Idosa diz que cabelo black power de jovem é ‘horroroso’: ‘Dono do mundo’

Luís foi vítima injuria racial
Jovem foi vítima de injúria racial enquanto trabalhava (Arquivo pessoal/Luís Henrique + Reprodução/Juba Amapaense/Facebook)

“Me senti muito humilhado, desrespeitado e violado”. Assim que Luís Henrique Medeiros, de 27 anos, define a experiência de ter sido vítima de racismo enquanto trabalhava em uma drogaria de Uberaba, no Triângulo Mineiro, na última terça-feira (13). Uma idosa de 66 fez comentários racistas devido ao corte de cabelo do jovem e disse que ele deveria voltar para o “gueto”, pois é um “vagabundo”.

O caso ganhou grande repercussão e vídeos circulam pela web mostrando o comportamento agressivo da idosa com a vítima. Tudo começou, segundo a PM, quando Luís tentou separar uma discussão da cliente com atendentes do caixa. O fato é confirmado pelo rapaz em entrevista ao BHAZ.

“Nas imagens da gravação [do circuito de segurança], dá para ver que ela estava alterada, tanto que ela discutiu com os meninos do balcão e do caixa”, relembra. Luís interveio na tentativa de acalmar os ânimos e acabou sofrendo os ataques racistas. A idosa criticou o corte black power do jovem dizendo que ele trabalhava mal por conta disso e o chamou de “ridículo”.

A Polícia Militar foi chamada e nem mesmo a presença dos militares foi suficiente para que ela parasse os ataques. “Esse cabelo seu ocupa espaço no mundo. Não é porque ele é crespo. A gente na vida não pode atrapalhar os outros. Se você for no cinema, você me atrapalha”, disse a idosa em um dos trechos da gravação.

Os comentários racistas prosseguiram e a cliente disse que o cabelo de Luís é “horroroso” e sugeriu que ele o alisasse. “Esse cabelo, além de ser horroroso, é tipo assim, todo mundo está alisando o cabelo por uma questão espacial. O Brasil está super populado [sic]”, afirmou.

“Eles têm que também não ser dono do mundo não. Esse cabelo atrapalha, vamos falar racionalmente. Eu posso sair nua na rua? Não. Tem toda uma regra existencial. Eu também sou negra. No Brasil não tem ninguém branco não”, falou a idosa dando uma risada irônica.

‘Discurso de ódio’

Desde os ataques sofridos, Luís ainda não voltou a trabalhar e busca na psicologia a ajuda para enfrentar mais esse preconceito enfrentado. “Foi uma situação muito humilhante. Pra gente que é preto e tem o cabelo crespo, historicamente já temos uma difícil aceitação de nós mesmos, pois o cabelo certo é o alinhado e o ‘fora do padrão’ não é bem visto. Estou procurando atendimento psicológico”.

Luís classifica a fala da idosa como “discurso de ódio” e vai acionar a Justiça para processar a cliente da drogaria. “Vou levar isso para o resto da minha vida. Não dá para apagar. Estamos começando a nos movimentar para procurarmos a Justiça. Vamos tentar levar para a esfera criminal pelos crimes de racismo e homofobia”, diz Luís.

A homofobia citada é por conta dele ter sido chamado de “bicha” pela idosa. “O mínimo que posso fazer é lutar. Não vou aceitar isso. Não podemos dar voz para pessoas assim. Eu mereço respeito, estava trabalhando, sendo solícito e aconteceu tudo isso. Vou entrar com danos morais e materiais”.

Delegacia

A idosa foi levada para a delegacia. Na presença do advogado, se comprometeu a comparecer a uma audiência que será marcada para tratar o caso e acabou não sendo presa. Luís contou que na unidade policial não teve contato com ela e que em momento algum recebeu um pedido de desculpas.

Edição: Thiago Ricci
Vitor Fórneas
Vitor Fórneasvitor.forneas@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde maio de 2017. Jornalista graduado pelo UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte) e com atuação focada nas editorias de Cidades e Política. Teve reportagens agraciadas pelo prêmio CDL.

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