A esquina onde Milton Nascimento, Lô Borges, Toninho Horta e Beto Guedes se encontravam nos anos 1960, para tocar e compor sofreu um ato de vandalismo na madrugada desta sexta-feira (23). Um homem depredou o local com tinta vermelha. Para Yé Borges, irmão de Lô Borges — um dos fundadores do Clube da Esquina —, o ato está ligado à polarização política no país. Segundo ele, uma moradora da região relatou ter ouvido o suspeito gritar “fora Lula” após jogar a tinta sobre as placas do memorial, instalado no bairro Santa Tereza, região Leste de Belo Horizonte, onde o movimento musical surgiu.
Yé também criticou o que considera um avanço do ódio na sociedade e associou o episódio aos conflitos políticos no país. Durante entrevista coletiva no local, nesta sexta-feira (23), ele defendeu o respeito às diferenças ideológicas e afirmou que o resultado das eleições deve ser aceito, independentemente de quem vença a disputa.
“Nós estamos vivendo uma guerra entre irmãos, guerra entre amigos, uma coisa que não existia tempos atrás, antes do bolsonarismo. O ódio tomou conta… Quem perdeu, quem venceu, tem que estender a mão para o que perdeu, ajudá-lo a levantar a cabeça, construir uma nação, construir um lugar agradável, que nós temos que deixar para os nossos filhos”, declarou.
Veja o vídeo de como ficou o Clube da Esquina após o vandalismo:
‘Eu vi isso aqui sentado, tocando violão’
Além da possível motivação política, Yé destacou a importância afetiva e cultural do local para a família. Segundo ele, foi naquele endereço que acompanhou o nascimento da música do Clube da Esquina, movimento que se tornou referência na música brasileira.
“Eu vi isso aqui sentado, tocando violão, vi nascer a música do Clube da Esquina. A gente jamais poderia imaginar que viraria uma referência no mundo. É muito triste isso, porque a violência não pode tomar conta das pessoas”, afirmou.
O irmão de Lô Borges disse que, apesar da revolta provocada pela situação, procura não responder à violência com ódio. “Eu tenho que amar o cara que fez isso, tenho que tentar compreender que ele não tem uma razão, que ele não consegue imaginar outra coisa melhor do que discutir, argumentar, a fazer isso. É triste”, disse.
Yé também fez um apelo para que pessoas com diferentes posicionamentos políticos consigam conviver e respeitar umas às outras. “Se você vai votar no Bolsonaro, vota na urna, me abraça aqui porque eu te amo do mesmo jeito. Você tem o seu direito e tem que ser respeitado”, afirmou.
Vandalismo no Museu Clube da Esquina
O memorial, localizado no bairro Santa Tereza, amanheceu com tinta vermelha espalhada sobre as placas instaladas no local. O material deixou as estruturas com um aspecto semelhante ao de sangue. Luvas e um recipiente de tinta utilizados na ação foram encontrados nas proximidades.
Imagens de câmeras de segurança registraram o suspeito descartando os materiais antes de entrar em um carro estacionado na rua e deixar o local.
A Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) foi acionada para atender à ocorrência.
O endereço é um dos marcos da história do Clube da Esquina. Na década de 1960, a região era ponto de encontro de músicos ligados ao movimento, que se tornou um dos mais importantes da música brasileira.
O que diz a Polícia Civil?
A Polícia Civil de Minas Gerais informou que apura a autoria do vandalismo. “A perícia oficial foi requisitada a comparecer no local para identificar e coletar vestígios que irão subsidiar as investigação”, disse em nota.
A corporação destacou ainda que uma equipe de policias já está em campo com o objetivo de realizar os levantamentos necessários para a identificação e responsabilização dos envolvidos.











