Em incontáveis cartões-postais antigos, os charmosos bondes elétricos — símbolo de modernidade no transporte público — compuseram a paisagem urbana de Belo Horizonte, junto a ruas e avenidas ladeadas pela exuberante arquitetura dos antigos casarões, palácios e templos, além das estações e abrigos criteriosamente projetados para o embarque e desembarque de passageiros. Fosse uma cidade mais afeita à sua memória, como Lisboa ou Milão, a capital montanhesa teria preservado mais do que fotografias dessa ancestral estrutura de transporte e, assim, não teríamos perdido o bonde da memória urbana e arquitetônica.
Na capital mineira, os bondes circularam entre 1902 e 1963. No auge desse importante serviço urbano, os trilhos espalhados pela cidade chegaram a atingir a incrível extensão de 73 km, alcançando bairros distantes das estações centrais, como Pampulha, Gameleira, Santo Antônio, Floresta e Renascença.
Cruzar a cidade nos bondinhos era mais do que um simples ir e vir na azáfama do dia a dia. O ritmo cadenciado dessas viagens permitia transcender a mera locomoção mecânica, possibilitando desde autênticos passeios arquitetônicos com a brisa no rosto até a busca do par amoroso, como bem descreveu o notável memorialista mineiro Pedro Nava em seu precioso Balão Cativo:
Esses trajetos eram extremamente românticos e permitiam aos namorados passar e repassar nas casas das eleitas janelando; multiplicar essas passagens mediante trajetos retomados quando os via Bahia e via Afonso Pena se encontravam nos abrigos.
E foi nesse antológico cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua da Bahia, mencionado por Nava, que se escreveu um dos mais interessantes capítulos dessa memorável experiência dos trilhos em Belo Horizonte. Para essa esquina, na extremidade do Parque Municipal, o arquiteto Francisco Izidro Monteiro projetou a nossa primeira estação de bondes — uma autêntica pérola arquitetônica em estilo eclético, de esmerada ornamentação — que se tornou uma referência no primeiro eixo cultural da cidade, a Rua da Bahia. Em 1910, ano seguinte à sua inauguração, a estação recebeu uma esmerada torre central, onde se instalou o segundo relógio público da cidade.

Não por acaso, o icônico Bar do Ponto, local de encontro de muitos jornalistas, políticos e escritores da cidade, recebeu seu nome em referência àquela bela estação situada na esquina oposta, que foi um ponto fervilhante de embarque, desembarque e baldeações das linhas da cidade. Aliás, uma das mais glamourosas linhas foi a da Rua da Bahia, que passava por locais emblemáticos da vida cultural e boêmia da cidade, tais como o próprio Bar do Ponto, o Cine Odeon, o Teatro Municipal, o Bar Trianon, os cafés Paris e Estrela, as livrarias Francisco Alves e Itatiaia, além das redações dos grandes jornais e revistas.

Com a ampliação das linhas e da quantidade de bondes, a municipalidade construiu, em 1926, na mesma esquina da Avenida Afonso Pena com a Rua da Bahia — desta feita no canteiro central da avenida, em frente à estação existente — um elegante abrigo de passageiros em estilo eclético, nitidamente inspirado na sobriedade neoclássica. O movimentado abrigo, projetado por Ildeu Ramos de Lima, destacava-se por suas 20 colunas toscanas, que sustentavam uma cobertura plana de concreto cujo teto possuía pinturas e ornatos.

No final da década de 1930, a centralidade da cidade deslocou-se para a Praça Sete, acompanhando o sistema de transporte público. O local passou a abrigar, em 1937, duas estações de bondes no canteiro central da Avenida Afonso Pena, uma de cada lado da praça. Os tempos eram outros, e a estética arquitetônica também: as novas estações foram concebidas pelo ilustre arquiteto Raffaello Berti, em linhas modernizantes do estilo Art Déco. Nesse momento, a cidade criava dois novos marcos urbanos ligados ao seu sistema de bondes.
O novo centro nevrálgico da capital, que secundarizou a velha estação da Afonso Pena e o seu bar vizinho, foi narrado com um poético lamento pelo jornalista Astoupho Gazolla, da Revista Bello Horizonte, em junho de 1937:
O Bar do Ponto morreu. Coitado do Bar do Ponto! Foram os bondes que o mataram. Os mesmos bondes que lhe deram vida. Eles não quiseram mais saber do Bar do Ponto. Foram morar na Praça 7. O Bar do Ponto estava velho e feio. A praça 7 é moça e bonita. E tem pirulito e cinema. E, também um círculo grande, onde os bondes brincam de roda. De ciranda, cirandinha…

Pouco tempo depois, em 1950, a despeito de suas extraordinárias qualidades construtivas e arquitetônicas, as duas estações da Praça Sete foram demolidas para ceder espaço ao fluxo cada vez maior de veículos movidos a combustão — era o início da avassaladora cultura automobilística na cidade! Assim, as linhas de bonde passaram a contar com duas novas estações na Praça Rio Branco, erguidas no estilo modernista que se impunha na cidade no período pós-Pampulha. No início dos anos 1960, após a desativação completa do sistema de bonde em BH, essas estações também foram demolidas.

Contudo, antes de sucumbir por inteiro, o sistema de bondes em BH ainda veria a implantação de nova iniciativa modernizante pelo poder público municipal. Em 1947, a mais antiga estação da capital — a que ficava em frente ao Bar do Ponto — foi demolida para dar lugar a outra, mais ampla, que adotou a estética da curva. A nova estação foi construída logo em seguida, com projeto modernista do arquiteto mineiro Tarcísio Silva, formado pela Escola de Arquitetura de Belo Horizonte. Posteriormente, por seu valor histórico e arquitetônico, a estação foi poupada da extinção, pois foi tombada pelo patrimônio cultural do município. Atualmente abriga o Centro de Atendimento ao Turista, Sesc Mercado das Flores.

Nos trilhos da utopia
Em 30 de junho de 1963, os bondes circularam pela última vez na capital mineira, enterrando de vez a longa e fascinante trajetória desse meio de transporte. Lamentavelmente, pouco nos restou dessa época de ouro. Além da estação da Av. Afonso Pena com a R. da Bahia, temos apenas outro remanescente — um dos bondes da linha Padre Eustáquio —, que está exposto no pátio do Museu Histórico Abílio Barreto.
No entanto, temos que lembrar que as utopias nos movem para o futuro, ainda que no sentido de resgatar o nosso passado. Sendo assim, seria salutar imaginarmos que o bonde do museu voltasse aos trilhos urbanos e — parafraseando Rômulo Paes — tornasse a subir Bahia e descer Floresta. Na verdade, ampliando a utopia, poderíamos, a partir do bonde remanescente, fabricar uns quatro similares, distribuindo suas peças históricas entre os novos veículos. Para vislumbrarmos tal imaginação, a imagem simulada abaixo cumpre bem esse papel!












