Pesquisas eleitorais são confiáveis?

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Pesquisa eleitoral é confiável? Confira a opinião de especialistas (José Cruz/Agência Brasil + Reprodução/Flourish)

Durante o período eleitoral surgem inúmeras pesquisas de intenção de voto. Elas mostram o atual cenário da disputa e os candidatos que estão nas primeiras posições. Esses estudos servem também para orientar as estratégias de campanha, mas acabam influenciando na escolha do voto.

Nas últimas eleições, principalmente em 2018, houve um movimento de descrédito das pesquisas no Brasil. Para especialistas, isso é um erro no entendimento da população. Entretanto, uma segunda linha de pensamento, diz que as pesquisas podem prejudicar as eleições. Entenda:

Como é feita uma pesquisa eleitoral?

Uma pesquisa eleitoral é feita por encomenda. O cliente pode ser um candidato, um veículo de comunicação, um partido, uma organização civil etc. Mas, antes de tudo, os parâmetros do levantamento são registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ou no TRE (Tribunal Regional Eleitoral). Toda a população tem acesso aos registros (para ver, clique aqui).

Após o registro, os institutos definem qual será o público entrevistado, o que eles chamam de amostra.

Frequentemente, para chegar ao recorte ideal, as empresas utilizam dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), do TSE ou bancos próprios.

O que é margem de erro?

Toda pesquisa apresenta uma margem de erro. Isso significa que, apesar do recorte da amostra se aproximar da população, ele pode apresentar erros. Em uma pesquisa com 100% de precisão, deve ouvir toda a população, o que é inviável.

Além disso, os cenários de uma pesquisa podem sofrer influências, por exemplo, de contextos econômicos e sociais, notícias, propaganda eleitoral, debates, ataques, fatos novos etc.

Desta forma, os erros são calculados em pontos percentuais. Levando em consideração a margem de erro do Ibope Inteligência, que é umas das referências em pesquisas eleitorais, esse percentual pode chegar a três pontos. O que isso quer dizer?

Por exemplo, um candidato A que está com 30% das intenções de voto, pode, na verdade, estar com 27% ou 33%. Assim como um candidato B que está com 27% do público, pode estar com 30% ou 24%. Na prática, os dois concorrentes estão em situação de empate técnico dentro da margem de erro.

Nível de confiança

Os levantamentos eleitorais contam com níveis de confiança. Geralmente, esse índice fica na casa dos 95%. Ou seja, a cada 100 pesquisas feitas, 5 podem apresentar resultados diferentes do previsto. Isto, seguindo os mesmos critérios adotados na produção da pesquisa.

As pesquisa podem errar?

Segundo a CEO do Ibope Inteligência, Marcia Cavallari, é um equívoco dizer que as pesquisas acertam ou erram. “Vamos esclarecer aqui alguns pontos. O objetivo de uma pesquisa eleitoral não é o de antecipar os resultados da eleição, mas sim o de mostrar o cenário no momento em que foi realizada. A pesquisa é uma fotografia do momento e não tem o poder e nem a intenção de prever o resultado de uma eleição” afirma.

Desta forma, não se deve utilizar as pesquisas para tentar antecipar o resultado das eleições. “Em todas as pesquisas que realizamos, nosso papel é o de mensurar as opiniões da sociedade, tirando uma foto de uma situação que é dinâmica, já que opiniões mudam e se adaptam de acordo com a informação disponível e o contexto político”, acrescenta a especialista”.

Redes sociais mudam cenário

Marcia Cavallari explica que com a entrada das redes sociais no processo eleitoral, a dinâmica das campanhas eleitorais mudara, causando efeito nas pesquisas, que mostra uma mudança de cenário constante. Ao mesmo tempo, isso ajuda na disparada de candidatos e eleições surpreendentes.

Por exemplo, a vitória do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) no pleito de 2018. As pesquisas mostravam um cenário desfavorável para o então candidato. Contudo, o Zema disparou após declarar apoio a Jair Bolsonaro e foi eleito para o cargo.

Eleições de 2018 é um marco?

Os questionamentos quanto às pesquisas eleitorais foram alavancados em 2018, quando o presidente eleito Jair Bolsonaro criticou os levantamentos e, até mesmo, o processo eleitoral brasileiro.

Para o cientista político Malco Camargo, esse movimento não representa de fato os eleitores brasileiros. “Tem grupo que questiona os resultados eleitorais, as urnas e as pesquisas. Trata-se apenas de um motim de parte da sociedade que questiona instituições ligadas a democracia, mas que não representa o que de fato são os processos eleitorais”, explica.

Pesquisas e o voto útil

Segundo José Luiz Quadros, professor de direito constitucional e teoria do estado da UFMG, as pesquisas eleitorais atrapalham o papel da democracia, pois incentivam a prática do voto útil, uma ação estratégica adotada pelos eleitores quando os seus candidatos favoritos não estão bem nas disputas (saiba mais sobre aqui).

“As pessoas vão percebendo que as pesquisas podem manipular o voto. Esse movimento de rejeição às pesquisas tem um lado positivo”, diz o professor. No entanto, Quadros ressalta que não é contrário às pesquisas. “Não acho que tem que proibir nada. As pessoas têm que fazer sim esse movimento de rejeição, assim como o de aceitação. O importante é que as pessoas não se deixem influenciar e votem em quem de fato acreditem”, acrescenta o docente. 

Marcia Cavallari diz que as pesquisas não definem voto, apenas trazem mais sustentação. Nossas pesquisas são uma informação a mais sobre o processo eleitoral. É neste contexto que nossas pesquisas precisam ser interpretadas”, finaliza.

Edição: Marcela Gonzaga
Rafael D'Oliveira
Rafael D'Oliveirarafael.doliveira@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde janeiro de 2017. Formado em Jornalismo e com mais de cinco anos de experiência em coberturas políticas, econômicas e da editoria de Cidades. Pós-graduando em Poder Legislativo e Políticas Públicas na Escola Legislativa.

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