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Colunas

Edifício Miraci, uma joia rara do Centro de BH

02/01/2026 às 07h57 - Atualizado em 02/01/2026 às 08h01
O Edifício Miraci, de feição modernista, localizado na Rua Rio de Janeiro, n. 1023. (Crédito: Ulisses Morato, 2023).

O Centro de Belo Horizonte é um imenso e diversificado repositório de arquitetura qualificada, que precisa ser melhor explorado, catalogado e divulgado. Uma prova disso é o magnífico Edifício Miraci, que muitas vezes passa despercebido, inclusive na literatura da especialidade, embora seja uma verdadeira joia arquitetônica que orna a Rua de Janeiro, em frente ao Sesc Palladium (antigo Cine Palladium). A ausência de tombamento dessa notável obra pelo patrimônio cultural do município é um indicativo do grau de invisibilidade a que foi relegada.

A fachada ondulada do Edifício Miraci, um ícone arquitetônico do Centro de BH, foi projetada pelo arquiteto Eurípedes Santos em 1956. (Crédito: Ulisses Morato, 2023).

A extraordinária composição formal do Edifício Miraci, projetado em 1956 pelo arquiteto Eurípedes Santos, destaca-se pela expressiva fachada ondulada, sendo um contemporâneo estético do curvilíneo Edifício Niemeyer, concluído em 1960 na Praça da Liberdade. Além disso, da linguagem modernista, o Miraci ainda incorporou criativamente em sua fachada os típicos brise-soleil (quebra-sóis), singularmente emoldurados, e as elegantes colunas (pilotis) na base, o que faz deste prédio uma das obras-primas desse estilo arquitetônico no centro de Belo Horizonte.

O edifício, com treze pavimentos, foi erguido com estrutura de concreto armado pela Construtora Andrade Campos e apresenta uso comercial no térreo e quatro apartamentos em cada um dos andares superiores, exceto no último, cuja solução de planta contemplou duas unidades residenciais. Assim como a fachada, o hall de entrada do condomínio recebeu tratamento arquitetônico especial, sobressaindo-se pelos revestimentos em pedras nobres no piso e nas paredes, que proporcionam beleza e sofisticação ao acesso de moradores e visitantes.

O hall de entrada do Edifício Miraci, voltado para a Rua Rio de Janeiro, é revestido com pedras nobres no piso e nas paredes. (Crédito: Ulisses Morato, 2023).

Além de constituir um atrativo arquitetônico, o Miraci também foi um importante ponto de convergência da cena cultural da capital mineira. Conforme o escritor e quadrinista Nélio Azevedo — que residiu no sétimo andar do edifício no final dos anos 1960 —, o Bar Saloon, que funcionou no térreo, foi um dos pontos de encontro de Milton Nascimento e de outros integrantes do Clube da Esquina, movimento musical que impactou a Música Popular Brasileira nos anos 1970. Além dos músicos, o Saloon certamente foi palco de calorosas discussões, entre um chope e outro, dos amantes da sétima arte, após as sessões do antigo Cine Palladium (1963-1999), que ficava em frente ao Miraci.

A base do Ed. Miraci, marcada por elegantes colunas, abrigou o lendário Bar Saloon, antigo ponto de encontro de músicos do Clube da Esquina e de frequentadores do vizinho Cine Palladium. (Crédito: Ulisses Morato, 2023).

Sobre o arquiteto Eurípedes Santos

A trajetória pessoal e profissional do arquiteto Eurípedes Santos é pouco conhecida, infelizmente uma situação comum a muitos artífices que moldaram a rica paisagem urbana do Centro de BH. Pelos poucos dados disponíveis, sabemos que ele se formou na Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, em 1951, e que aprovou, ainda na década de 1950, cerca de 25 projetos de edificações para a região central da cidade junto à Prefeitura Municipal. Além disso, em 1956, Santos foi um dos 26 proponentes que apresentaram projetos no Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil (Brasília), vencido por Lúcio Costa.

O antigo edifício da Escola de Engenharia da UFMG, década de 1960. Projetado por Eurípedes Santos e Alberto Mazoni. Imóvel tombado. (Crédito: Associação de ex-alunos da Escola de Engenharia).

Um dos projetos de maior relevância de Eurípedes Santos para o Centro de BH, elaborado em 1953, destinou-se à construção do antigo prédio da Escola de Engenharia da UFMG, fruto de uma parceria profissional com Alberto Mazoni de Andrade. Inaugurada em 1959, a obra localizada na Rua Espírito Santo, entre a Rua dos Guaicurus e a Av. do Contorno, foi tombada pelo patrimônio municipal em 1998, em reconhecimento à sua importância histórica e arquitetônica. O edifício se distingue pela racionalidade formal, volumetria assimétrica, presença de pilotis e limpeza ornamental — marcas do modernismo corrente no Brasil daquela época.

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Ulisses Morato

Email: [email protected]

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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