Era para ser apenas mais uma segunda-feira normal de trabalho quando, em 2017, a notícia da morte de Denise Neves dos Anjos atravessou como um raio a rotina de Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza e fundadora e presidente do Grupo Mulheres do Brasil. Jovem, competente, gerente de uma das grandes lojas do grupo em Campinas, Denise foi assassinada pelo marido aos 37 anos.
Luiza, que sempre observou com atenção o tema da violência contra a mulher, percebeu que aquilo não poderia ser tratado como mais um caso entre tantos. “Como nós não percebemos?”, perguntou-se, antes de transformar a indignação em ação imediata. A partir daquele episódio, nada mais seria igual dentro da empresa. Toda a liderança foi mobilizada, protocolos foram criados, treinamentos implementados, e o Magazine Luiza nunca mais perdeu uma funcionária para a violência doméstica. “Estamos todos alertas”, ela afirma, com firmeza.
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Luiza fala dos números que assolam o país, 1 milhão de chamadas ao 190, 77% das vítimas de violência sexual com menos de 14 anos, com a força de quem os sente antes de citá-los. “Indignação e responsabilidade”, define. Ela sabe que, se esmorecer, milhares de mulheres perdem uma aliada. A força vem da rede, mais de 135 mil mulheres que formam o Grupo Mulheres do Brasil, movimento que ela fundou e que se tornou um dos maiores do mundo em engajamento feminino. Juntas, transformam dor em política pública, indignação em ação concreta, silêncio em conversa. E conversa em mudança.
Esse compromisso coletivo ganhou as ruas com a Caminhada pelo Fim da Violência contra Mulheres e Meninas, que este ano chega à oitava edição. A caminhada integra um movimento nacional e internacional que alerta para uma realidade grave. Uma menina ou mulher é estuprada a cada dez minutos no país, três são vítimas de feminicídio por dia e 26 sofrem agressões por hora. Os números são alarmantes e é por isso que a presença de cada pessoa importa. Que a cidade caminhe junta, por todas que não podem mais caminhar.
A cada ano, mais cidades, mais vozes, mais passos. Luiza nunca esquece o dia em que, ao final de uma caminhada, foi abraçada por uma mulher que chorava e dizia “Hoje eu encontrei coragem para pedir ajuda”. Naquele instante, ela entendeu que não se trata de um ato simbólico, mas de um movimento que salva vidas. Ver famílias inteiras, crianças de mãos dadas com os pais, homens, mulheres, jovens e até cachorros vestindo laranja é, para ela, um sinal de que estamos formando uma geração que não vai naturalizar a violência.
Luiza insiste que o maior entrave ainda é cultural. A ideia equivocada de que “briga de marido e mulher não se mete a colher” precisa ser enterrada. Ela diz o contrário, “Nós metemos, sim”. E acredita que o Brasil só avançará quando Estado, empresas e sociedade civil assumirem responsabilidade conjunta. No Magazine Luiza, os homens também se envolveram e, quando chamados, indignaram-se tanto quanto as mulheres. Para Luiza, a participação masculina é indispensável para quebrar ciclos, impedir repetições e construir ambientes realmente seguros.
Quando imagina o Brasil daqui a dez anos, a empresária visualiza um lugar onde a palavra feminicídio não faça mais parte do cotidiano, onde a violência contra mulheres e meninas seja um passado intolerável. Ela sonha com um país em que nenhuma mulher tenha vergonha de pedir ajuda, em que nenhuma criança cresça vendo a violência como norma. E, acima de tudo, com um Brasil onde o silêncio nunca mais seja uma opção.
À mulher que vive violência e não consegue pedir ajuda, ela diz “Você não está sozinha. A culpa não é sua. Existe uma rede inteira pronta para te acolher. Dar o primeiro passo é difícil, mas salva”. E à sociedade que se prepara para caminhar no dia 30 de novembro, seu convite é simples e profundo, que cada passo seja um manifesto.
Luiza Helena Trajano transformou uma empresa, criou um dos maiores movimentos de mulheres do mundo, influenciou políticas públicas e fez do varejo um território de acolhimento. Mas talvez seu maior legado esteja na coragem de olhar para a dor de uma mulher e decidir que aquilo não seria só uma estatística. Ela decidiu agir. E porque agiu, milhares caminham com ela hoje. Camisetas laranja, vozes em coro, passos firmes. Todos dizendo, juntos, basta. Siga essa mulher. E caminhe com ela. Porque quando uma mulher como essa movimenta o mundo, ninguém fica parado.
Para além das questões associadas à violência contra a mulher, Luiza é daquelas mulheres que sempre diz “sim” para uma causa social. Eu a conheci pessoalmente em fevereiro de 2018, exatamente em uma situação assim. Ao lado do cientista, médico e hematologista Vanderson Rocha, eu lançava o livro Esquadrão dos Anjos, cuja parte da renda foi revertida para pesquisas em terapia celular no Brasil e para o apoio a pacientes transplantados pelo SUS que chegam de outras cidades e estados para tratamento na capital paulista. Generosa, Luiza não apenas divulgou o livro em suas redes e no Grupo Mulheres do Brasil, como fez questão de estar presencialmente no evento. Foi graças a ela também que o Grupo Mulheres do Brasil se mobilizou para colaborar na construção de um novo espaço de acolhimento para os pacientes de transplante de medula do Serviço de Hematologia e Hemoterapia do Hospital das Clínicas de São Paulo. Essas são ações que eu presenciei e conheço de perto, mas sabemos que a atuação dela é muito maior e segue abrindo caminhos que transformam vidas em todo o país.
Se você aceitar o convite para seguir essa mulher, pode também caminhar com ela e por todas, participando do evento em Belo Horizonte. A concentração será às 8 horas, na Praça da Bandeira. As camisas adquiridas pela Sympla serão entregues no local, na tenda da Cruz Vermelha Brasileira, Filial Minas Gerais.










