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As primeiras 200 casas para funcionários públicos em BH

08/05/2026 às 08h11 - Atualizado em 08/05/2026 às 08h12
Vista do casario do Bairro Funcionários em 1896, a partir da Praça da Liberdade, ainda em obras. (Crédito: Arquivo Público Mineiro / Colorizada).

No contexto da mudança da sede administrativa de Minas Gerais, no final do século XIX, a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) coordenou o planejamento e a execução de um conjunto de 200 casas destinadas aos servidores públicos estaduais transferidos de Ouro Preto para Belo Horizonte.

Para atender a essa demanda, os arquitetos da CCNC, chefiados por José de Magalhães, elaboraram seis tipologias construtivas de casas, classificadas de A a F, que variavam em tamanho e decoração conforme os cargos dos servidores públicos que as ocupariam, sendo as casas do tipo A destinadas aos funcionários menos graduados e as do tipo F aos de maior escalão, como os secretários de Estado.

A construção dessas casas-tipo iniciou-se em março de 1896, integrando, assim, o grupo das mais antigas moradias da capital mineira, das quais ainda existem alguns exemplares no bairro que, em virtude dessa ocupação inicial, passou a ser chamado de Funcionários. Por muitas décadas, esse bairro contou, ao sul do seu horizonte, com a exuberante moldura desobstruída da Serra do Curral, compondo um cenário marcante para muitos quintais, janelas e varandas das suas casas.

Vista panorâmica do Bairro Funcionários em 1935, com destaque para a Rua Cláudio Manoel em direção à Serra do Curral ao fundo. (Crédito: Arquivo Público Mineiro).

Em 1999, reconhecendo a importância histórica e arquitetônica das habitações construídas pela CCNC, o patrimônio cultural do município criou o Conjunto Arquitetônico com Tipologia de Influência da Comissão Construtora da Nova Capital, instrumento de proteção que inclui cerca de 20 casas remanescentes daquela época, testemunhas do nascimento da cidade. Cabe ressaltar que a inexistência dos projetos originais, bem como as contínuas modificações e os acréscimos verificados nesses imóveis, dificulta a identificação formal das tipologias iniciais dessas moradias.

Contudo, sabe-se que as casas-tipo mais simples, de tamanhos modestos e com menor número de portas e janelas, apresentavam volumes compactos, cujas fachadas eram decoradas com relevos em formas geométricas. Conforme escreveu a professora Heliana Angotti-Salgueiro, em seu livro A Casaca do Arlequim – Belo Horizonte, uma Capital Eclética do Século XIX, a geometrização dos ornatos nas fachadas das primeiras casas-tipo de BH, ligadas à CCNC, seguia um vocabulário ornamental muito comum em Paris naquela época. Nesse sentido, um dos identificadores das casas trabalhadas pela CCNC é exatamente a decoração das fachadas com formas geométricas, como círculos, losangos, retângulos, entre outros.

Casas de antigos funcionários, datadas de 1896, construções atribuidas à CCNC: Rua Pernambuco, n. 593; Rua Santa Rita Durão, n. 999; Rua Cláudio Manoel, n. 981. Imóveis tombados. (Crédito: Ulisses Morato, 2025).

Por outro lado, para a inauguração da cidade, a CCNC planejou e construiu quatro palacetes para integrantes da cúpula administrativa do poder estadual, os secretários de Estado. Cabe lembrar que os palacetes eram as residências de grande porte e apuro arquitetônico, que serviam de moradia para as elites urbanas, abrigando as famílias de altos funcionários, grandes comerciantes, proprietários de terras e políticos.

Aqui, destacaremos dois desses casarões, construídos para a moradia de secretários de Estado e suas famílias, ambos projetados pelo arquiteto Edgard Nascentes Coelho: os antigos palacetes dos secretários de Finanças e do Interior. Integrando o conjunto das primeiras casas nobres da capital mineira, essas obras sobressaem na paisagem urbana pela escala imponente, pelos jardins frontais e pelo requintado trabalho de ornamentação das suas fachadas de gosto Beaux-Arts.

Os palacetes dos secretários de Finanças (esq.) e do Interior (dir.), inaugurados em 1897 na Av. João Pinheiro, atuais Arquivo Público Mineiro e E. E. Afonso Pena. Imóveis tombados. (Crédito: Relatório do Prefeito, 1937, colorizada / Ulisses Morato, 2025).

O antigo Palacete do Secretário das Finanças de Minas Gerais, localizado na Av. João Pinheiro, esquina com a Rua dos Aimorés, é uma obra de feição eclética com expressiva fachada de inspiração neoclássica. O imóvel, um dos primeiros a serem tombados pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), em 1975, conta com dois pavimentos, escadaria frontal e varanda lateral trabalhadas com elementos clássicos. Entre 1910 e 1936, esse edifício abrigou a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e, a partir de 1938, começou a ser ocupado pelo Arquivo Público Mineiro, com origens em Ouro Preto.

Já o antigo Palacete do Secretário de Estado do Interior, situado na Av. João Pinheiro, n. 450 (casarão do lado esquerdo), outra obra em estilo eclético de influência neoclássica, também foi inaugurado em 1897 com projeto de Edgard Nascentes Coelho, contando ainda com um exuberante trabalho de pintura e ornamentação de autoria do artista alemão Frederico Antônio Steckel. Em 1906, passou a abrigar o primeiro grupo escolar da cidade, que, a partir de 1914, foi nomeado como Grupo Escolar Afonso Pena, em homenagem ao destacado político mineiro.

Os outros dois palacetes foram destinados ao secretário da Agricultura, imóvel que hoje é o Museu Mineiro, também na Av. João Pinheiro, e ao Chefe da Polícia Militar de Minas Gerais, construído na Rua Bernardo Guimarães, esquina com Rua da Bahia.

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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