“Estamos vivendo o fim do Carnaval raiz. O Carnaval de BH, como você conhece, está com os dias contados”. A frase foi dita em um vídeo publicado nas redes sociais pelo publicitário Antônio Terra, ao analisar a ausência de grandes marcas para patrocinar a folia da capital mineira – e foi bombardeado por comentários críticos, de ativistas, foliões e pessoas envolvidas com blocos, que afirmam que a retomada da folia se deu sem qualquer apoio e, apesar de admitir que é melhor com os patrocinadores, seguirão mesmo sem eles.
Apesar do crescimento expressivo de público nos últimos anos, a Prefeitura de Belo Horizonte voltou a enfrentar dificuldades para preencher as cotas de patrocínio neste ano. Ao todo, até agora, foram arrecadados R$ 2,3 milhões, valor cerca de 64% menor do que o registrado em 2025, mas a prefeitura já sinalizou que outras marcas devem fechar apoio de última hora. O cenário, no entanto, não é inédito, como mostram os dados de anos anteriores (confira no gráfico abaixo). E a dor com os patrocínios não se restringe à prefeitura – em ON e em OFF, blocos também relatam terem tido problema.
Diante desses impasses, o publicitário, representantes de blocos, além do presidente da Belotur, Eduardo Cruvinel, analisaram os possíveis caminhos e o futuro da maior festa de rua de Minas Gerais.
No vídeo publicado por Antônio Terra, ele afirmou que “o problema é que o produto Carnaval de BH ficou caro demais” para o retorno que ele oferece às marcas. A avaliação do publicitário é que a falta de controle sobre o público é o grande obstáculo para as grandes empresas investirem na folia mineira. “Elas querem dados, VIPs e experiências controladas”, destacou ressaltando que os trios não possuem corda para quantificar o impacto da publicidade sobre os foliões.
De acordo com Terra, há um impasse para manter a festa na magnitude como ela é feita atualmente: “ou a gente privatiza a folia ou voltamos a ser uma festa pequena de bairro”, sentencia o publicitário.
Veja vídeo:
O “pesadelo” das marcas
Em entrevista ao BHAZ, o profissional disse que o Carnaval de BH se tornou a maior vitrine da cidade, mas perde valor por falhas graves de planejamento e gestão. Para Terra, a falta de atratividade dos editais recentes e a publicação das convocações “em cima da hora” afastam grandes investidores. “Se você pensa numa grande marca, o planejamento para estar presente num evento desse porte é de um ano antes”, explicou. Ele também citou segurança e excesso de burocracia como fatores que influenciam na baixa procura das empresas.
Apesar da necessidade de controle de público e resultados, o publicitário destacou que a espontaneidade e gratuidade do Carnaval de BH não são um empecilho para as marcas. “Se você organiza essa conversa com as marcas e elas entendem exatamente o jogo e a marca topa entrar nesse jogo, com uma contrapartida interessante do poder público (…), aí é super possível”, explicou.
De acordo com Antônio, existem alternativas para quantificar o Carnaval de BH sem perder a identidade e, ao mesmo tempo, sem “cercar” os foliões com cordas, em áreas VIP ou camarotes. “Pode usar mapa de calor via sinal de celular, pode analisar o volume de transação por PIX em determinada região, pode fazer análise de sentimento nas redes [sociais]”, enumerou. No entanto, “a gente não tem uma gestão dessa marca que está pensando nisso, em como organizar esses fluxos, como viver essa experiência de uma forma que seja absolutamente positiva.
“Se a gente não gerir, não organizar e não encontrar recursos para fazer essa festa do jeito certo e atrair as marcas sem matar o que a gente tem de nativo do Carnaval, a gente vai acabar tentando mimetizar Salvador ou Rio e perdendo esse jeito mineiro de fazer Carnaval, que é o nosso principal diferencial competitivo”, afirma Antonio Terra.
“Invasão” de artistas de fora
O produtor cultural Kerison Lopes, fundador do bloco Volta Belchior, destacou em conversa com o BHAZ que a cidade pode viver “o começo do fim desse Carnaval que nós produzimos”. Mas, para ele, o motivo é outro: “a invasão de artistas de fora” no Carnaval de BH, como o trio do Alok ocorrido em 2025.
