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‘Me dá um dinheiro aí’! O Carnaval que gira a economia de BH

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Me Da um Dinheiro Ai

“Vaza para a Bahia, Carnaval em BH ninguém merece”. “Esse dinheiro deveria ir para a saúde pública e educação”. “BH um caos e essa verba toda para Carnaval? Me poupe”.

Mesmo que nem todos concordem com a realização do Carnaval, uma coisa é certa: a festa impulsiona a economia da cidade. Alexsandro, Antônio, Bruna e Luziane não se conhecem, mas têm algo em comum. Eles vão na contramão dos “haters” e estão de olho no Carnaval de BH 2023 – e não necessariamente para “festar”.

Os quatro fazem parte do grupo de pessoas que estará nas ruas da capital mineira durante a folia pronto para ganhar dinheiro. Depois de dois anos sem bloquinhos e trios elétricos, a expectativa para a folia pós-Covid está em alta. “Dependendo do faturamento no Carnaval, o dinheiro dura de quatro a cinco meses. Depende da necessidade, tem pessoas que vivem disso e que a renda ajuda o ano todo”, diz o técnico em manutenção e vendedor ambulante Alexsandro Fonseca.

Neste ano, a previsão é de que o Carnaval em BH gere cerca 20 mil empregos diretos e indiretos. Serão 23 dias oficiais de folia, e a Belotur (Empresa Municipal de Turismo de BH) estima que a festa receba 500 mil pessoas a mais do que em 2020, cerca de 5 milhões de pessoas.

A movimentação prevista é de R$ 623 milhões, com alimentos e bebidas recebendo mais da metade do montante. Mas o setor não será o único a se beneficiar dos ganhos do Carnaval. Para se ter ideia, o evento supera, em lucratividade, todo o rendimento do Mineirão com futebol ao longo do ano.

“O Carnaval gera renda, movimenta toda uma cadeia econômica. O dinheiro gasto movimenta os taxistas, motoristas de aplicativo, restaurantes, carrinhos de lanche, hotéis, o aeroporto, todas as empresas no aeroporto, a rodoviária, as empresas na rodoviária, o comércio, os ambulantes, o shopping”, lista Gilberto Castro, presidente da Belotur.

Com tanta grana circulando pela cidade, a expressão “Me dá um dinheiro aí” nunca fez tanto sentido. E dona Luziane Coelho sabe bem da importância do dinheiro que consegue juntar nos cinco dias de folia. Ela vende cachorro-quente, macarrão na chapa, baião de dois e outras delícias culinárias. Vendeu tanto que já é conhecida dos foliões de “outros carnavais”, assim como a famosa marchinha de Moacyr Franco.

“Onde você chega tem movimento e você consegue vender e trabalhar. E, graças a Deus, trabalhar tendo uma lucratividade boa”, conta a dona do food truck Eita Lelê BH.

Do alto de seus 64 anos, Luziane já vivenciou diferentes momentos do Carnaval de BH, mas nada se compara ao agora. Antes esvaziada, a cidade passou a irradiar cor, vibrar e suar ao ritmo do tamborim, dos blocos de rua e trios elétricos. E por falar em cores, Flávia Ruas aproveita o período pré-Carnaval para gerar renda por meio de acessórios e enfeites temáticos. Ela não está sozinha, já que administra a “Estação Carnaval”, loja colaborativa que conta com produtos de 24 marcas.

Keoma Reis, por sua vez, é corretor de imóveis e fundador da MyStay, empresa especializada em locação por temporada. Para o período do Carnaval 2023, todos os 20 apartamentos disponíveis em BH foram alugados e a equipe do negócio precisou crescer. Tem ainda quem prepare até o look para se dar bem no Carnaval, e não é fantasia. É o caso do taxista Antônio Eustáquio que, além de investir em um carro novo, comprou roupas novas para “ficar na estica” e atender os passageiros durante a folia deste ano.

Eles são empreendedores que vivenciam o Carnaval de BH e o enxergam como uma vitrine de oportunidades. E todos são bem-vindos. “Eu acho que lucra todo mundo e tem espaço pra todo mundo se dar bem. O comércio, os serviços, os ambulantes”, declara o presidente da CDL-BH (Câmara dos Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte), Marcelo Souza Silva.

