A política brasileira parece ter abandonado a praça pública para se instalar definitivamente no feed de vídeos curtos. O debate nacional foi sequestrado por cortes de quinze segundos, dancinhas coreografadas, escândalos artificiais e intrigas digitais cuidadosamente fabricadas para gerar engajamento. O que antes exigia estudo, formulação intelectual, capacidade administrativa e visão de Estado agora se resume à habilidade de viralizar.
A democracia brasileira entrou na era da imbecilidade digital.
Não se trata apenas de uma degradação estética da política. Trata-se de uma deterioração institucional profunda. A lógica das redes sociais destruiu quase todos os incentivos à seriedade. O político que antes precisava apresentar resultados concretos passou a depender de curtidas, compartilhamentos e algoritmos. O eleitor que antes buscava liderança e solução passou a consumir entretenimento emocional travestido de posicionamento político.
A dancinha de TikTok talvez seja o símbolo mais perfeito desse fenômeno. Ela representa o encontro perverso entre o político que não deseja enfrentar problemas reais e o eleitor que não deseja refletir sobre eles. Um oferece superficialidade; o outro recompensa exatamente isso. É uma relação de cumplicidade intelectual na qual ambos fingem participar da vida pública enquanto escapam completamente dela.
Enquanto isso, o país real apodrece longe das telas.
O Brasil registrou, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 46 mil homicídios em 2023. Foram mais de 83 mil casos de estupro oficialmente registrados, número que provavelmente representa apenas uma fração da realidade, dada a enorme subnotificação desse tipo de crime. Roubos, furtos e violência urbana seguem aterrorizando milhões de brasileiros que vivem encarcerados dentro de suas próprias casas, reféns do medo e da incapacidade estatal.
Na saúde pública, o colapso tornou-se silenciosamente normalizado. Filas intermináveis para consultas especializadas, demora absurda para cirurgias eletivas, falta de profissionais, hospitais sucateados e subfinanciamento crônico transformaram o acesso à saúde em uma espécie de loteria burocrática. Em muitas regiões do país, conseguir um exame de média complexidade já se tornou uma vitória administrativa.
Na educação, os indicadores revelam um desastre estrutural. Professores mal remunerados, ambientes escolares deteriorados e sucessivas quedas de desempenho na educação básica demonstram que o país fracassou justamente no setor que poderia alterar seu destino histórico. O Brasil convive há décadas com estudantes que concluem etapas escolares sem domínio adequado de leitura, interpretação de texto ou matemática elementar. Mas o debate público parece mais interessado em lacração ideológica do que em alfabetização efetiva.
A infraestrutura nacional também revela um país parado no tempo. Estradas precárias elevam custos logísticos, portos insuficientes limitam competitividade, aeroportos regionais são escassos e milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso adequado ao saneamento básico. O esgoto corre a céu aberto enquanto parlamentares gravam vídeos performáticos para discutir trivialidades digitais.
Na economia, o cenário tampouco inspira otimismo. O Brasil mantém uma das cargas tributárias mais complexas e sufocantes do mundo em desenvolvimento. Pequenos e médios empreendedores enfrentam burocracia excessiva, insegurança jurídica, dificuldade de acesso ao crédito e escassez crescente de mão de obra qualificada. Produzir, empregar e empreender no país tornou-se uma atividade de resistência psicológica.
E apesar de tudo isso, ou talvez justamente por causa disso, as redes sociais de muitos políticos transformaram-se em verdadeiros pontos de encontro entre enganadores e quem pede pra ser enganado. Reúnem-se diariamente para trocar bravatas, simular coragem moral e fingir profundo conhecimento sobre temas a respeito dos quais jamais leram um livro, escreveram uma linha séria ou formularam uma proposta consistente.
A política deixou de ser exercício de responsabilidade pública para se tornar produção contínua de personagem.
Vivemos também um êxodo moral preocupante: influencers desejam migrar para a política em busca de poder, relevância e dinheiro público, enquanto políticos incompetentes, incapazes de entregar resultados concretos, migram para o universo dos influencers como estratégia de sobrevivência eleitoral. De um lado, celebridades digitais descobrem que votos podem ser monetizados; de outro, agentes públicos percebem que a performance rende mais dividendos do que a gestão.
O resultado é devastador.
O mérito administrativo tornou-se secundário. A capacidade intelectual passou a ser irrelevante. O conhecimento técnico virou obstáculo para quem precisa produzir frases simplificadas para algoritmos. O governante eficiente perde espaço para o animador digital. O parlamentar estudioso é atropelado pelo histrião de internet. A seriedade virou desvantagem competitiva.
Sim, estamos vivendo um verdadeiro apocalipse político.
O processo de idiotização da representação democrática empurra o país para um abismo institucional perigoso. Pessoas sérias, preparadas e capazes estão se afastando cada vez mais da vida pública, cansadas da degradação do debate, da lógica da exposição permanente e da transformação da política em espetáculo grotesco. Em sentido oposto, aproveitadores, demagogos e farsantes demonstram enorme apetite para ocupar esses espaços vazios.
E talvez o aspecto mais alarmante seja justamente este: o sistema começa a selecionar os piores. Não os mais preparados, mas os mais performáticos. Não os mais inteligentes, mas os mais barulhentos. Não os mais responsáveis, mas os mais virais.
Se nada mudar, em breve o charlatanismo digital deixará de ser um desvio da política para se tornar pré-requisito de ingresso nela. E quando uma democracia passa a premiar farsantes e punir a inteligência, ela já começou seu processo de autodestruição.
Estamos nos tornando o país onde o político dança na internet e o cidadão “dança” na vida real.









