Um Conto de Natal

conto de natal
(IMAGEM ILUSTRATIVA/Envato + Arquivo pessoal)
coluna colunista

A incivilidade parece ter se tornado a regra nas redes sociais. Escreve-se o que poucas pessoas teriam coragem de falar vis-à-vis.

O destempero, a falta de polidez, as ameaças e as agressões tornaram tóxicas as redes sociais e não são incomuns os relatos de pessoas que se retiraram de grupos, que fecharam seus perfis ou que bloquearam conhecidos por conta de excessos em suas postagens.

E nem se atribua tal fato exclusivamente à polarização que há quase uma década é característica de nossa vida política. A descortesia ultrapassa os limites da política e permeia todas as relações sociais: e não há maiores exageros nessa afirmação.

A solidariedade, a empatia, a tolerância e a bondade parecem virtudes esquecidas. Felizmente, ainda estão presentes. E muito presentes!

Há alguns dias, meu gatinho saiu de casa. Foi sua primeira incursão pela vizinhança e não sabemos quando saiu e nem mesmo como saiu. Apenas sentimos a sua ausência.

Mais do que rapidamente, descobrimos que os laços comunitários podem ser muito fortes: vizinhos compartilham informações, amigos e conhecidos repostam os pedidos de ajuda que veiculamos nas mais diversas redes sociais, comerciantes são muito solícitos ao colocarem cartazes em suas vitrines e pessoas totalmente desconhecidas se empenham em dar informações.

Não foram poucas as vezes em que completos desconhecidos mandaram mensagens informando que tinham avistado um gato branco em determinada rua. E também não foram poucas as mensagens que recebi procurando notícias do bichano e desejando sucesso em nossa busca.

Pode ser que o espírito de Natal tenha deixado as pessoas mais sensíveis e bondosas, pode ser que as pessoas se sintam especialmente pesarosas pensando em um bichinho perdido vagando pelas ruas ou pode ser que a maioria das pessoas cultive as virtudes que tornaram possível o convívio social, sendo o discurso de ódio apenas uma parte excessivamente visível das manifestações sociais.

Como quer que seja, a busca pelo gatinho perdido revelou um aspecto do convívio social que se considerava, senão perdido, obscurecido pela intolerância.

Essa é uma boa notícia no final do ano. O gatinho talvez não volte, mas a redescoberta de que as pessoas se importam é especialmente reconfortante e traz forças para enfrentarmos um ano que se anuncia particularmente difícil.

Rodolpho Barreto Sampaio Júniorrodolpho.sampaiojr@gmail.com

Rodolpho Barreto Sampaio Júnior é doutor em direito civil, professor universitário, Diretor Científico da ABDC – Academia Brasileira de Direito Civil e associado ao IAMG – Instituto dos Advogados de Minas Gerais. Foi presidente da Comissão de Direito Civil da OAB/MG. Apresentador do podcast “O direito ao Avesso”.

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