O Centro de Belo Horizonte é um imenso e diversificado repositório de arquitetura qualificada, que precisa ser melhor explorado, catalogado e divulgado. Uma prova disso é o magnífico Edifício Miraci, que muitas vezes passa despercebido, inclusive na literatura da especialidade, embora seja uma verdadeira joia arquitetônica que orna a Rua de Janeiro, em frente ao Sesc Palladium (antigo Cine Palladium). A ausência de tombamento dessa notável obra pelo patrimônio cultural do município é um indicativo do grau de invisibilidade a que foi relegada.

A extraordinária composição formal do Edifício Miraci, projetado em 1956 pelo arquiteto Eurípedes Santos, destaca-se pela expressiva fachada ondulada, sendo um contemporâneo estético do curvilíneo Edifício Niemeyer, concluído em 1960 na Praça da Liberdade. Além disso, da linguagem modernista, o Miraci ainda incorporou criativamente em sua fachada os típicos brise-soleil (quebra-sóis), singularmente emoldurados, e as elegantes colunas (pilotis) na base, o que faz deste prédio uma das obras-primas desse estilo arquitetônico no centro de Belo Horizonte.
O edifício, com treze pavimentos, foi erguido com estrutura de concreto armado pela Construtora Andrade Campos e apresenta uso comercial no térreo e quatro apartamentos em cada um dos andares superiores, exceto no último, cuja solução de planta contemplou duas unidades residenciais. Assim como a fachada, o hall de entrada do condomínio recebeu tratamento arquitetônico especial, sobressaindo-se pelos revestimentos em pedras nobres no piso e nas paredes, que proporcionam beleza e sofisticação ao acesso de moradores e visitantes.

Além de constituir um atrativo arquitetônico, o Miraci também foi um importante ponto de convergência da cena cultural da capital mineira. Conforme o escritor e quadrinista Nélio Azevedo — que residiu no sétimo andar do edifício no final dos anos 1960 —, o Bar Saloon, que funcionou no térreo, foi um dos pontos de encontro de Milton Nascimento e de outros integrantes do Clube da Esquina, movimento musical que impactou a Música Popular Brasileira nos anos 1970. Além dos músicos, o Saloon certamente foi palco de calorosas discussões, entre um chope e outro, dos amantes da sétima arte, após as sessões do antigo Cine Palladium (1963-1999), que ficava em frente ao Miraci.

Sobre o arquiteto Eurípedes Santos
A trajetória pessoal e profissional do arquiteto Eurípedes Santos é pouco conhecida, infelizmente uma situação comum a muitos artífices que moldaram a rica paisagem urbana do Centro de BH. Pelos poucos dados disponíveis, sabemos que ele se formou na Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, em 1951, e que aprovou, ainda na década de 1950, cerca de 25 projetos de edificações para a região central da cidade junto à Prefeitura Municipal. Além disso, em 1956, Santos foi um dos 26 proponentes que apresentaram projetos no Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil (Brasília), vencido por Lúcio Costa.

Um dos projetos de maior relevância de Eurípedes Santos para o Centro de BH, elaborado em 1953, destinou-se à construção do antigo prédio da Escola de Engenharia da UFMG, fruto de uma parceria profissional com Alberto Mazoni de Andrade. Inaugurada em 1959, a obra localizada na Rua Espírito Santo, entre a Rua dos Guaicurus e a Av. do Contorno, foi tombada pelo patrimônio municipal em 1998, em reconhecimento à sua importância histórica e arquitetônica. O edifício se distingue pela racionalidade formal, volumetria assimétrica, presença de pilotis e limpeza ornamental — marcas do modernismo corrente no Brasil daquela época.











