Neste fim de ano, enquanto a cidade se enchia de luzes e rituais de celebração, pensei nas famílias que tiveram seus lares atravessados pela violência, nos filhos e filhas que viverão o primeiro Natal sem suas mães. Pensei nas mães e pais que enfrentarão a mesa vazia pela ausência definitiva de seus filhos.
No dia 25 de dezembro, abri o celular e li que bem aqui em Belo Horizonte, uma mulher sobreviveu a uma tentativa de feminicídio cometida pelo próprio companheiro, logo após a ceia de Natal. Em João Pessoa, o mesmo feriado foi marcado por três episódios graves de violência contra mulheres, sendo um feminicídio consumado e duas tentativas. Esses casos não são exceções trágicas. Eles revelam um padrão que se repete justamente nos momentos em que se espera acolhimento e descanso.
Dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná indicam que os registros de violência doméstica e familiar contra mulheres são cerca de 43% maiores nos fins de semana e feriados do que nos dias úteis. Esses dados revelam que as datas associadas à convivência familiar podem, para muitas mulheres, se transformar em períodos de maior risco, quando o convívio forçado e a sensação de impunidade intensificam a violência.
Os dados oficiais apenas confirmam o que mulheres sabem há décadas: o Brasil falha em proteger suas cidadãs. Jovens, mães, trabalhadoras, mulheres negras, periféricas e mulheres trans seguem sendo as principais vítimas de uma violência que atravessa o espaço doméstico, as ruas e a omissão institucional. O feminicídio é a expressão mais extrema de uma estrutura que normaliza o controle, a ameaça e o silenciamento dos corpos femininos.
No primeiro domingo de dezembro, as ruas das capitais brasileiras foram novamente ocupadas por manifestações em defesa da vida das mulheres. Marchamos porque é insuportável constatar que ainda precisamos ir às ruas para afirmar o óbvio: a morte de tantas mulheres não pode ser naturalizada. A indignação não é apenas pelo que acontece, mas pela permanência desse ciclo de violência que insiste em se repetir.
Marchas como a do dia 07/12 carregam memória. Nos anos 1980, o movimento “Quem ama não mata” já denunciava a violência doméstica e os assassinatos de mulheres tratados como crimes passionais. Décadas se passaram, leis foram conquistadas, discursos avançaram, mas seguimos contando minutos, nomes e corpos. Um dos episódios mais tristes de 2025 foi o assassinato de Alice Alves, mulher trans espancada até a morte na região central da cidade, expõe outra face dessa mesma estrutura. O Brasil lidera, ano após ano, os índices de assassinatos de pessoas trans no mundo, e esse dado não está dissociado da violência contra mulheres, mas faz parte do mesmo sistema de exclusão e ódio.
Enfrentar a violência contra mulheres exige uma mudança cultural profunda, que passa pela educação para a igualdade desde a infância, pelo combate sistemático à misoginia e à transfobia, pelo fortalecimento das políticas de cuidado e de proteção às mulheres e pelo compromisso do poder público em agir antes da violência extrema. Romper com a cultura que naturaliza a morte de mulheres é uma tarefa permanente.
A vida das mulheres não pode esperar mais 44 minutos.