Conforme disse, os megashows não são compatíveis com o diferencial da folia na capital mineira: “ele é aberto, não tem corda, tem os blocos de mais variados temas e formatos”, disse. “É isso que atraiu, essa diferença [cultural] que tem atraído turistas do Brasil inteiro”, completou. Além disso, diz que esse formato não é seguro, “e foi o único evento de todo o Carnaval nos últimos anos que teve facada”, diz em relação ao show de Alok na avenida Afonso Pena no ano passado.
“Esse formato não nos atende. Isso vai acabar com o Carnaval”, desabafou Kerison.
O produtor cultural considera que os grandes trios com atrações nacionais também afetam os recursos que antes eram arrecadados por blocos locais. “Esses artistas estão vindo com patrocínio das grandes marcas”, disse. Ainda de acordo com ele, “elas preferem investir em artistas e em atrações que teoricamente tem a maior visibilidade”, completou.
Para Kerison, o Carnaval de BH tem condições de manter o modelo atual sem a necessidade de cordas. “Consegue plenamente, como tem conseguido alcançando essa magnitude (…). Ninguém vem aqui por causa desses artistas de fora. O Alok fez um show que ele não anunciou antes. Então, ele pega os turistas que já vêm para assistir aos nossos blocos”, explicou.
Inclusive, na última sexta-feira (30), ligas e associações de blocos do Carnaval de BH publicaram uma nota crítica à “priorização de megaeventos” por parte do poder público. “A maioria sem qualquer ligação orgânica com a cena carnavalesca”, diz o texto assinado pela Liga Belorizontina, pela Santa Tereza Independente Liga (Si Liga), pela Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Bruta), pela Associação dos Blocos de Rua de BH (Abra) e pela Associação dos Blocos Afro de Minas Gerais (Abafro).

“As coisas boas são de graça”
O bloco Juventude Bronzeada, um dos principais do Carnaval de BH, também sente na pele a escassez de recursos na festa deste ano. O produtor Igor Bonani revelou ao BHAZ que, após receber dezenas de negativas de empresas nacionais e locais, o cortejo de 2026 será feito com recursos próprios provenientes da venda de produtos e trabalho voluntário de toda a equipe. Além disso, o bloco realizou cortes em itens não essenciais, como efeitos especiais. “A gente precisou enxugar o máximo do máximo”, desabafou.
Ele ressaltou que, embora o Juventude defenda o manifesto de que “as coisas boas são de graça”, o custo de colocar um bloco grande na rua é alto, envolvendo gastos imprevistos com equipamentos e segurança. Por isso, a equipe avalia realizar um financiamento coletivo para custear o cortejo, além de continuar com as vendas de produtos.
Bonani admitiu que “um blocão sem patrocínio vai ser muito complicado nos próximos anos” devido aos altos custos com segurança e sonorização. Apesar de estar entre os 49 blocos contemplados pelo auxílio financeiro da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) na categoria A, no valor de R$ 41,5 mil, o produtor do Juventude destacou que o subsídio cobre apenas um terço dos custos totais do cortejo: “não é zero de patrocínio, mas não é uma verba suficiente”.
Dificuldades
Além da ausência de patrocínios externos, Bonani criticou a demora no repasse de verbas da Belotur, afirmando que o atraso obriga os blocos a financiarem o cortejo com recursos próprios, muitas vezes próximo à data do desfile.
Para o produtor, o excesso de burocracia impede o recebimento do recurso em tempo hábil, afetando o planejamento dos gastos e aumentando os custos do bloco. “Os gastos são altos, mas, se o patrocínio e, até mesmo, a verba da prefeitura, chegassem antes, um ano antes, quando começa o planejamento, os produtos seriam muito mais baratos”, afirmou.
O representante de um outro bloco que preferiu não se identificar disse ao BHAZ que o problema da verba ser liberada em cima da hora não restringiu à prefeitura. A verba de uma grande cervejaria era dada como certa, repetindo os anos anteriores, mas a decisão foi por não liberar recursos em 2026 para o bloco e que, com isso, foi uma correria para suprir a falta de recursos em cima da hora e garantir o desfile sem precisar por a mão no bolso.
