O Desfile da Sucata

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Um século depois da Batalha das Toninhas, a Marinha Brasileira se supera com o Desfile da Sucata (Reprodução/Redes sociais)
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Dez de agosto poderia ter entrado para a história como a data da grande vitória de Bolsonaro. Seria o momento de reverter a queda nas pesquisas de opinião e consagrar-se como um líder inconteste.

Em seus planos, o dia começaria com uma imponente parada militar, que avançaria pelo Planalto Central mostrando todo o poder bélico da marinha brasileira.

O apoio popular às tropas e os comandantes das três armas circundando o presidente no alto da rampa de acesso ao Palácio do Planalto não deixariam margem para se questionar a autoridade presidencial.

Nesse cenário, a aprovação da PEC do Voto Impresso seria tranquila. Afinal, qual deputado iria contrariar o presidente que efetivamente conta com o apoio do povo e dos militares?

A ideia – percebe-se agora – não era a de uma ruptura institucional. O que os estrategistas do Planalto pretendiam era criar um simbolismo tão forte que tornaria inevitável a vitória da proposta do “voto impresso e auditável”.

Expectativa e Realidade

O desfile da marinha foi um retumbante fracasso. Sem nenhum engajamento popular, limitou-se a uma coluna de blindados sucateados, tão ultrapassados que chegam a dar dó. Uma triste evidência de que a falta de recursos cobra seu preço até nas Forças Armadas…

A armada, tão orgulhosa ao intitular-se a mais poderosa força naval do hemisfério sul, apenas reforça o antigo ditado de que, em terra de cego, quem tem olho é rei. Os blindados, envoltos na fumaça de óleo queimado, deixaram claro que o domínio dos mares no lado de baixo do equador não significa muita coisa.

O fiasco da manhã foi seguido por nova derrota de Bolsonaro à noite: a PEC do voto impresso foi sepultada pelo Congresso, mostrando a incapacidade do governo de articular uma votação de seu interesse. E há um aspecto que não pode ser esquecido: a derrota se deu depois do governo vender a alma ao Centrão.

A oposição poderia dar-se por satisfeita. O presidente foi publicamente humilhado, amargando duas grandes derrotas em um único dia.

Mas há uma ressalva a ser fazer: Bolsonaro perdeu duas batalhas, mas obteve ganhos significativos.

As vitórias do presidente

Três décadas após o fim da ditadura, conseguiu uma passeata militar para chamar de sua. Colocou os blindados na rua no mesmo dia em que teria uma votação importante e esteve acompanhado pelos comandantes das três forças.

Pode-se até questionar se haveria apoio militar a um eventual golpe, mas não se pode negar que os militares fazem questão de tornar mais nublado esse ponto ao se colocarem alegremente ao lado do presidente enquanto executam um exercício que se pretendia, também, intimidatório.

A PEC foi rejeitada pelo Congresso, mas teve mais votos favoráveis do que contrários à sua aprovação. E o número de deputados que traiu a orientação do partido é bastante significativo.

Isso evidencia não apenas a capacidade do Planalto de ainda seduzir os deputados, mas também a dificuldade de se avançar em um eventual procedimento de impedimento do presidente.

Finalmente, na mesma noite, aprovou-se uma minirreforma trabalhista, que reduz ainda mais a proteção social dispensada aos trabalhadores.

Em linhas gerais, legitimou-se a precarização do mercado de trabalho, dando ares de legalidade a práticas que atualmente são consideradas contrárias à legislação trabalhista.

O Desfile da Sucata

O saldo do dia 10 de agosto ainda precisará ser apurado, mas já se pode dizer que a oposição, que se alegrou com a vitória sobre o presidente, não apenas teve que engolir o malfadado desfile militar como tem motivos para redobrar sua desconfiança nas forças armadas.

Além disso, obteve menos votos do que pretendia na rejeição do voto impresso e viu caminhar no Congresso o projeto de lei que precariza ainda mais a situação dos trabalhadores. 

Se os ganhos e as perdas da presidência e da oposição ainda são questionáveis, já é possível indicar um inequívoco perdedor: a marinha brasileira. Um século e meio depois da Batalha de Riachuelo, sem novas façanhas para exibir, se expôs ao ridículo no Desfile da Sucata. Mais um, que se soma à sua anedótica participação na célebre Batalha das Toninhas…

Rodolpho Barreto Sampaio Júnior
Rodolpho Barreto Sampaio Júniorrodolpho.sampaiojr@gmail.com

Rodolpho Barreto Sampaio Júnior é doutor em direito civil, professor universitário, Diretor Científico da ABDC – Academia Brasileira de Direito Civil e associado ao IAMG – Instituto dos Advogados de Minas Gerais. Foi presidente da Comissão de Direito Civil da OAB/MG. Apresentador do podcast “O direito ao Avesso”.

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