Carnaval em BH: Do vazio às multidões

Os mais novos podem não se lembrar, mas o Carnaval de BH nem sempre foi tão grandioso. Há quem diga que, no passado, alguém poderia sair pelo Centro sem roupa que ninguém se incomodaria: é que a capital mineira quase não tinha pessoas pelas ruas no Carnaval. Em 2010, isso começou a mudar: 10 blocos desfilaram, e comuns mesmo eram bailes privativos realizados em clubes e espaços de festa.

Foi entre 2011 e 2012, em meio à efervescência dos movimentos de ocupação do espaço público, que o Carnaval como se conhece hoje começou a tomar forma em Belo Horizonte. Moradores e turistas que se dirigiam a outros destinos até então mais badalados, como as históricas Ouro Preto, Tiradentes e Diamantina, fizeram o caminho de volta. Aos poucos, as ruas foram tomadas pela alegria dos foliões, dos blocos de rua e de seus ritmistas. 

“O Carnaval nasce a partir de movimentos de foliões, é um Carnaval extremamente espontâneo. Por isso, ele também tem uma vertente política, nasce em um momento nacional de ocupação das ruas. E, neste momento, o poder público avalia e começa a dar estrutura para esse Carnaval espontâneo”, aponta Lêonidas Oliveira, secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais que esteve à frente da Fundação Municipal de Cultura à época.

Já em 2014, a folia ganhou ares de “festa grande” com quase 1 milhão de pessoas curtindo os mais de 100 blocos que realizaram cortejos pela cidade. Nos anos que se seguiram, o Carnaval de BH não parou de crescer. E, se o ano de 2015 foi marcante, com  mais de 200 blocos e  público de 1,5 milhão de pessoas, 2016 e 2017 foram ainda mais. 

Carnaval viaduto Santa tereza
Carnaval hoje leva milhões de pessoas às ruas de BH, entre foliões e comerciantes (Amanda Dias/BHAZ)

“O Carnaval de BH é um movimento popular, um movimento de rua, organizado por associações, por pessoas que foram se organizando ao longo do tempo para uma manifestação popular. E, talvez, esse seja um diferencial do nosso Carnaval. Porque ele não é uma coisa construída estrategicamente. Ele foi uma movimentação orgânica que foi se desenhando na capital”, explica a turismóloga Milena Soares.

“De 2015 pra cá, a gente acompanha esse movimento. E é importante manter essa essência do Carnaval. Lembrar sempre a essência do Carnaval belo-horizontino e o do mineiro, na verdade. É uma essência nossa, a gente gosta de receber, de fazer festa”, celebra.

Segundo a Pesquisa Folião, realizada pela Belotur e pela Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais, o Carnaval de 2017 movimentou R$ 350 milhões e contou com pelo menos 3 milhões de pessoas. Quase 150 mil turistas estiveram na capital, um número recorde, já que a cidade nunca tinha recebido tantas pessoas de fora de uma só vez.

Em 2018 e 2019, o sucesso se repetiu e, de um ano para o outro, o público aumentou de 3,8 milhões de foliões para 4,2 milhões. Em 2020, a festa tornou-se a maior da história da capital mineira e deu um vislumbre do que será em 2023, já que nos últimos dois anos a pandemia de Covid-19 impôs o distanciamento social e maior rigor nos cuidados com a saúde. 

Ao falar sobre a “virada” que o Carnaval de BH deu na última década, o presidente da Belotur, Gilberto Castro, destaca que, apesar de a popularidade da festa só ter crescido nos últimos anos, as escolas de samba e os blocos caricatos marcam presença e resistem muito antes disso.

Carnaval Garotas Solteiras
Multidão no Carnaval 2020 na avenida Brasil, em BH (Amanda Dias/BHAZ)

Ele cita Aluizer Malab, ex-presidente da Belotur, ao falar sobre a mudança que a explosão da festa trouxe para a capital mineira. “Malab falava que o Carnaval trouxe para BH um verão: a gente estava acostumado não só a ter um Carnaval esvaziado, mas um verão esvaziado, com a ausência do mar. E hoje vemos um verão muito agitado, com inúmeras festas, inúmeros ensaios de blocos, de escolas de samba…”, comenta.

