A motorista Danielle Aguiar Silva, de 28 anos, viu sua trajetória ganhar repercussão nas redes sociais por ser a primeira mulher trans a dirigir um coletivo em Minas Gerais. Depois de compartilhar no Instagram um relato sobre a conquista de trabalhar dirigindo ônibus urbano em Montes Claros, no norte do estado, ela recebeu milhares de mensagens de carinho e identificação. O perfil já reúne mais de 11 mil seguidores.
Em conversa com o BHAZ, Danielle explicou que, ainda criança, dizia aos primos que seria motorista de ônibus. Antes de chegar ao volante, trabalhou como caixa de supermercado e, quando teve a oportunidade de tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) na categoria D, decidiu que era hora de apostar no desejo que carregava desde pequena. “Eu sempre gostei de ônibus. Desde criança eu falava que queria ser motorista. Quando consegui tirar minha carteira D, pensei: agora eu vou atrás disso”, lembra.
Para ela, a repercussão trouxe um significado que vai além da própria conquista. Mensagens chegaram pelo Instagram e pelo TikTok, muitas delas de pessoas que enxergaram na trajetória da motorista a possibilidade de construir caminhos profissionais diferentes. “Fiquei extremamente chocada com o quanto fui acolhida. Recebo mensagens de outras mulheres trans dizendo que se inspiraram em mim.”
O apoio que fez diferença
Danielle iniciou a transição aos 13 anos e, durante o ensino médio, passou a incorporar gradualmente à rotina elementos que expressavam a forma como se reconhecia. O processo aconteceu ao mesmo tempo em que construía sua trajetória pessoal e profissional.
Ela destaca o apoio recebido da família durante sua transição e considera esse acolhimento fundamental para que pudesse seguir construindo a própria vida com tranquilidade. “Isso fez muita diferença para mim, porque eu pude continuar estudando, trabalhando e seguindo minha vida. Não tive que recorrer à prostituição.”, conta.
Para ela, esse suporte também ajudou a enxergar a própria trajetória de maneira mais ampla. A motorista acredita que ter referências e pessoas próximas que incentivem seus projetos pode fazer diferença para quem está construindo os próprios caminhos.
A repercussão da história fez Daniele perceber que o trabalho que realiza diariamente também pode ter um significado simbólico para quem acompanha sua trajetória. As mensagens que recebeu depois da publicação reforçaram essa percepção.
Segundo ela, algumas pessoas contaram que se sentiram incentivadas a procurar emprego, estudar ou simplesmente acreditar mais nos próprios planos. Agora, seu desejo é mostrar que sua profissão é uma conquista possível. “Eu quero que outras pessoas vejam que elas podem trabalhar, podem ter uma profissão, podem conquistar o que elas quiserem”, afirma.
Presença profissional de pessoas trans
Hoje, no transporte público, ela diz que a rotina é marcada principalmente pelo contato com os passageiros e pela relação construída ao longo do trabalho. Inicialmente alguns passageiros até estranham sua voz ou fazem perguntas sobre sua trajetória. “Você percebe o preconceito camuflado pelo jeito que a pessoa conversa com você, o jeito que ela te olha, ou quando você dá um ‘bom dia’ e ela não responde.”.
Para ela, esses momentos também fazem parte de uma convivência que ajuda a tornar sua presença cada vez mais natural dentro do ambiente profissional. “Depois de alguns dias, vira rotina. Você passa a ser só a motorista que está ali trabalhando”, relata.
A trajetória de Danielle ganha uma dimensão ainda maior diante do cenário do mercado de trabalho formal. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em 2025, identificou que 20,7% das mulheres trans de 14 a 64 anos estavam no assalariamento formal, contra 28,4% das mulheres da população geral. Entre os homens trans, a taxa era de 31,1%.
A presença de pessoas trans também é menor especialmente em setores como o da motorista. Segundo o levantamento, 2,5% dos trabalhadores trans formalmente empregados estavam no setor de transporte, armazenagem e correio, enquanto a participação era de 5,1% entre os trabalhadores em geral. O estudo aponta ainda que áreas como transporte, construção civil e indústria extrativa são marcadas pela forte presença masculina e apresentam dificuldades de inserção para trabalhadores trans.
A diferença também aparece nos rendimentos. Entre as mulheres trans empregadas formalmente, a remuneração média era de R$ 2.725, enquanto a média das mulheres da população geral chegava a R$ 3.719 uma diferença de 26,7%.













