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Uma demolição como marco de preservação do patrimônio em BH

17/04/2026 às 13h31 - Atualizado em 17/04/2026 às 17h18
O Conjunto Sulacap-Sulamérica (centro), notabilizado pelas torres gêmeas e pela praça frontal, em sua feição original, por volta dos anos 1950. (Crédito: detalhe de postal / reprodução colorizada).

Em 2024, Belo Horizonte, estigmatizada por incontáveis destruições que arrasaram boa parte de sua memória arquitetônica ao longo dos tempos, presenciou aquela que certamente foi a demolição mais emblemática da sua história: a do anexo “espúrio” do tradicional Conjunto Sulacap-Sulamérica, situado na Avenida Afonso Pena, n. 941/981, representando um marco para o nosso patrimônio cultural edificado.

Entre as duas torres do conjunto, projetado em 1941 pelo arquiteto italiano Roberto Capello, em estilo protomoderno, existia a Praça da Independência, que foi descaracterizada em 1972 por um “puxado”, denominado Novo Sulamérica, o qual desfigurou tanto a praça quanto o conjunto e ainda prejudicou imensamente o belo enquadramento do viaduto Santa Tereza e da Av. Assis Chateaubriand, que se tinha a partir daquela esplanada.

A Praça da Independência, em 1968, antes da construção do anexo aos edifícios Sulacap e Sulamérica, ao fundo. (Crédito: Fotos Antigas de BH / Reprodução).

A ironia do destino é que o próprio Sulacap-Sulamérica nasceu sobre os escombros da demolição da antiga sede dos Correios, uma exuberante obra em estilo eclético de influência neoclássica, projetada pelo arquiteto Francisco Izidro Monteiro. Mas o tempo passou, e as qualidades arquitetônicas e urbanas do conjunto foram reconhecidas pela municipalidade por meio de seu tombamento como patrimônio cultural, em 2015, quando já se recomendava a demolição do seu anexo.

O Conjunto Sulacap-Sulamérica em três momentos: nos anos 1950, em sua feição original; nos anos 1970, já com o anexo frontal; e, em 2025, após a demolição do “puxado”. (Crédito: Postal / Postal / Ulisses Morato).

Após longo período de lutas e pressões da sociedade para que a forma original do conjunto fosse recomposta, sobretudo por agentes envolvidos com a preservação do patrimônio arquitetônico de BH, as retroescavadeiras e marretas dos operários da Prefeitura Municipal finalmente iniciaram, em 27 de maio de 2024, a tão esperada demolição, que trouxe de volta a Praça da Independência em janeiro de 2025, rebatizada na sequência como Praça Fuad Noman.

As obras de demolição do anexo Novo Sulamérica, registro de novembro de 2024. (Crédito: Ulisses Morato).
Praça da Independência é inaugurada no Conjunto Sulacap Sulamérica (Pablo Nascimento/BHAZ)
Praça Fuad Noman (2025), em frente ao Conjunto Sulacap-Sulamérica. Ao fundo, entre as torres, avista-se o Viaduto Santa Tereza e a Av. Assis Chateaubriand. (Crédito: Pablo Nascimento/BHAZ).

Assim, pela primeira vez em seus 128 anos de existência, a cidade comemorou a destruição parcial de uma edificação, abrindo caminho, quem sabe, para que tantas outras construções de BH, outrora delineadas por grandes mestres da nossa arquitetura e desfiguradas por medonhos anexos, possam voltar ao seu esplendor estético original.

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Email: [email protected]

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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