Os investimentos fizeram o caminho proporcional ao boom do Carnaval de BH e cresceram juntos. A receita, naturalmente, aumentou. “A maior festa da cultura mineira, hoje, é o Carnaval. É um espaço onde temos MPB, rock, funk, samba, todos os estilos, todas as pessoas. É um Carnaval muito mais amplo do que a diversidade, é um Carnaval da mistura. Este é o grande Carnaval de BH, uma festa onde impera a cultura da paz, o mais contemporâneo do país. O Carnaval de BH nasceu muito jovem, bebeu sem os efeitos da tradição erudita e se tornou popular, democrático. A palavra do Carnaval de BH é ‘vanguarda’”, enaltece Leônidas Oliveira.

A retomada

Quando o som dos batuques silenciou, e os foliões se despediram da Quarta-feira de Cinzas, um momento histórico e avassalador pairava no horizonte: a pandemia de Covid-19 impôs restrições, mudanças de hábitos e novos conceitos de socialização. Dois anos depois do surgimento do coronavírus e suas variantes, o avanço da vacinação tornou possível brincar o Carnaval de novo. 

E Belo Horizonte se prepara como nunca antes, afinal é a retomada de uma das maiores festividades do mundo – e com o jeito mineiro que aconchega e acolhe. Em 2023, o Carnaval de BH deve receber cerca de 5 milhões de pessoas, e mais de 500 desfiles de blocos de rua estão previstos. Ao todo, serão 23 dias oficiais de festa, entre hoje e 27 de fevereiro. 

Segundo projeção da Belotur, o Carnaval de 2023 deve movimentar R$ 623 milhões, sendo R$ 320 milhões só no setor de alimentos e bebidas. E, se antes o gasto médio dos visitantes era de R$ 749 durante a permanência em BH, a pasta agora estima que esse valor deve ultrapassar R$ 1 mil. 

As oportunidades de ganhar dinheiro se estendem àqueles que trabalham também nos bastidores dos eventos, como cita Gilberto Castro, presidente da Belotur. São centenas de ritmistas e dançarinos das escolas de samba, artistas dos blocos de rua, brigadistas, fornecedores de estrutura de palco, luz, som, segurança, cenografia, figurino e muito mais.

“Fora as pessoas que vêm para a cidade. Aí tem a rede hoteleira e o movimento intenso no comércio. A cidade é impactada de várias formas. Tem também o aumento do número de estúdios, pois os blocos precisam ensaiar. Lojas de instrumentos musicais, professores de música e diretores artísticos também ganham com a folia”, diz Heleno Augusto, vocalista do bloco Havayanas Usadas, um dos mais famosos da capital mineira.

A Fecomércio-MG (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Minas Gerais), representante do setor terciário no estado, tem grandes expectativas para o Carnaval de Belo Horizonte em 2023. Economistas e turismólogos entram em consenso quando o tema são os impactos positivos da celebração.

“Mais pessoas estão na cidade e isso faz com que, primeiro, a rede hoteleira sofra o impacto econômico, aumente o número de pessoas que estão se hospedando. Segundo, há a cadeia de bares e restaurantes, que acaba tendo uma elevação do número de vendas; e também dos supermercados, que vendem mais alimentos e bebidas”, explica Gabriela Martins, economista da Fecomércio-MG. 

Já a pesquisa da CDL-BH sobre a folia deste ano, divulgada em 31 de janeiro, aponta que os  setores de comércio, serviço e turismo estão otimistas com o Carnaval BH 2023. Segundo o levantamento, 74,8% dos empresários e comerciantes estão confiantes de que a folia movimentará a economia e vai gerar boas vendas.

