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‘Efeito Bolsonaro’: Cidades bolsonaristas são as mais afetadas por Covid-19 em Minas Gerais

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Municípios de Minas Gerais onde o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), foi vitorioso nas eleições de 2018 são os mais afetados pelo novo coronavírus: 70% das cidades mineiras com algum caso confirmado da doença foram bolsonaristas no pleito derradeiro. Além disso, as dez localidades do Estado com mais de 100 casos de Covid-19 também garantiram a vitória ao capitão reformado.

Dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mostram que o atual presidente venceu o segundo turno em 445 cidades mineiras – ou 52% das 853 cidades mineiras, o que evidencia um pleito equilibrado entre os municípios. No entanto, o mesmo equilíbrio não aparece entre as localidades do Estado com ao menos um caso confirmado.

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O boletim da SES-MG (Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais) informa que 365 cidades mineiras possuíam pelo menos um caso confirmado de Covid-19 até a última sexta-feira (22). Desse total, 254 municípios, ou 70%, deram a vitória a Bolsonaro no segundo turno – preferência que, segundo especialistas ouvidos pelo BHAZ, contribui para a propagação da doença.

“Como em 2018 a maioria dos eleitores desses municípios votou no Bolsonaro, essa parcela da população tende a ser mais permeável ao discurso negacionista do presidente, que é contrário ao isolamento. Ao mesmo tempo, prefeitos que foram aliados podem não estar sendo tão assertivos nas medidas”, analisa Marta Mendes, coordenadora do Nepol (Núcleo de Estudo sobre Política Local), responsável por pesquisa sobre a atuação dos governos municipais frente à Covid-19 (veja mais aqui).

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“Influência com certeza tem. Por exemplo, é possível observar que as regiões de Belo Horizonte com maior número de casos são antros do Bolsonaro, como o Buritis, Belvedere, e a região Centro-Sul. É possível dizer que, hoje, o bolsonarista é mais exposto ao vírus do que uma pessoa normal, digamos assim”, afirma o professor do departamento de Ciência Política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Carlos Ranulfo.

Concentração

Além de representar 70% do total de municípios mineiros com Covid-19, as cidades bolsonaristas em 2018 também concentram a maior quantidade de casos confirmados da doença. Todas as 10 cidades com o maior número de contaminados pelo novo coronavírus deram vitória ao Bolsonaro no segundo turno.

Mesmo em um universo de 853 municípios, essas dez cidades concentram mais da metade dos casos confirmados em Minas – 53% para ser mais preciso, ou, em números absolutos, 3.189 do total de 5.995 casos confirmados (também são computadas mortes por Covid-19) até a última sexta-feira‬.

Mesmo se Belo Horizonte for excluída por ser capital – e concentrar, naturalmente, mais casos -, o ranking das 10 cidades mais afetadas pela Covid-19 continua repleto de municípios bolsonaristas em 2018. A 11ª cidade na lista é Pouso Alegre, que teve 72% dos votos válidos em Bolsonaro há pouco menos de dois anos, e possuía 84 casos confirmados até sexta-feira.

“Todos os domingos centenas de pessoas se aglomeram em Brasília e em outras capitais, inclusive à convite do próprio presidente, de maneira perigosa, o que não é recomendado em uma pandemia como essa. Adotam o discurso de que a Covid-19 é uma é gripezinha e que não precisam tomar os cuidados devidos”, afirma Ranulfo.

Mesmo em meio à epidemia, apoiadores do presidente organizaram protestos com aglomerações (Amanda Dias/BHAZ)

Não é coincidência

Um estudo produzido pelo professor de economia Tiago Cavalcanti e os colegas Daniel da Mata e Nicolás Ajzenman, da Fundação Getulio Vargas, mostra como o discurso de Bolsonaro prejudicou o distanciamento social no Brasil – e, consequentemente, contribuiu para a propagação da Covid-19.

Intitulado como More than Words: Leaders’ Speech and Risky Behavior During a Pandemic (em tradução livre, Mais do que Palavras: Discursos de Líderes e Comportamento de Risco durante uma Pandemia), o artigo foi publicado em abril pela Universidade de Cambridge, do Reino Unido.

Para estudo, discurso de Bolsonaro em cadeia nacional de rádio e TV foi um dos pontos que enfraqueceram isolamento social no Brasil (Reprodução/TV Brasil)

“Encontramos um forte efeito de persuasão de Bolsonaro sobre o comportamento de seus apoiadores. Em particular, documentamos uma diminuição significativa no distanciamento social, seguindo os mais visíveis eventos do presidente contra comportamentos e políticas de auto-isolamento nos municípios pró-Bolsonaro”, diz trecho do estudo (veja na íntegra aqui).

Outro detalhe mostrado pelo estudo é de que o discurso do presidente tem uma entrada maior em municípios com mais acesso à internet. “Também apresentamos evidências sugestivas de que a mensagem é mais eficaz entre os municípios com maior presença da mídia local e penetração da internet”, conclui.

Efeito Bolsonaro’

Com base no estudo citado acima e nas pesquisas quem vem realizando sobre políticas locais, a pesquisadora Marta Mendes levanta dois cenários que explicam o que ela chama de “Efeito Bolsonaro”: a influência sobre os cidadãos e, também, sobre os governantes das cidades onde o presidente foi vencedor.  

“A ação do presidente [em incentivar a quebra do distanciamento social] acaba influenciando diretamente no indivíduo. Desta forma, a população que o apoia aceita mais o argumento dele”, afirma a estudiosa, que também é professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).

