres têm o direito de ir e vir da maneira que quiserem e têm o direito de fazer isso em um ambiente seguro. Todas as viagens com a plataforma são registradas por GPS. Isso permite que em caso de incidentes nossa equipe especializada possa dar o suporte necessário, sabendo quem foi o motorista parceiro e o usuário, seus históricos e qual o trajeto realizado.

Como parte do processo de cadastramento para utilizar o aplicativo da Uber, todos os motoristas passam por uma checagem de antecedentes criminais realizada por empresa especializada que, a partir dos documentos fornecidos pelo próprio motorista e com consentimento deste, consulta informações de diversos bancos de dados oficiais e públicos de todo o País em busca de apontamentos criminais, na forma da lei.  A Uber também realiza rechecagens periódicas dos motoristas já aprovados pelo menos uma vez a cada 12 meses.

Desde 2018 a Uber tem um compromisso público para enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil, materializado no investimento em projetos elaborados em parceria com entidades que são referência no assunto, que inclui campanhas contra o assédio e podcast para motoristas parceiros sobre violência contra a mulher, entre outras ações. Em novembro, a Uber anunciou um investimento de R$ 5 milhões para continuidade desse compromisso ao longo dos próximos anos“.

Giovanna Fávero

Giovanna Fávero

Estudante de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Escreve com foco na área de Guia e Cultura no BHAZ.

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