O estudo revelou que mais da metade dos entrevistados acreditam que a falta do Carnaval nos últimos anos impactou o faturamento dos negócios. Para 78% deles, as festas realizadas antes da pandemia foram bastante positivas. Outros 18% acreditam que a folia foi indiferente, e 3,9% têm uma percepção negativa.

Os dados mostraram, ainda, que 54,1% dos comerciantes de BH esperam boas vendas no Carnaval, 34,4% estão indiferentes, e 11,5% acham que a experiência será negativa. No recorte dos que avaliam negativamente, 77,1% dessa percepção está ligada ao fato de que o estabelecimento do empresário não funcionará nos dias da festa. 

Apesar disso, a turismóloga Milena Soares lembra que o espírito do Carnaval movimenta a cidade muito antes do período oficial de folia, o que gera ainda mais oportunidades para os interessados em “fechar negócio”. “A gente sabe que o Carnaval em Belo Horizonte começa em dezembro, né? O pré-Carnaval se tornou uma data comemorativa que faz parte do nosso calendário, que é uma coisa que a gente não via dez anos atrás”, avalia a especialista.

E, para os haters que questionam o aporte no Carnaval, além dos negócios e empregos gerados, vale ressaltar que em impostos indiretos líquidos, ICMS, IPI e ISS, a estimativa de arrecadação é de R$ 24 milhões. 

‘Ei, você aí!’

Para o secretário de Cultura e Turismo de Minas Gerais, a indústria de BH é “do comércio”. Sendo assim, segundo ele, “o Carnaval está presente diretamente em toda a cadeia produtiva de bens e serviços”. “Vai de um hotel a uma padaria, uma loja, bares, restaurantes, transporte, e impacta também a vida do cidadão comum”, diz ele. “O Carnaval de BH é uma grande potência da economia da criatividade”, garante Leônidas Oliveira.

E criatividade não falta na hora de arregaçar as mangas e ir atrás de uma graninha a mais, ou, em muitos casos, da renda que servirá de base para o sustento de famílias inteiras. É o caso do vendedor ambulante Alerson Ramiro, que já tem destino certo para o dinheiro do trabalho no Carnaval: pagar as contas. 

A estratégia de Alerson foi somar forças com amigos, para comprar mais produtos, criar um estoque e conseguir vender mais. “A gente faz parceria, compramos juntos na distribuidora as mercadorias para conseguir preços melhores. No Carnaval, vamos estar com dois isopores e dois carrinhos, mas escolhemos as mercadorias juntos para tentar economizar”, explica. 

Alexsandro Fonseca é outro que, nos dias de Carnaval, vai sair às ruas como ambulante. Ele destaca que a possibilidade de trabalhar dentro da formalidade é algo muito positivo, e também pede respeito ao trabalho árduo desempenhado. “Nós acompanhamos as festas junto dos foliões, com bebidas, comidas, adereços. Contratamos pessoas, compramos bebidas diversas vezes no dia, gastamos em alimentação e muitas vezes somos marginalizados”, pondera. 

Ambulante Alexsandro Fonseca
O ambulante Alexsandro Fonseca investe para conseguir lucrar com a venda de bebidas no Carnaval de BH (Beatriz Kalil Othero/BHAZ)

Em 2023, o número de registros de vendedores ambulantes junto à Prefeitura de Belo Horizonte cresceu, aproximadamente, 10% em relação à edição de 2020. Em 2023, 16.117 pessoas buscaram o registro, contra 14.694 cadastrados em 2020.  

Segundo a Belotur, o investimento médio dos ambulantes na compra de mercadorias neste ano será de R$ 1.800. Eles esperam faturar, em média, R$ 4.500 com as vendas no Carnaval. E, para um país em recuperação econômica, o valor é significativo, tanto que cerca de 27% dos cadastrados em 2023 buscaram o registro pela primeira vez.

Dona Luziane Coelho conta que os planos dela e do marido, donos do food truck Eta Lelê BH, é guardar o dinheiro que conseguirem no Carnaval de BH 2023. “A nossa expectativa é guardar para o nosso plano que é adquirir nosso imóvel, nossa casa. E a gente está trabalhando para isso aí, é aquilo que todo mundo quer, ter sua casa e ter onde morrer sossegado”, diz ela. 