Bonani, do Juventude Bronzeada, concorda que shows de atrações nacionais tiram a visibilidade e o prestígio dos blocos locais, além de afetar na captação de recursos. Como solução, Bonani sugeriu que a PBH poderia convidar as atrações para se apresentarem em trios belo-horizontinos. Para ele, a estratégia em torno de grandes nomes “nada mais é que ganhar espaço na mídia nacional. Te garanto que não é para satisfazer a população de Belo Horizonte”, disse.
Apesar das dificuldades financeiras, ele não cogita a possibilidade de adotar cordas ou área VIP para manter o bloco na rua. “Nosso carnaval é aberto, popular, sem cobrança. O dia que a gente não conseguir fazer dessa forma, a gente não vai sair”, defendeu.
Além disso, o produtor do Juventude discorda que este seja o fim definitivo da festa e rejeitou a ideia de que o Carnaval de BH está com os dias contados. Para ele, sempre há um “jeitinho mineiro”.
“Acontecerão outros ressurgimentos. Assim como um dia a gente tinha ressurgido lá em 2015, a gente vai arrumar formas de ressurgir em 2026, 2027… Fazendo do nosso jeito, do jeitinho mineiro, e a gente vai conseguir pular nossos carnavais. Eu te garanto que a gente vai dar um jeito”, concluiu.
E os foliões?
Nos comentários do vídeo publicado no perfil de Antônio Terra, foliões expressaram resistência à privatização e desejo de manter a essência política e democrática do Carnaval de BH. Um usuário da rede social destacou que a festa ocorreu em anos anteriores mesmo com pouco patrocínio, e que a privatização causaria a “morte” do Carnaval. “Privatizar o Carnaval de BH isso sim seria o fim do nosso carnaval de rua. Talvez o que incomode é a gente conseguir fazer o carnaval da forma que fazemos mesmo sem patrocínio”, enfatizou.
Outra reflexão de um usuário da rede social é a de que BH está criando uma nova forma de gerir a folia: as marcas passaram a negociar diretamente com os grandes blocos, sem passar pela prefeitura. “Ambev queria monopólio do espaço público, não conseguiu; em compensação, patrocina diretamente blocos grandes, dinheiro direto na mão de quem faz sem intermédio da prefeitura”, comentou.
Clique nos gráficos abaixo e veja quanto a PBH arrecadou de patrocínio para a folia desde 2019, além do aumento do número de foliões ao longo dos anos:
Carnaval de BH de Vinícius SampaioEntre 2019 e 2020, o Carnaval de BH teve os maiores aportes, com investimentos de R$ 12,8 milhões e R$ 14,3 milhões, reunindo cerca de 4,5 milhões de foliões por ano. Em 2023, o patrocínio caiu para R$ 1,2 milhão, o menor dos últimos anos, apesar do público superar 5,2 milhões de pessoas. Nos anos de 2024 e 2025, os investimentos voltaram a crescer, chegando a R$ 6 milhões e R$ 6,4 milhões, com recordes de público e turistas. Já em 2026, o Carnaval conta com R$ 2,3 milhões em patrocínio, com expectativa de 6 milhões de foliões e 1,2 milhão de turistas.
Resistência
Os foliões também relembraram que o renascimento do Carnaval de BH não foi planejado pelo poder público, mas ocorreu a partir da ocupação do espaço urbano por populares. Para um folião, “o carnaval ‘raiz’ belo-horizontino é o oposto do carnaval patrocinado. Desde o seu renascimento com a ‘Praia da Estação’ e o ‘Fora Lacerda’ até o seu crescimento exponencial em anos recentes, a folia raiz foi caracterizada pela horizontalidade, democratização, pluralidade e engajamento político”, defendeu em um comentário.
O Carnaval de BH surgiu junto com a própria capital, em 1897, quando operários que trabalhavam na construção da cidade desfilaram em carros enfeitados na Praça da Liberdade. Ao longo das décadas, a festa se consolidou com as escolas de samba, os blocos caricatos e blocos de rua, como a Banda Mole, que desfila desde 1975 pelas avenidas da capital.
