Por aqui já falei sobre as doenças respiratórias que acompanham a chegada do outono e do inverno no Brasil. Refletimos sobre o papel da queda das temperaturas, do ar seco e da tendência de confinamento em ambientes fechados que favorecem a proliferação de microrganismos. Mas os dados epidemiológicos recém-divulgados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) trazem um alerta urgente sobre o avanço das internações graves provocadas pelo Vírus Sincicial Respiratório em Minas Gerais. Você sabe o que é? Enquanto a atenção se concentra no combate à gripe, o VSR avança silencioso no inverno de Minas Gerais, superlotando os hospitais.
Os números do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe revelam que, somente no primeiro semestre de 2026, Minas Gerais contabilizou mais de 21 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Embora o número total seja menor que o registrado no mesmo período do ano passado, os dados preocupam. Belo Horizonte teve mais de 39 mil atendimentos de SRAG nas UPAs e centros de saúde no início deste mês, que resultaram em 243 mortes por complicações graves.
Quase sempre os esforços das campanhas de vacinação em massa concentram-se no vírus da Influenza, isto é, na gripe. Mas o boletim epidemiológico da Fiocruz deixou transparente que enquanto o vírus Influenza atinge principalmente adultos e idosos acima de 60 anos, que concentra a maioria das fatalidades, o estrago pediátrico é massivamente provocado pelo Vírus Sincicial Respiratório, que afeta recém-nascidos e crianças menores de dois anos de idade.
O VSR na Primeira Infância
Para compreender a gravidade do que está acontecendo, é importante entender a biologia deste vírus. Em crianças maiores e adultos saudáveis, o vírus manifesta-se de forma branda, parecendo um resfriado comum, com sintomas restritos às vias aéreas superiores, como coriza, espirros e febre baixa. Mas na primeira infância, e em especial nos bebês abaixo de seis meses de vida, este microrganismo é muito mais agressivo.
O VSR possui afinidade pelo tecido respiratório dos bronquíolos, as ramificações mais finas dos pulmões. Ao se instalar nesses canais, o vírus provoca uma inflamação intensa, acompanhada de morte das células (necrose) e produção excessiva de muco (catarro). Em um adulto, um leve inchaço na parede dos brônquios do pulmão altera pouco a passagem do ar, mas nos bebês, o diâmetro do espaço interno dessas vias aéreas é de milímetros. E aí, o inchaço (edema) em combinação com o excesso de muco bloqueia quase completamente a passagem de ar, resultando na bronquiolite aguda.
Quando isso acontece o bebê precisa fazer um esforço imenso para conseguir ar e levar oxigênio para o sangue, causando fadiga rápida do diafragma, levando a complicações e até a morte.
Sinais de Alerta
Considerando que não existe um medicamento antiviral específico amplamente acessível para neutralizar a infecção do VSR, o tratamento baseia-se no suporte ventilatório, hidratação e monitoramento contínuo em ambiente hospitalar. Por isso, é importante identificar cedo os sinais de desconforto respiratório para evitar os casos graves.
Passar de um resfriado comum para um quadro de bronquiolite grave por VSR pode ser muito rápido. Então busque ajuda médica imediata ao notar os seguintes sinais:
- Costelinhas fundas ao respirar: A pele entre as costelas ou na parte de baixo do peito afunda bastante toda vez que o bebê puxa o ar, mostrando que ele está fazendo muito esforço para conseguir respirar.
- Respiração muito rápida e curta: O peito e a barriguinha do bebê sobem e descem muito depressa, sem pausa, como se a criança estivesse cansada ou tivesse acabado de correr.
- Narizinho abrindo e fechando: As narinas se dilatam e se movimentam bastante a cada respiração, numa tentativa do corpo de colocar mais ar para dentro.
- Dificuldade para mamar ou tomar líquidos: O bebê começa a mamar, mas precisa parar toda hora para tentar respirar; ou fica cansado demais para sugar e acaba recusando o peito, a mamadeira e a água.
- Chiado ou barulhinho no peito: Presença de um som parecido com um apito, chiado ou “chiando” no peito ao respirar, além de um tom de gemido rítmico enquanto a criança solta o ar.
- Moleza extrema e sono fora do normal: O bebê fica muito pálido, “molinho”, não reage aos brinquedos e estímulos ou dorme tanto que é até difícil acordá-lo.
- Lábios, língua ou pontas dos dedos arroxeadas: A mudança para uma cor azulada ou roxa nesses locais indica que a quantidade de oxigênio no sangue está perigosamente baixa, exigindo socorro médico imediato.
Prevenção
Na ausência de vacinação universal simples contra o VSR para todas as idades, a prevenção baseia-se em barreiras físicas e cuidados de comportamento:
- Higienização das mãos: a lavagem das mãos com água e sabão ou o uso de álcool em gel antes de manusear, pegar ou alimentar qualquer bebê de até dois anos.
- Restrições de visitas ao recém-nascido: durante os meses de alta de casos (outono/inverno), deve-se limitar o contato social de bebês pequenos, evitando a presença de pessoas com qualquer sintoma respiratório, mesmo que seja leve.
- Etiqueta respiratória e máscaras: adultos e crianças mais velhas que apresentem coriza, tosse ou dor de garganta devem ficar longe dos bebês ou utilizar obrigatoriamente máscaras (PFF2/N95) dentro de casa.
- Amamentação exclusiva e prolongada: o leite materno contém anticorpos e outro fatores que diminuem muito o risco de complicações e internações por infecções respiratórias.
- Ambientes ventilados: manter as janelas abertas para circulação contínua do ar.
A luta contra os surtos de doenças respiratórias no inverno não se resume à aplicação de vacinas nos postos. Ela exige uma reeducação coletiva com foco no diagnóstico precoce e na prevenção.
Para saber mais, acessse a cartilha do Ministério da Saúde. Saiba mais
Vacinas para gestantes
A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) reforça a convocação para as gestantes recebam a vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), principal causador da bronquiolite em recém-nascidos. O imunizante é aplicado em dose única, com recomendação de nova imunização a cada gestação, e está disponível nos 153 centros de saúde, no Serviço de Atenção à Saúde do Viajante e em postos extras. Os endereços podem ser verificados on-line.
A vacinação deve ser aplicada em gestantes a partir da 28ª semana de gravidez, em dose única a cada gestação. Para receber a vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), é necessário apresentar um documento que comprove a idade gestacional, como cartão da gestante, cartão de pré-natal, exames ou relatórios médicos, ou de outro profissional de saúde de nível superior. Também é preciso apresentar documento de identificação com foto e a caderneta de vacinação.
VRS e bronquiolite
O VSR é o principal causador da bronquiolite em recém-nascidos. A doença é causada principalmente por infecções virais. No entanto, outros vírus respiratórios também podem desencadeá-la, como adenovírus, vírus parainfluenza, vírus influenza, rinovírus, entre outros.
Em 2025, das 3.417 solicitações de internação pela doença nos hospitais da rede SUS-BH, 2.438 foram de crianças menores de 1 ano, o que corresponde a 71,3%.
As vacinas são adquiridas pelo Ministério da Saúde, que também define o público a ser vacinado. Já a distribuição para os municípios é feita pela Secretaria de Estado da Saúde, e cabe à Secretaria Municipal de Saúde a aplicação das doses.










