O Grupo Oficcina Multimédia (GOM) estreia, em 28 de agosto, uma nova montagem de O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues. A apresentação será no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Belo Horizonte, onde o espetáculo fica em cartaz até 5 de outubro. Depois da temporada na capital mineira, estão previstas apresentações no CCBB Rio de Janeiro e no CCBB Brasília.
A montagem abre as celebrações dos 50 anos do grupo e também completa a trilogia dedicada à obra de Nelson Rodrigues, iniciada com Boca de Ouro, em 2018, e seguida por Vestido de Noiva, em 2023. O trabalho de 2023 rendeu a Ione de Medeiros o Prêmio APCA de Melhor Direção.
Escrita em 1960 e apresentada pela primeira vez em julho de 1961 pela Companhia dos Sete, com direção de Fernando Torres e Fernanda Montenegro no elenco, a peça acompanha Arandir, que presencia um atropelamento e atende ao último pedido de um desconhecido agonizante: um beijo.
O gesto de compaixão, porém, é transformado em escândalo. A imprensa, a polícia, a vizinhança e a família passam a construir uma narrativa de desvio sexual, crime e traição, enquanto a versão de Arandir perde espaço para uma história sustentada por preconceitos, chantagens e falsos testemunhos.
Na montagem do GOM, a discussão não se concentra apenas na relação da peça com temas atuais, como fake news, pós-verdade e cancelamento. O espetáculo investiga como uma sociedade pode transformar um ato de humanidade em prova contra quem o praticou.
“A tecnologia hoje amplia a circulação da acusação, mas o mecanismo social de condenação pública continua o mesmo”, afirma Ione de Medeiros, diretora do Grupo Oficcina Multimédia.
Uma sociedade que fabrica culpados
Na leitura do GOM, diferentes estruturas sociais contribuem para validar a acusação contra Arandir. O jornalista Amado Ribeiro deixa de apurar o acontecimento e organiza os fatos de acordo com a história que pretende publicar. A polícia conduz o interrogatório para confirmar a acusação, enquanto a família incorpora a versão pública e abandona a confiança construída na intimidade.
A acusação circula pela casa, pela vizinhança, pelo escritório, pela delegacia e pelo jornal até adquirir força de sentença. Para Ione de Medeiros, Arandir começa a morrer socialmente antes do desfecho físico, quando terceiros passam a ter mais autoridade sobre sua identidade do que ele próprio.
A montagem também aborda a repressão do desejo e os códigos relacionados à masculinidade. Aprígio, sogro de Arandir, é apresentado como um homem socialmente ajustado e dentro dos padrões de respeitabilidade. A escolha evita uma caricatura do desejo reprimido e desloca a discussão para o conflito de quem direciona contra o outro uma violência ligada à incapacidade de admitir os próprios sentimentos.
Cenário como parte da dramaturgia
A montagem utiliza uma concepção cênica baseada em elementos móveis e transformáveis, uma prática presente na trajetória do Grupo Oficcina Multimédia. Objetos, imagens, sons, corpos e movimentos participam da construção da dramaturgia.
O palco é dividido em dois territórios. De um lado, aparecem os espaços externos da cidade, como escritório, delegacia e áreas de circulação, marcados por estruturas frias, simétricas e verticais. Do outro, está a sala familiar, com sofás, poltrona, mesa e tapete.
O espaço doméstico muda de posição, aproxima-se da plateia, recua e se desfaz à medida que a família deixa de funcionar como espaço de proteção. Os próprios atores manipulam portas, mesas, cadeiras e outros elementos, construindo e desmontando os ambientes diante do público.
Em alguns momentos, a sala avança até o proscênio e aproxima a vida familiar dos espectadores. Ione define a relação como um “buraco da fechadura agigantado”, em que o público não participa diretamente da ação, mas assume uma posição de observador da intimidade dos personagens.
Vídeo cria espaço de confidência
O espetáculo também utiliza vídeos produzidos especialmente para a montagem. Diferentemente de Vestido de Noiva, em que as projeções ajudavam a construir os planos de realidade, memória e alucinação, desta vez o recurso cria um espaço de confidência.
Em breves depoimentos, os personagens dirigem-se à plateia e revelam sentimentos que não conseguem compartilhar entre si.
“Como a família não escuta, os personagens falam à plateia, como pacientes num divã em uma conversa terapêutica”, afirma Henrique Torres Mourão, ator e produtor audiovisual do GOM.
Os vídeos são projetados em portas e diferentes pontos do cenário. Os rostos ampliados transformam a intimidade em matéria pública e alteram a escala dos personagens.
Trilogia de Nelson Rodrigues
O beijo no asfalto encerra a trilogia dedicada pelo GOM à dramaturgia de Nelson Rodrigues. Em Boca de Ouro, de 2018, a companhia trabalhou com maior orientação pela força do texto, mantendo objetos transformáveis e soluções espaciais próprias de sua linguagem.
Em Vestido de Noiva, de 2023, o cenário móvel, o vídeo e a multiplicidade funcional dos objetos contribuíram para a construção dos planos de realidade, memória e alucinação.
Na nova montagem, o grupo reúne elementos das duas experiências e mantém os espaços indicados pela dramaturgia de Nelson Rodrigues, mas faz com que eles sejam montados, deslocados e desmontados diante do público.
Ao completar a trilogia e abrir as celebrações de seus 50 anos, o Grupo Oficcina Multimédia apresenta uma leitura de O beijo no asfalto centrada na transformação de um gesto de compaixão em motivo de condenação. Ao final da peça, Arandir afirma que aquele beijo foi a melhor coisa que fez na vida.
Então, se liga!!
O beijo no asfalto
Local: Teatro I – CCBB-BH
Data: 28 de agosto a 5 de outubro de 2026, de sexta a segunda-feira
Horário: 20h
Ingressos: R$ 15 (meia) e R$ 30 (inteira), disponíveis a partir de 19 de agosto
Endereço: Praça da Liberdade, 450, Funcionários, Belo Horizonte
Classificação: 16 anos
Duração: 100 minutos
A sessão de 4 de outubro foi antecipada para 1º de outubro, no mesmo horário. Haverá apresentações com intérprete de Libras em 4, 13, 19 e 28 de setembro e com audiodescrição em 12 de setembro e 2 de outubro.











