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CCBB recebe nova montagem da peça ‘O beijo no asfalto’ em comemoração aos 50 anos do Grupo Oficcina Multimédia

25/08/2026 às 15h17
(Divulgação/Netun Lima)

O Grupo Oficcina Multimédia (GOM) estreia, em 28 de agosto, uma nova montagem de O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues. A apresentação será no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Belo Horizonte, onde o espetáculo fica em cartaz até 5 de outubro. Depois da temporada na capital mineira, estão previstas apresentações no CCBB Rio de Janeiro e no CCBB Brasília.

A montagem abre as celebrações dos 50 anos do grupo e também completa a trilogia dedicada à obra de Nelson Rodrigues, iniciada com Boca de Ouro, em 2018, e seguida por Vestido de Noiva, em 2023. O trabalho de 2023 rendeu a Ione de Medeiros o Prêmio APCA de Melhor Direção.

Escrita em 1960 e apresentada pela primeira vez em julho de 1961 pela Companhia dos Sete, com direção de Fernando Torres e Fernanda Montenegro no elenco, a peça acompanha Arandir, que presencia um atropelamento e atende ao último pedido de um desconhecido agonizante: um beijo.

O gesto de compaixão, porém, é transformado em escândalo. A imprensa, a polícia, a vizinhança e a família passam a construir uma narrativa de desvio sexual, crime e traição, enquanto a versão de Arandir perde espaço para uma história sustentada por preconceitos, chantagens e falsos testemunhos.

Na montagem do GOM, a discussão não se concentra apenas na relação da peça com temas atuais, como fake news, pós-verdade e cancelamento. O espetáculo investiga como uma sociedade pode transformar um ato de humanidade em prova contra quem o praticou.

“A tecnologia hoje amplia a circulação da acusação, mas o mecanismo social de condenação pública continua o mesmo”, afirma Ione de Medeiros, diretora do Grupo Oficcina Multimédia.

Uma sociedade que fabrica culpados

Na leitura do GOM, diferentes estruturas sociais contribuem para validar a acusação contra Arandir. O jornalista Amado Ribeiro deixa de apurar o acontecimento e organiza os fatos de acordo com a história que pretende publicar. A polícia conduz o interrogatório para confirmar a acusação, enquanto a família incorpora a versão pública e abandona a confiança construída na intimidade.

A acusação circula pela casa, pela vizinhança, pelo escritório, pela delegacia e pelo jornal até adquirir força de sentença. Para Ione de Medeiros, Arandir começa a morrer socialmente antes do desfecho físico, quando terceiros passam a ter mais autoridade sobre sua identidade do que ele próprio.

A montagem também aborda a repressão do desejo e os códigos relacionados à masculinidade. Aprígio, sogro de Arandir, é apresentado como um homem socialmente ajustado e dentro dos padrões de respeitabilidade. A escolha evita uma caricatura do desejo reprimido e desloca a discussão para o conflito de quem direciona contra o outro uma violência ligada à incapacidade de admitir os próprios sentimentos.

Cenário como parte da dramaturgia

A montagem utiliza uma concepção cênica baseada em elementos móveis e transformáveis, uma prática presente na trajetória do Grupo Oficcina Multimédia. Objetos, imagens, sons, corpos e movimentos participam da construção da dramaturgia.

O palco é dividido em dois territórios. De um lado, aparecem os espaços externos da cidade, como escritório, delegacia e áreas de circulação, marcados por estruturas frias, simétricas e verticais. Do outro, está a sala familiar, com sofás, poltrona, mesa e tapete.

O espaço doméstico muda de posição, aproxima-se da plateia, recua e se desfaz à medida que a família deixa de funcionar como espaço de proteção. Os próprios atores manipulam portas, mesas, cadeiras e outros elementos, construindo e desmontando os ambientes diante do público.

Em alguns momentos, a sala avança até o proscênio e aproxima a vida familiar dos espectadores. Ione define a relação como um “buraco da fechadura agigantado”, em que o público não participa diretamente da ação, mas assume uma posição de observador da intimidade dos personagens.

Vídeo cria espaço de confidência

O espetáculo também utiliza vídeos produzidos especialmente para a montagem. Diferentemente de Vestido de Noiva, em que as projeções ajudavam a construir os planos de realidade, memória e alucinação, desta vez o recurso cria um espaço de confidência.

Em breves depoimentos, os personagens dirigem-se à plateia e revelam sentimentos que não conseguem compartilhar entre si.

“Como a família não escuta, os personagens falam à plateia, como pacientes num divã em uma conversa terapêutica”, afirma Henrique Torres Mourão, ator e produtor audiovisual do GOM.

Os vídeos são projetados em portas e diferentes pontos do cenário. Os rostos ampliados transformam a intimidade em matéria pública e alteram a escala dos personagens.

Trilogia de Nelson Rodrigues

O beijo no asfalto encerra a trilogia dedicada pelo GOM à dramaturgia de Nelson Rodrigues. Em Boca de Ouro, de 2018, a companhia trabalhou com maior orientação pela força do texto, mantendo objetos transformáveis e soluções espaciais próprias de sua linguagem.

Em Vestido de Noiva, de 2023, o cenário móvel, o vídeo e a multiplicidade funcional dos objetos contribuíram para a construção dos planos de realidade, memória e alucinação.

Na nova montagem, o grupo reúne elementos das duas experiências e mantém os espaços indicados pela dramaturgia de Nelson Rodrigues, mas faz com que eles sejam montados, deslocados e desmontados diante do público.

Ao completar a trilogia e abrir as celebrações de seus 50 anos, o Grupo Oficcina Multimédia apresenta uma leitura de O beijo no asfalto centrada na transformação de um gesto de compaixão em motivo de condenação. Ao final da peça, Arandir afirma que aquele beijo foi a melhor coisa que fez na vida.

Então, se liga!!

O beijo no asfalto

Local: Teatro I – CCBB-BH
Data: 28 de agosto a 5 de outubro de 2026, de sexta a segunda-feira
Horário: 20h
Ingressos: R$ 15 (meia) e R$ 30 (inteira), disponíveis a partir de 19 de agosto
Endereço: Praça da Liberdade, 450, Funcionários, Belo Horizonte
Classificação: 16 anos
Duração: 100 minutos

A sessão de 4 de outubro foi antecipada para 1º de outubro, no mesmo horário. Haverá apresentações com intérprete de Libras em 4, 13, 19 e 28 de setembro e com audiodescrição em 12 de setembro e 2 de outubro.

Anota aí!

Classificação etária: Livre
Entrada: Gratuita

Lavínia Fernandes

Jornalista formada pela PUC Minas. Publicou um artigo sobre alfabetização midiática pela Intercom. Foi estagiária de assessoria de comunicação na ALMG. Repórter no BHAZ desde novembro de 2024.
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