E engana-se quem pensa que os planos podem ser ambiciosos demais. Luziane relata que, com o dinheiro de carnavais anteriores, conseguiu ajudar bastante a família. “O nosso carro vem ali da época da Copa do Mundo no Brasil, ali do final de 2013. Foi o que nos ajudou muito a terminar de formar filho e, nesses períodos de festa, Copa, Carnaval, sempre foi quando a gente ganhava um valor maior, o que nos dava um alívio”, explica a governanta hoteleira, que se realiza cozinhando e atendendo ao público durante a folia. 

A empreendedora Bruna Brandão é outra que aproveita o Carnaval para faturar. Ela é proprietária da Jambruna, marca de cachaça criada no Carnaval de 2018, que une a mineiridade da aguardente com um toque de jambu, erva típica da Amazônia conhecida por provocar leve dormência na boca.

Bruna estima que os lucros da Jambruna cresçam em 50% durante o período de Carnaval. Segundo ela, nesse período sobe a demanda pelas miniaturas, a cachaça engarrafada em pequenas embalagens e que pode ser pendurada no pescoço.

“Nos meses de janeiro e fevereiro, antes do Carnaval, eu dou prioridade a fazer tudo certinho, para a comunicação da marca ser mais ativa. As entradas no site aumentam, então eu fico bem por conta disso e deixo minha profissão de fotógrafa de lado”, diz ela, que também realiza a festa “Baile da Bota”. O evento é uma festa de techno brega, piseiro e ritmos brasileiros “mais explosivos”. 

Sobre o retorno do Carnaval, ela se empolga. “Tá todo mundo muito ansioso para a volta do Carnaval ‘real oficial’ para as ruas, rever os amigos, ver muita gente que tá vindo para o Carnaval de BH. Acho que a gente não está acostumado a ser um ponto turístico para o Brasil. Tenho uma amiga de Recife vindo para cá, e eu fico muito feliz, porque acho que o nosso jeitinho de fazer Carnaval está chamando a atenção de outras cidades”, enaltece.

Já Flávia Ruas, da Estação Carnaval, conta que a loja colaborativa abre por “temporada” para os interessados em comprar adereços como brincos, bolsas, tatuagens temporárias e, claro, muito glitter. Juntando forças com as amigas Paula Silva, Natália Vieira e Luciana Pimentel, as quatro conseguiram ampliar o catálogo de produtos. Ao todo, são 24 marcas para enlouquecer aqueles que não dispensam um bom figurino. Nas palavras de Luciana, é “entrar cru e sair montado para a folia”.

Fundado em 2017, o espaço gera frutos para as empreendedoras de Carnaval a Carnaval. O lucro representa cerca de quatro meses de sustento para a família de Flávia, e Luciana também viu mudanças positivas na vida financeira a partir do empreendimento ligado à folia.

“Eu estou entrando agora como sócia, mas fiquei realmente impactada com o retorno financeiro que eu tive nos Carnavais anteriores como expositora. Como tenho outro trabalho, foi muito bom, porque eu pude investir na minha marca de acessórios que está começando e também pude acessar outros projetos que eu ainda não tinha condição de investir”, diz Luciana. 

O taxista Antônio Eustáquio é mais um que vai aproveitar a folia para empreender. Há cinco anos, o Carnaval dele era bem diferente. Com pouca demanda, o motorista aproveitava o tempo ocioso para descansar e viajar com a família. Nos últimos carnavais, no entanto, não deixou de trabalhar e vai repetir a dose em 2023, de olho nas possibilidades de lucrar.

“Como janeiro é mais parado, no Carnaval a gente aproveita. Eu consigo garantir uns dois meses de renda no Carnaval, não fico rico, mas já ajuda bastante”, explica ele, que chega a trabalhar até 12 horas ininterruptas por dia nesse período. 

Antônio conta que consegue fazer o dobro de viagens no Carnaval, em comparação a dias normais na capital mineira.  Para dar conta da alta demanda, o taxista investiu pesado: além de um carro novo, mais potente, ele ainda renovou o guarda-roupa visando atender melhor os passageiros.