“Já os prefeitos estão tentando adotar medidas de restrição e isso tem um custo alto para eles, pois acabam sofrendo pressões da sociedade e de empresários e precisam resistir a elas. Enquanto isso, governos estaduais também começam a afrouxar medidas. Sem o respaldo do presidente e do governador, fica difícil manter o isolamento”, afirma Marta Mendes, ao estender sua análise ao governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo).

Presidente Jair Bolsonaro participa de manifestação com apoiadores aglomerados, com avanço do coronavírus no país (José Cruz/Agência Brasil)

A pesquisadora faz uma ponderação: a perda de apoio de Bolsonaro ao longo da pandemia. “O presidente perdeu 10 pontos percentuais de avaliação positiva desde o início da pandemia. É preciso levar isso em consideração, já que ele tem perdido apoio, mesmo entre pessoas que votaram nele na última eleição”.

Na prática

É visível no mapa acima como o apoio a Bolsonaro, no segundo turno em 2018, se concentrou no Sul de Minas e no Triângulo Mineiro; enquanto a rejeição ficou evidente no Norte do Estado.

“Pode ser que os prefeitos dessas regiões estejam tomando as mesmas medidas, porém um está lidando com uma parte da população mais porosa ao discurso do presidente e isso pode prejudicar na condução das ações contra a doença”, analisa a professora Marta Mendes.

“A questão do efeito direto ou indireto não anula um ao outro. Na verdade, as duas coisas podem estar acontecendo ao mesmo tempo”, complementa, sobre a questão abordada anteriormente: o efeito de Bolsonaro sobre a população e também sobre os governantes locais.

A fim de exemplificar a análise, o BHAZ escolheu as cidades mais afetadas pela Covid-19 nas duas regiões antagônicas sob essa ótica. Até a atualização da última sexta-feira, Senador José Bento era o município do Sul com maior taxa de concentração da doença por 100 mil habitantes, enquanto São Francisco, o mais afetado no Norte.

Sul
de Minas

A pequena cidade de Senador José Bento possui uma população aproximada de 1,5 mil pessoas e acumulava quatro casos confirmados de Covid-19, o equivalente a uma projeção de 266 doentes por 100 mil habitantes. Na última eleição, a cidade registrou 69% dos votos válidos em Bolsonaro.

Cidade de Senador José Bento no Sul de Minas (Prefeitura de Senador José Bento/Facebook/Reprodução)

Procurado, o prefeito do município, Fernando César Fernandes (Patriotas), admitiu que o comércio na cidade não foi suspenso. “Estamos mantendo aberto até às 19h. Acho que a situação aqui está controlada, podemos abrir tranquilo”, afirmou.

O prefeito local ainda confirmou que a população da cidade concorda com o posicionamento do presidente da República, que incentiva o pleno funcionamento do comércio.

“Eu, por exemplo, não votei nele, mas acho que a vida tem que continuar, as pessoas precisam trabalhar, não tem como parar. E a população aqui, na maioria, tem essa mentalidade também. A exigência é usar a máscara e tomar os cuidados”, afirma. “Quanto ao resto, a população tem que fazer a parte dela”.

O gestor municipal ainda diz que distribuiu álcool em gel e máscaras por alguns pontos da cidade, além de “montar duas barreiras sanitárias na entrada da cidade para monitorar os casos suspeitos”.

Norte
de Minas

Na fatia Norte do Estado, a cidade de São Francisco, que tem aproximadamente 56,3 mil habitantes, é a mais afetada pelo coronavírus. O município havia registrado, até sexta-feira, 26 casos da doença. Na projeção, o número de infectados equivale a 46 a cada 100 mil habitantes.

Cidade de São Francisco no Norte de Minas (Prefeitura de São Francisco/Facebook/Reprodução)

Em comparação com Senador José Bento, o índice é mais baixo, mesmo tendo mais casos em termos absolutos, porque a população da cidade é consideravelmente maior. Outra diferença entre as cidades é o apoio ao atual presidente Jair Bolsonaro na última eleição: a cidade registrou apenas 29% dos votos válidos no presidente eleito.

A diferença também se estende à postura adotada pelo prefeito Evanilso Aparecido Carneiro (PR), conhecido como “Veim”: nada de cidade a pleno vapor. “O comércio está fechado, funcionando apenas o essencial. As pessoas devem usar máscara e adotar os protocolos de saúde”, afirma.

O gestor credita o alto número de casos na cidade, mesmo com a restrição, à proximidade com Montes Claros e afirma que a população está contribuindo. “Tem pouca gente sem máscara. O comércio é o seguinte: se abre ou se fecha o povo reclama do mesmo jeito. Mas o povo está aceitando”.

Apesar de ter votado em Bolsonaro, o prefeito é crítico ao posicionamento do presidente. “Fui o único prefeito aqui da região que apoiou ele aqui, que fez carreata e tudo em 2018. Mas ele fala demais, vai contra o protocolo certo da Organização Mundial de Saúde e do Ministério da Saúde. Então não acho certo ele fazer o que está fazendo, sou contra as ideias dele”, afirma.

Rafael D'Oliveira

Rafael D'Oliveira

Repórter do BHAZ desde janeiro de 2017. Formado em Jornalismo e com mais de cinco anos de experiência em coberturas políticas, econômicas e da editoria de Cidades. Pós-graduando em Poder Legislativo e Políticas Públicas na Escola Legislativa.

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