PBH recebe alerta de ‘cenário caótico’ na rede de saúde: ‘Medidas urgentes’

upa centro sul
Sindicato denuncia falta de estrutura para atender pacientes nas UPAs (Amanda Dias/BHAZ)

Em meio à fase mais preocupante da pandemia de Covid-19 em BH, o Sindibel (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte) enviou um ofício ao Executivo municipal para alertar sobre a situação caótica da rede de saúde da capital mineira. A entidade aponta falta de profissionais, estrutura e equipamentos adequados para atender os pacientes e marcou, para amanhã (7), um ato simbólico cujo objetivo é alertar a população, além de reivindicar medidas urgentes para amenizar os problemas.

O documento enviado à PBH (Prefeitura de Belo Horizonte) nessa segunda-feira (5), assim como o ato simbólico, também foi motivado pela preocupação com a situação dos profissionais da saúde e pacientes. “Ele fala tudo que nós estamos denunciando. As mortes, pelo relato dos profissionais, tiveram um aumento de no mínimo cinco vezes nesses últimos dias”, conta Bruno Pedralva, membro da diretoria do Sindibel, ao BHAZ.

“O número de óbitos que ocorrem nas UPAs normalmente é de duas mortes por semana. Nesses últimos dias, foram 10 mortes por semana”, detalha Daniel. O diretor da entidade relata também que, para os que ainda estão lutando contra a doença, a situação não é muito diferente.

“Às vezes, em alguns momentos, pacientes graves ficaram sob cuidado de equipes incompletas e numa quantidade inferior ao ideal. Às vezes, intubado sem monitor, aguardando respirador… São questões técnicas, mas são casos graves que não receberam o tratamento adequado”, explica.

Filas para receber tratamento

De acordo com um levantamento feito pelo Sindibel, entre a última sexta-feira (26) e esta terça-feira (6), 88 pessoas perderam a vida para o coronavírus nas unidades de pronto atendimento da capital – dessas, 20 sequer conseguiram o atendimento adequado e morreram aguardando na fila uma vaga de CTI (Centro de Terapia Intensiva).

“A gente tem relato dos colegas trabalhadores de que algumas pessoas estão morrendo depois de espera prolongada por leito de CTI”, conta Daniel. “O paciente fica lá cinco, sete, temos relatos de até oito dias esperando uma vaga em leito de CTI. Isso é inadmissível, porque UPA não é CTI”, pontua. Segundo a PBH, ainda não há registros oficiais de morte por falta de assistência na capital (veja abaixo).

‘Faltam equipamentos’

Ainda segundo os trabalhadores representados pelo Sindibel, a rede de saúde da capital vive um momento que muitos já previam e tentaram evitar: o de falta de estrutura adequada para cuidar das vítimas da Covid-19. “Faltam equipamentos necessários para atendimentos: pontos de oxigênio e balas de oxigênio chegaram a faltar em alguns momentos”, diz um trecho do ofício enviado à PBH.

O documento detalha ainda mais a situação e afirma que pacientes com falta de ar intensa e que não reagem aos tratamentos menos invasivos “estão tendo sua intubação postergada por falta de ventilador mecânico ou por falta de espaço em salas de emergência”. “quando intubados, estão sendo mantidos vivos com uso de ambu, o que é uma conduta contraindicada devido risco de geral aerossóis, até a chegada de ventiladores mecânicos”, diz o texto.

O sindicato também alerta para a falta de estrutura básica nas UPAs, que têm salas de emergência com lotação excedida, e para a falta de profissionais. “Escalas de enfermagem e médicas estão desfalcadas e com número
inadequado diante da complexidade dos casos, com riscos de assistência inadequada e precária”, afirma o ofício.

Dia de luta

Justamente por causa desse cenário preocupante, o Sindibel resolveu mobilizar os trabalhadores da área para reivindicar medidas de emergência. E a data da mobilização não foi escolhida ao acaso. Esta quarta-feira, 7 de abril, marca o Dia Mundial da Saúde – que, em BH, será de luta por melhores condições de trabalho para os profissionais e de tratamento para os pacientes.

“Amanhã, todos os profissionais do SUS vão de preto e, às 13h, simultaneamente, todas as UPAs vão balançar balões pretos das janelas e afixar cartazes denunciando a situação das UPAs, dos usuários e profissionais”, adianta Daniel. A entidade também vai aproveitar a oportunidade para atualizar os dados sobre a situação do combate à Covid-19 nas unidades de saúde e reforçar o alerta.

Segundo o sindicato, a ideia não é responsabilizar exclusivamente o governo municipal pelo cenário caótico, mas sim cobrar atitudes para que os impactos não sejam tão grandes. “Reconhecemos que o colapso do sistema de saúde também ocorre em outros municípios e estados do país”, diz o documento enviado à prefeitura.

O texto também cita a lentidão no envio de vacinas e a falta de um hospital de campanha do governo estadual. “Mas, diante dos graves fatos, solicitamos medidas urgentes e, se possível, uma reunião em carácter de urgência para discutirmos possíveis soluções”, conclui o ofício.