No entanto, a folia perdeu força e ressurgiu em 2009, com desfile de blocos no pré-Carnaval, como Tico Tico Serra Copo e Peixoto. Naquele ano, a proibição de eventos na Praça da Estação, no Centro de BH, também impulsionou a ocupação popular dos espaços públicos, culminando com o movimento “Praia da Estação” em 2010, além de protestos contra o então prefeito, intitulados “Fora Lacerda”. Desde então, o Carnaval de BH se consolida como manifestação cultural e símbolo de resistência popular.
“É importante não esquecer pq o Carnaval de BH recomeçou… foi a ocupação do espaço urbano… que não perca a essência. E xeque mate!”, disse uma usuária da rede social.



O futuro do Carnaval de BH
Em entrevista ao BHAZ, o presidente da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur), Eduardo Cruvinel, discordou que o Carnaval de BH esteja perdendo fôlego, mas amadurecendo. Ele relata que a captação de recursos subiu de R$ 500 mil para R$ 2,3 mi desde que assumiu a presidência da autarquia, em dezembro do ano passado.
Neste ano, a festa conta com apoio da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (R$ 500 mil), do Supermercados BH (R$ 500 mil), do Sesc Minas (R$ 500 mil) e da Caixa Econômica Federal (R$ 800 mil).
No entanto, Eduardo Cruvinel reconheceu que o tempo da administração pública é diferente do mercado. “A gente está sujeito a uma legislação específica, que tem uma série de necessidades de atendimentos e requisitos prévios. E isso acaba gerando um fator que dificulta. A gente não tem a mesma agilidade da iniciativa privada”. afirma.
Cruvinel afirma ainda que, neste ano, 105 blocos de rua foram contemplados por edital da Belotur, o que exige “uma documentação muito bem feita, muito bem estruturada” e, consequentemente, maior tempo de análise. Entretanto, o presidente projeta melhorias para os próximos anos, como a antecipação de processos.
“Nossa intenção é já começar o planejamento para a próxima festa assim que acabar a folia de agora”, afirma, ressaltando que planeja fazer uma chamada para escutar sugestões e depois criar grupos de trabalho para analisar, redefinir e repensar critérios e categorias dos editais.
Privatização e atrações nacionais
Sobre uma possibilidade de privatização do Carnaval de BH, Eduardo Cruvinel assegura que o modelo gratuito e aberto ao público é inegociável para a prefeitura. “O Carnaval de Belo Horizonte tem na sua essência o uso do espaço urbano. Ele é um urbano e gratuito, ao contrário de outros carnavais”, refletiu.
“O que a gente tem que fazer é entender como a festa está acontecendo, buscando amparar, subsidiar, fomentar, e trazer os parceiros também, seja com ou sem patrocínio, para poder fazer a festa fluir, acontecer bem”, destacou.
O presidente afirmou ainda que a vinda de grandes blocos de artistas nacionais não é subsidiada pela PBH, mas, sim, fruto de manifestações culturais independentes ou parcerias diretas dos próprios blocos. “A Belotur não fez nenhuma negociação com artista nacional e não fez nenhum pagamento de subsídio para esses artistas nacionais”, afirmou. Segundo ele, a pasta destinou R$ 3,2 mi para blocos de rua e R$ 2,99 mi para escolas de samba e blocos caricatos neste ano.
De acordo com Eduardo Crunivel, o trio do Alok precisou se submeter aos mesmos processos que os blocos locais para realizar o cortejo no Carnaval de BH em 2025. “O que acontece em alguns casos, inclusive com os blocos que são cadastrados na Belotur, é aqueles que têm um interesse em ter um apoio do poder público para estrutura, no sentido de facilitar o uso do espaço público. A gente entra com esse tipo de apoio”, explicou.
“A gente tem melhorado a cada ano e a ideia é continuar com essa melhoria constante, de melhorar nossa comunicação, de estar sempre próximo aos atores que construíram o carnaval, de fazer com que os nossos processos sejam integrados, alinhados, que atendam de fato as demandas da sociedade civil”











