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Ivermectina: ‘remédio milagroso’ ou risco mortal?

28/10/2025 às 18h23
Foto: UFSCAR

Nos últimos anos, a Ivermectina saltou das prateleiras de antiparasitários para o centro de debates fervorosos e, o que é mais preocupante, para o consumo desenfreado por parte da população. Promovida, equivocadamente, como uma espécie de “remédio milagroso” para uma vasta gama de doenças, a Ivermectina ganhou uma fama que não se sustenta na ciência.

É fundamental entender que: o uso inadequado e indiscriminado deste medicamento é perigoso e pode trazer sérias consequências para a saúde.

Os Usos Incorretos e a Ciência Distorcida

A Ivermectina é um medicamento antiparasitário estabelecido e eficaz, mas suas indicações aprovadas são restritas: tratar infestações por parasitas como Sarna (Escabiose), Piolhos (Pediculose) e certas Verminoses (Estrongiloidíase, Oncocercose).

No entanto, a desinformação disseminou o uso da Ivermectina para doenças que não são causadas por parasitas e para as quais não há evidência científica de eficácia. Os exemplos mais notórios incluem:

  1. COVID-19: O caso mais expressivo de uso errôneo. A ideia de que a Ivermectina funcionaria contra o SARS-CoV-2 surgiu de estudos iniciais, realizados em laboratório (in vitro –  em células de laboratório), onde a droga demonstrou capacidade de inibir a replicação viral em células. Contudo, para que este efeito se repetisse no corpo humano, seria necessária uma dose muito maior que àquela aprovada para o uso humano, de aproximadamente 35 vezes o permitido que é uma concentração altamente tóxica. Por isso, Organizações de saúde e agências regulatórias, como a ANVISA, são categóricas: não existem estudos clínicos robustos que comprovem que a Ivermectina seja eficaz ou segura para a prevenção ou tratamento da COVID-19).
  1. Dengue: Da mesma forma, houve boatos sobre a eficácia da Ivermectina contra o vírus da Dengue, em nenhum estudo científico relacionado. Assim como na COVID-19, o medicamento não possui indicação, e seu uso é desaconselhado. O Ministério da Saúde reforça que o tratamento da dengue é de suporte (hidratação e repouso) e na maioria dos casos a cura é espontânea
  1. Doenças Neurológicas (como Alzheimer): Circula por aí que a Ivermectina é aliada na prevenção e tratamento do Alzheimer. Embora existam pesquisas de laboratório explorando o medicamento, a Ivermectina não é um tratamento aprovado para doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Relatório da Fundação para descoberta de medicamentos contra o Alzheimer cita que a ivermectina pode modular os receptores de neurotransmissores, mas isso só pode ser alcançado com o uso de doses muito altas, o que também pode causar efeitos colaterais neurotóxicos. Não apresenta ampla atividade imunomoduladora em doses clinicamente seguras e sua administração em doses mais altas que as indicadas pode resultar em distúrbios visuais, sedação e outros efeitos colaterais neurológicos. Promover seu uso para essa finalidade é irresponsável e sem base clínica.
  1. Câncer: A Ivermectina também foi alardeada nas redes sociais como um tratamento “natural” ou alternativo contra diversos tipos de câncer. É verdade que estudos iniciais in vitro e em modelos animais têm investigado a Ivermectina por suas propriedades que poderiam, teoricamente, inibir o crescimento de células tumorais ou potencializar a quimioterapia. Entretanto, é fundamental ressaltar que não existe, até o momento, qualquer ensaio clínico robusto e conclusivo em humanos que demonstre que a Ivermectina seja segura ou eficaz para o tratamento de qualquer tipo de câncer. O Ministério da Saúde ( https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-com-ciencia/noticias/2024/julho/ivermectina-nao-deve-ser-usada-para-tratar-cancer ) e as agências reguladoras (como o NIH nos EUA) não recomendam seu uso para essa finalidade. Pacientes oncológicos que substituem tratamentos comprovados por esta medicação colocam suas vidas em risco iminente.

Os Riscos Reais da Dose Errada

A falsa sensação de segurança ou a busca por uma “cura fácil” levaram muitas pessoas a tomar a Ivermectina em doses elevadas ou por períodos prolongados, ignorando os perigos, que se intensificam quando se tenta alcançar o “nível curador” teórico:

  • Toxicidade Hepática (Fígado): O uso excessivo, especialmente as doses maciças sugeridas por alguns grupos, tem sido associado a casos graves de hepatite medicamentosa, podendo levar a danos irreversíveis e, em situações extremas, à necessidade de transplante de fígado.
  • Neurotoxicidade: Tentar atingir doses muito acima das aprovadas para uso humano aumenta drasticamente os riscos de toxicidade no sistema nervoso central. Isso pode resultar em tontura, confusão mental, problemas de coordenação, tremores e até convulsões.
  • Interação Medicamentosa: O medicamento pode interagir com outros fármacos, como anticoagulantes, aumentando os riscos de complicações sérias.

Atualmente, as estatísticas de intoxicação por ivermectina se baseiam principalmente nos dados do período pandêmico da COVID-19, quando houve um aumento significativo e global nos casos devido ao seu uso indevido para tratamento e prevenção da doença. Para se ter uma idéia antes da pandemia, em 2018, foram registrados 758 casos de intoxicação por ivermectina, já entre 2020 e 2021 foram 2670 casos, um aumento de 176%. 53 casos foram considerados graves e envolveram distúrbios neurológicos (11 casos, incluindo 1 encefalite, 1 coma e 1 morte), distúrbios respiratórios (8 casos, incluindo 2 mortes), distúrbios gastrointestinais (8 casos, incluindo 1 morte) e distúrbios cardíacos (5 casos, incluindo 2 mortes por parada cardíaca) (Reações adversas a medicamentos associadas ao uso de ivermectina para COVID-19 relatadas no banco de dados de farmacovigilância da Organização Mundial da Saúde ).

Quando Usar a Ivermectina?

A Ivermectina deve ser usada estritamente sob prescrição e orientação médica, e apenas para as indicações aprovadas na bula, que são as doenças parasitárias já citadas (sarna, piolhos e certas verminoses).

Em resumo: A Ivermectina é um medicamento valioso em seu contexto parasitário, mas está longe de ser um “remédio milagroso”. Não caia em desinformação. A dose que seria necessária para, teoricamente, ter um efeito benéfico é, na prática, uma dose tóxica para o ser humano. O caminho mais seguro para a saúde é sempre buscar a orientação de um profissional e basear suas decisões em evidências científicas sólidas.

Viviane Alves

Viviane Alves é bióloga, mestre em Ciências, com ênfase em Microbiologia pela Universidade Federal de Minas (UFMG), doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É professora adjunta do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, com atuação há 15 anos na instituição. Também é divulgadora científica.

Viviane Alves

Email: [email protected]

Professora da UFMG

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