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Você não é o seu diagnóstico

31/08/2026 às 17h37
setembro amarelo
(Reprodução/EBC)

“Eu sou bipolar.”

“Eu sou depressivo.”

“Eu sou ansioso.”

“Eu tenho TDAH, então sou assim.”

Essas frases são comuns e, muitas vezes, parecem apenas uma forma simples de explicar aquilo que uma pessoa está vivendo. Mas existe uma diferença importante entre ter um diagnóstico e ser definido por ele.

Um diagnóstico pode ajudar a compreender sintomas, organizar um tratamento e encontrar estratégias de cuidado. Também pode trazer alívio para alguém que passou anos tentando entender por que estava sofrendo. Colocar um nome em uma experiência pode ajudar a perceber que aquilo que está acontecendo não é uma falha moral, falta de força de vontade ou incapacidade.

Mas um diagnóstico não consegue contar a história inteira de uma pessoa.

Você é muito mais do que aquilo que aparece em um prontuário.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como um estado de bem-estar físico, mental e social, e não apenas como a ausência de doenças ou enfermidades. Isso significa que saúde não pode ser reduzida à presença ou ausência de uma doença.

A saúde mental também é mais do que a ausência de um transtorno. Ela está relacionada à nossa capacidade de viver, aprender, trabalhar, construir relações, enfrentar desafios e participar da comunidade.

E talvez seja justamente aí que precisamos ampliar nossa forma de olhar para os diagnósticos.

Imagine uma pessoa que recebeu o diagnóstico de depressão. Esse diagnóstico pode ajudá-la a compreender parte do sofrimento que vem enfrentando e a buscar o tratamento adequado. Mas ele não explica tudo sobre ela. Não explica seus vínculos, suas lembranças, seus talentos, seus desejos, suas conquistas ou os sonhos que ainda deseja realizar.

Da mesma forma, uma pessoa com transtorno bipolar não deixa de ser filha, amigo, profissional, estudante, artista, mãe, pai, companheira ou alguém apaixonado por música porque recebeu um diagnóstico.

A condição faz parte da sua vida. Mas não é toda a sua vida.

Isso não significa ignorar o sofrimento nem negar que um transtorno mental possa trazer impactos importantes. Algumas condições exigem acompanhamento contínuo, mudanças na rotina e diferentes formas de cuidado. Reconhecer essas necessidades é fundamental. Mas reconhecer que alguém precisa de cuidado não significa reduzir essa pessoa à sua condição de saúde.

É possível reconhecer a existência de uma condição de saúde e, ao mesmo tempo, reconhecer as possibilidades, a autonomia, a história e a singularidade daquela pessoa.

A própria OMS alerta que pessoas com condições de saúde mental frequentemente enfrentam estigma e discriminação. E o estigma nem sempre vem apenas das outras pessoas. Às vezes, depois de receber um diagnóstico, alguém começa a enxergar a si mesmo exclusivamente por meio dele.

“Eu não consigo porque sou assim.”

“Não adianta tentar.”

“Isso é quem eu sou.”

“Minha vida vai ser sempre limitada por causa disso.”

Pouco a pouco, o diagnóstico pode ocupar tanto espaço que outras partes da identidade parecem desaparecer.

Mas ninguém é uma palavra escrita em um laudo.

Somos feitos de histórias, relações, escolhas, desejos, perdas, valores, experiências e possibilidades. Todos temos limitações. Algumas aparecem mais claramente e exigem cuidados específicos. Mas limitar uma pessoa àquilo que ela não consegue fazer pode impedir que ela reconheça também tudo aquilo que ainda pode viver.

E isso não significa acreditar em um “pensamento positivo” capaz de resolver qualquer sofrimento. Não se trata de dizer que basta querer para superar uma doença ou eliminar todas as limitações.

O ponto é outro: cuidar não significa reduzir uma pessoa ao problema que ela enfrenta.

Na psicoterapia, muitas vezes o diagnóstico pode ser um ponto de partida para a compreensão, mas não precisa ser o ponto final da história. Além de olhar para sintomas e dificuldades, também é possível investigar recursos, relações, interesses, valores e caminhos que ajudem a pessoa a construir uma vida que faça sentido para ela.

A OMS tem defendido abordagens de cuidado em saúde mental que preservem a dignidade, os direitos e a participação das pessoas em suas próprias decisões de cuidado.

Isso faz toda diferença.

Porque uma pessoa não deve ser tratada apenas como “o bipolar”, “a depressiva”, “o autista”, “o dependente” ou “o paciente difícil”. Antes de qualquer diagnóstico, existe alguém com uma história única.

Os diagnósticos são importantes. Eles podem orientar profissionais, tratamentos e estratégias de cuidado. Mas precisamos ter cuidado para que uma ferramenta criada para ajudar a compreender uma experiência não se transforme em uma sentença sobre quem alguém é.

Você pode ter um diagnóstico e continuar descobrindo coisas novas sobre si.

Pode precisar de tratamento e, ainda assim, ter projetos.

Pode enfrentar limitações e continuar construindo possibilidades.

Pode ter dias difíceis sem que toda a sua vida se resuma a eles.

Pode conviver com uma condição de saúde e, ainda assim, experimentar vínculos, prazer, pertencimento, aprendizado, autonomia e bem-estar.

Você não é o seu diagnóstico.

Você é uma pessoa inteira que, em algum momento da vida, pode precisar de um diagnóstico para compreender e cuidar melhor de uma parte da sua experiência.

Mas nenhuma parte, sozinha, é capaz de contar quem você é por inteiro.

E talvez uma das formas mais importantes de cuidar da saúde mental seja justamente esta: reconhecer aquilo que precisa de atenção sem esquecer tudo aquilo que continua vivo em nós.

Caso você perceba que um diagnóstico tem ocupado todo o espaço da sua identidade ou que o sofrimento emocional tem limitado sua vida, considere buscar apoio psicológico e, quando necessário, acompanhamento médico ou psiquiátrico.

Com afeto,

Letícia Faleiro | CRP-MG 04/33265
Professora e Psicóloga Clínica

Letícia Faleiro

Letícia Faleiro é psicóloga graduada e mestra em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em Psicologia Clínica Existencial e Gestáltica e pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas. Ela atua como psicóloga clínica há mais de 15 anos, é professora universitária e cofundadora do Instituto Florere. Tem ainda formação continuada na abordagem fenomenológica em intervenções em crise, lutos atípicos, teoria do apego e psicofarmacologia.

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