“Eu já tenho uma clientela fiel no Carnaval que eu levo e busco nos clubes. Eles agendam porque sabem que é difícil encontrar carros de aplicativo e ficam com medo de pegar alguns motoristas que não sabem o caminho, ou que tentam dar uma de espertos com eles, então já deixam agendado”, explica.

Keoma Costa Reis, corretor de imóveis e fundador da MyStay, diz que o Carnaval potencializa o fechamento de negócios. Neste ano, todos os 20 apartamentos disponíveis para locação por temporada foram ocupados. O empreendedor explica que a alta procura por hospedagens em BH possibilitou aumentar o tíquete médio dos valores das diárias. 

“Focamos em pacotes de cinco dias e hoje estamos com 100% de lotação para o Carnaval 2023. O pessoal começou a procurar ainda em janeiro, temos pessoas vindo de Curitiba, São Paulo e Brasília, entre outros”, cita.

E para dar conta de tanta gente, foi preciso aumentar a mão de obra. “A grana que arrecadamos com as locações para o Carnaval é um plus, conseguimos de 90% a 100% do faturamento mensal apenas nos cinco dias de festa”, diz. 

Casa Aluguel Carnaval BH
Imóvel que faz parte do catálogo da startup MyStay e já está reservado para o Carnaval de BH (Divulgação/MyStay)

Carnaval de todos, até de quem não gosta

Ainda que alguns insistam em descredibilizar o Carnaval de BH, é importante ressaltar que a folia é de todos. E, aqueles que não curtem, podem se tranquilizar. Segundo Gilberto Castro, da Belotur, existe um grande esforço da PBH para que os impactos sejam minimizados, para que o Carnaval seja diurno, e para que o trânsito seja cada vez menos impactado. Mesmo assim, ele lamenta que haja quem critique o investimento da prefeitura no evento.

“Fico triste de entender que a pandemia não conseguiu mostrar para todo mundo o quanto é importante socializar, o quanto a gente não consegue viver sem cultura. Acabamos de ter uma prova do quanto isso é importante. Ver a cidade feliz, respeitando as diferenças, e que isso, para além do bem-estar que traz para a cidade, também gera emprego, renda, movimento”, defende.

O presidente da Belotur faz um chamado de reflexão para que a população de BH entenda que, num período de menos de um mês, cada um faça um esforço individual de valorizar a riqueza cultural que se espalha pela cidade.

“Vivemos em sociedade, o Carnaval é de todo mundo, e é também de quem não gosta. Por isso, nosso esforço para minimizar esses impactos. Mas, obviamente, temos que achar esse equilíbrio. Ser contra algo que deixa as pessoas mais felizes, onde a gente expressa nossa cultura, expressa nosso modo de ser, recebe turista, gera emprego, gera renda… parece descabido”, finaliza.

Paulo PG Rocha, do bloco Chama o Síndico, também defende a realização da festa e deixa recado para quem não gosta da folia. “O crescimento, para quem trabalha com o Carnaval, é excelente. Tem gente que fala que não gosta pelo fato de estar muito grande. Mas é para todo mundo mesmo. É igual um lugar bonito que todo mundo quer ir, visitar e tal. Só que a cidade tem que se preparar para isso. As cervejarias, bares e restaurantes precisam investir nisso, pois eles vão ganhar. Não é gasto, é investimento. Acho que as pessoas precisam virar essa chave”.

A turismóloga Milena Soares pontua que, quem estiver em BH durante a folia, pode encontrar uma gama variada de Carnavais: tranquilo, familiar, agitado, e por aí vai.  

O secretário de Turismo de Minas, Leônidas, ainda manda um recado para que quem não gosta de Carnaval, pelo menos, apoie a realização da festa: “Temos que pensar de forma prática: a economia precisa ser movimentada, precisamos gerar impostos. Não podemos ser contra a geração de emprego e renda”.

E para quem quiser “fugir” da capital durante a festa, a Secult vai lançar o projeto “Carnaval da Tranquilidade”, estimulando o turismo em cidades cujo forte não é a folia.

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