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Rua dos Tamoios, 341: memória italiana em BH

18/10/2026 às 16h12
Três camadas arquitetônicas do terreno localizado na Rua dos Tamoios, n. 341. (Crédito: montagem / Ulisses Morato, 2026).

A presença da comunidade italiana em Belo Horizonte, desde os primórdios da cidade, se fez perceber tanto nos traços deixados por seus arquitetos na concepção e construção de inúmeros edifícios que pontuaram a paisagem urbana da capital, como em uma obra-símbolo do próprio grupo social. O endereço da antiga Sociedade Italiana de Beneficência e Mútuo Socorro, na Rua dos Tamoios, n. 341 — instituição de assistência, sociabilidade e organização dos imigrantes — passou por várias mutações arquitetônicas, e sua história constitui um registro da memória construtiva da cidade e da própria comunidade que a ergueu.

A primeira camada histórica desse local foi estabelecida em 1899, quando o arquiteto italiano Boschi Ettore projetou a edificação para a instituição. Sua fachada, em estilo eclético, se destacava pelo frontão ricamente ornamentado e pelo conjunto de estatuetas no coroamento. Se, por um lado, esse projeto se encontra no arquivos da Prefeitura de BH, por outro, não há registros que comprovem a efetiva construção do imóvel.

Simulação digital da fachada projetada em 1899 pelo arquiteto Boschi Ettore para a Sociedade Italiana de Beneficência e Mútuo Socorro. (Crédito: Fundação João Pinheiro / IA).

Depois, em 1915, a Prefeitura Municipal aprovou novo projeto para o terreno da Rua dos Tamoios, cujo arquiteto não foi identificado nos documentos. A fachada, também em estilo eclético, encontra correspondência em registros fotográficos antigos. Esse projeto previa uma área construída maior do que a do aprovado em 1899, e sua arquitetura também se destacava pela riqueza ornamental e pela presença de elementos referenciados no universo neoclássico, como o frontão triangular, as balaustradas, a rusticação e as aberturas com vergas em arcos plenos.

Edifício da Sociedade Italiana de Beneficência e Mútuo Socorro, construído segundo projeto aprovado em 1915. Foto do final da década de 1910. (Crédito: Arquivo Público Mineiro).

No entanto, as demandas por instalações mais amplas motivaram um projeto de modificação e acréscimo, assinado pelo arquiteto italiano Octaviano Lapertosa em 1920. Tal projeto preservou a volumetria anterior do edifício e criou duas alas laterais mais avançadas em relação à primeira. Lapertosa, em respeito à estética já estabelecida, replicou os elementos preexistentes nas alas acrescidas. Assim, a nova camada arquitetônica proposta em 1920 harmonizou-se com a composição preexistente.

O edifício da Rua dos Tamoios após as intervenções de ampliação projetadas em 1920 por Octaviano Lapertosa. (Crédito: Fondazione Alinari, década de 1930).

O último episódio das mutações do domínio italiano sobre o endereço da Rua dos Tamoios ocorreu na década de 1930, quando outro projeto, agora de feição art déco, deu as diretrizes para a construção da Casa d’Itália, muito maior que as versões anteriores e agora com dois pavimentos. No entanto, sua construção se efetivou às custas da demolição do prédio anterior, que foi um autêntico exemplar da arquitetura eclética dos primeiros anos da capital mineira.

Nessa época, muitos dos mais destacados arquitetos ligados ao estilo art déco em BH foram italianos ou ítalo-descendentes. Essa presença também se verificou na construção de um dos marcos dessa comunidade imigrante na cidade: a Casa d’Itália, cujo projeto, de 1935, foi assinado pelo italiano Raffaello Berti e pelo ítalo-descendente Luiz Signorelli.

Casa d’Itália, no final da década de 1930. Imóvel projetado em 1935 pelos arquitetos Raffaello Berti e Luiz Signorelli. (Crédito: cartão-postal / reprodução).

No entanto, esse edifício, ironicamente, tornou-se uma das “vítimas” da Segunda Guerra Mundial, conflito no qual o Brasil combateu a própria Itália em seu território. Em 1942, a Casa d’Itália foi alvo de ataques da população, que incluíram depredações e incêndios. Na sequência, o governo brasileiro confiscou o imóvel, que foi cedido à Assembleia Legislativa e, posteriormente, à Câmara Municipal de Belo Horizonte. Por fim, o edifício foi demolido em 1988 para dar lugar a um hotel.

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Ulisses Morato

Email: ulisses.phd@gmail.com

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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