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Sono e saúde mental: o cuidado essencial que quase sempre negligenciamos

17/08/2026 às 08h44 - Atualizado em 17/08/2026 às 08h51
(Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Quantas vezes você já trocou algumas horas de sono para terminar um trabalho, assistir a mais um episódio de uma série, ficar no celular ou simplesmente tentar dar conta de tudo o que não coube no dia? Em uma rotina que valoriza produtividade, disponibilidade e rapidez, dormir muitas vezes é tratado como tempo perdido. Mas o sono está longe de ser um período em que o organismo simplesmente “desliga”: enquanto dormimos, corpo e cérebro continuam trabalhando intensamente para manter nosso equilíbrio e preparar-nos para o dia seguinte.

Dormir é uma necessidade biológica tão fundamental quanto alimentar-se e respirar. Durante o sono, passamos por diferentes estágios que se alternam ao longo da noite e participam de diferentes processos de restauração e organização do organismo. Nesse período, ocorrem processos importantes para a consolidação das memórias, a aprendizagem e a manutenção da saúde cerebral. Estudos apontam que a privação crônica de sono pode comprometer atenção, concentração, memória, raciocínio e desempenho funcional, além de produzir repercussões emocionais e físicas.

E talvez esteja justamente aí um dos principais equívocos sobre o assunto: costumamos separar aquilo que acontece com a mente daquilo que acontece com o corpo. Com o sono, essa divisão faz ainda menos sentido. Dormir mal não afeta apenas o humor ou a disposição na manhã seguinte. A deficiência de sono está relacionada a alterações metabólicas e cardiovasculares e, quando persistente, associa-se a maior risco de hipertensão, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde. O sono também participa da regulação hormonal, metabólica e imunológica do organismo.

Da mesma forma, aquilo que acontece no corpo repercute sobre nossa experiência psicológica. Depois de uma noite ruim, é comum percebermos maior irritabilidade, dificuldade de concentração, impaciência ou menor capacidade de lidar com problemas que, em outro momento, pareceriam administráveis. Isso acontece porque a privação de sono modifica o funcionamento de áreas cerebrais envolvidas na tomada de decisões, no controle do comportamento e na regulação das emoções. Estudos também mostram que a perda de sono tende a aumentar emoções negativas e comprometer nossa capacidade de regulá-las.

Sono e saúde mental, portanto, mantêm uma relação de mão dupla. Ansiedade, depressão, estresse e outros sofrimentos psíquicos podem dificultar o início ou a manutenção do sono. Ao mesmo tempo, noites repetidamente ruins podem aumentar a vulnerabilidade emocional e contribuir para a manutenção ou agravamento desses quadros. Pesquisas apontam, por exemplo, uma relação bidirecional entre alterações do sono, ansiedade e depressão. Não significa que dormir pouco, isoladamente, produzirá necessariamente um transtorno mental, mas significa que o sono merece ser observado como parte importante tanto da prevenção quanto do cuidado em saúde mental.

A memória também depende desse descanso. Enquanto estamos acordados, recebemos uma quantidade enorme de informações, estímulos, conversas, imagens e experiências. Durante o sono, o cérebro participa da organização e consolidação daquilo que aprendemos. Por isso, passar a madrugada estudando pode produzir justamente o efeito contrário ao desejado: mais horas diante do conteúdo não significam necessariamente melhor aprendizagem quando o cérebro está privado do período necessário para processar e estabilizar aquelas informações. 

Outro ponto importante é nosso relógio biológico. O organismo possui ritmos circadianos que ajudam a organizar sono e vigília ao longo de aproximadamente 24 horas e respondem a sinais ambientais, especialmente à presença ou ausência de luz. A exposição à luz artificial durante a noite e o uso prolongado de celulares, computadores e outros dispositivos podem interferir nesse processo e dificultar a preparação fisiológica para dormir. Por isso, aquela última olhadinha no celular que se transforma em quarenta minutos rolando a tela pode ter consequências que vão muito além do tempo que deixamos de dormir.

Também precisamos abandonar a ideia de que existe mérito em sobreviver dormindo pouco. Para adultos, recomenda-se de modo geral pelo menos sete horas de sono por noite, embora as necessidades variem conforme a idade e características individuais. Mais importante do que perseguir mecanicamente determinado número de horas é observar também a qualidade, a regularidade e o impacto do sono durante o dia. Dormir por muitas horas, mas acordar repetidamente, levantar cansado ou passar o dia lutando contra a sonolência também pode indicar que algo não está funcionando bem.

Cuidar do sono envolve hábitos aparentemente simples, mas que precisam encontrar espaço real na rotina: procurar manter horários relativamente regulares para dormir e acordar; reduzir a exposição às telas e à luz intensa próximo ao horário de dormir; evitar cafeína no final do dia; não utilizar bebidas alcoólicas como estratégia para induzir o sono; manter atividade física regular e criar um ambiente mais escuro, silencioso e confortável para dormir. Não se trata de transformar o sono em mais uma obrigação a ser cumprida perfeitamente, mas de criar condições para que nosso organismo faça aquilo que biologicamente precisa fazer.

E há situações em que apenas mudar os hábitos não é suficiente. Dificuldade persistente para adormecer, despertares frequentes durante a noite, acordar muito antes do horário desejado, sonolência excessiva durante o dia ou a sensação constante de que o sono nunca é reparador merecem atenção. Problemas de sono podem estar relacionados tanto a condições físicas quanto emocionais e, quando recorrentes, devem ser avaliados por profissionais de saúde.

Talvez uma mudança importante seja começar a enxergar o sono não como aquilo que fazemos depois que todas as outras prioridades foram atendidas, mas como uma das condições necessárias para conseguirmos cuidar de todas elas. Não existe saúde mental separada do corpo que sustenta nossas emoções, pensamentos e relações. Dormir bem não resolve sozinho todos os nossos problemas, mas negligenciar continuamente o sono cobra um preço do organismo inteiro.

Se você percebe que seu sono tem sido ruim por um período prolongado e isso começa a interferir em seu humor, disposição, memória, concentração, trabalho ou relacionamentos, talvez seja um bom momento para buscar ajuda.

Com afeto,

Letícia Faleiro | CRP-MG 04/33265
Professora e Psicóloga Clínica

Letícia Faleiro

Letícia Faleiro é psicóloga graduada e mestra em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em Psicologia Clínica Existencial e Gestáltica e pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas. Ela atua como psicóloga clínica há mais de 15 anos, é professora universitária e cofundadora do Instituto Florere. Tem ainda formação continuada na abordagem fenomenológica em intervenções em crise, lutos atípicos, teoria do apego e psicofarmacologia.

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