O que diz a PBH?

Procurada pelo BHAZ, a prefeitura informou que não foram registrados óbitos por falta de assistência nas UPAs da capital. “Os óbitos registrados foram de pacientes que estavam sendo assistidos conforme necessidade do momento”, disse, em nota (leia na íntegra abaixo). O Executivo municipal reconheceu que a situação em BH é grave, mas afirmou que “trabalha de forma ininterrupta para que todos os pacientes sejam atendidos”.

“A Secretaria Municipal de Saúde tem trabalhado, de forma incansável, para abrir novos leitos no município e manter a assistência médica à população”, diz trecho da nota, que ressalta ainda que “houve um aumento significativo da gravidade no quadro clínico dos pacientes, que agora são mais jovens, e procuram as unidades demandando atendimento em leitos de urgência”. Mesmo assim, segundo a PBH, todos os pacientes das UPAs são atendidos conforme a necessidade do momento.

A prefeitura listou ainda várias medidas tomadas para tentar amenizar os impactos da doença em Belo Horizonte, como a abertura de novos leitos de tratamento intensivo e o funcionamento ininterrupto de centros de saúde em todas as regionais da cidade para atender casos não relacionados a Covid-19 – e, consequentemente, desafogar as UPAs -, entre outras.

Ainda na nota, a PBH esclareceu que mantém diálogo com o Sindibel e reforçou a urgência de vacinar a população belo-horizontina o mais rápido possível. “A Secretaria Municipal de Saúde reafirma a disponibilidade de pessoal e todos os insumos necessários para a imediata continuidade do processo de vacinação”, finalizou.

Nota da PBH na íntegra:

A Prefeitura de Belo Horizonte informa que não foram registrados óbitos por falta de assistência nas UPAs. Os óbitos registrados foram de pacientes que estavam sendo assistidos conforme necessidade do momento. Belo Horizonte, assim como todo o país, se encontra em uma situação grave em relação à pandemia da Covid-19. As UPAs da capital têm apresentado aumento na procura por atendimento nas unidades e a Secretaria Municipal de Saúde trabalha de forma ininterrupta para que todos os pacientes sejam atendidos. Porém, a Covid-19 é uma doença grave e muitos casos evoluem para óbito.

A Secretaria Municipal de Saúde tem trabalhado, de forma incansável, para abrir novos leitos no município e manter a assistência médica à população. É importante ressaltar que houve um aumento significativo da gravidade no quadro clínico dos pacientes, que agora são mais jovens, e procuram as unidades demandando atendimento em leitos de urgência, com ventilação mecânica, e atendimento em leitos semi-intensivos. Todos os pacientes que estão nas UPAs são assistidos conforme necessidade do momento.

Atualmente, as UPAs contam com equipe assistencial, 84 leitos de urgência (equipados com respiradores) e 320 de observação. No início de março, eram 42 leitos de urgência e 207 de observação. No que se refere a leitos hospitalares, somente em março foram abertos 266 leitos de UTI Covid na rede pública. Atualmente, são 549 unidades de terapia intensiva, totalizando o maior número de leitos de UTI desde o início da pandemia. Também em março foram abertos 408 leitos de enfermaria Covid na rede pública, alcançando 1.185 unidades.

A Prefeitura abriu ainda centros de saúde, nas nove regionais, com funcionamento todos os dias, 24h, para atender a casos não Covid. Essa estratégia visa ampliar o atendimento de pessoas que não apresentam sintomas respiratórios e são classificados como baixa e média complexidade, deixando as UPAs dedicadas, prioritariamente, ao atendimento dos casos sintomáticos respiratórios, pediatria e traumas.

Outra ação da Prefeitura foi a abertura de quatro Centros Especializados em Covid-19, nas regionais Barreiro, Centro-Sul, Norte e Venda Nova.

A implantação de Hospital de Campanha não é uma estratégia da Prefeitura, que optou por investir nos hospitais da rede SUS-BH, com ampliação e/ou qualificação dos leitos nessas unidades para atendimento aos casos suspeitos de Covid-19. O município tem realizado abertura de leitos Covid nos hospitais que atendem ao SUS, de acordo com os dados epidemiológicos e assistenciais na cidade, e mediante recursos humanos necessários para o devido funcionamento. Além disso, hospitais de campanha não oferecem estrutura para leitos de UTI.

É imprescindível que novas remessas de vacinas sejam entregues por parte do Ministério da Saúde e Governo do Estado para a ampliação dos grupos definidos para a imunização. A Secretaria Municipal de Saúde reafirma a disponibilidade de pessoal e todos os insumos necessários para a imediata continuidade do processo de vacinação.

A Prefeitura mantém diálogo constante com o sindicato.

Edição: Roberth Costa
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Repórter no BHAZ desde outubro de 2019. Jornalista graduada pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e com atuação focada nas editorias de Cidades, Guia e Cultura.

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