Estamos, mais um ano, falando o óbvio. E o óbvio é que a segurança pública continua tratando o feminicídio como uma fatalidade inevitável, quando os números mostram uma falha sistêmica que só favorece agressores de mulheres e desencoraja a ocupação feminina do espaço urbano. O cenário é inaceitável: o Brasil registrou 1.470 feminicídios no último ano, o maior número desde que a lei que tipifica o crime foi sancionada em 2015 e um crescimento de mais de 360%. Minas Gerais é o segundo estado que mais registrou casos de feminicídio, ficando atrás apenas de São Paulo.
Aos autores dessa violência brutal, clamo para que recebam penas mais rígidas, cumprimento rigoroso das medidas protetivas e o fim de qualquer brecha para saídas temporárias. Mas é mais que urgente prevenir e evitar casos de feminicídio com ações cotidianas voltadas para a segurança de meninas e mulheres, que beneficiam toda a sociedade. Cerca de 70% das mulheres brasileiras já deixaram de sair de casa à noite ou mudaram seus trajetos por medo de ruas mal iluminadas; Embora o ambiente doméstico seja o mais perigoso, a via pública é o segundo local onde mais ocorrem feminicídios no Brasil, respondendo por 19,2% dos casos. Então, por que mesmo diante de números tão alarmantes, ainda lidamos com uma inércia que priva parte das nossas mulheres de existirem pela cidade à noite?
No último domingo, Dia Internacional da Mulher (8/3), fomos às ruas para ouvir das belo-horizontinas qual o local em que elas se sentem mais inseguras, e a resposta foi unânime: o Centro da cidade, a falta de iluminação em pontos de ônibus e falta de policiamento noturno foram as principais queixas. A manifestante Júlia Greco, por exemplo, relatou à coluna que teme andar nas ruas até mesmo durante o dia, e que em um trajeto a pé de 10 minutos, já chegou a ser abordada por cinco homens diferentes. Para Sofia Vieira, também participante da manifestação do 8 de Maio, o local mais inseguro de BH é a avenida Afonso Pena.
Essas respostas não estão desconectadas da realidade no restante do país. Segundo pesquisa do Senado Federal, entre as mulheres que se deslocam diariamente, a iluminação pública é a principal demanda para garantir a integridade física. Além disso, 7 em cada 10 mulheres relatam já ter sofrido assédio em ruas e espaços públicos. Esse número sobe para 76% entre jovens de 16 a 24 anos, que são as que mais utilizam o transporte público em linhas periféricas.
Nesse mês da mulher o que precisamos é de ação, não dá mais para esperar o pior acontecer e lamentar repetidas tragédias evitáveis. Nossas mulheres tem urgência pela segurança, pela justiça, pelo direito ao espaço público sem ter a vida ceifada e o corpo violado. Sou vereador, mas também sou filho, irmão, esposo, pai de três filhas e avô de uma menina. Quero que elas andem nas ruas sem olhar para trás a cada passo e com a certeza de que o Estado não é omisso. Que o direito de ir e vir, tão básico para nós homens, seja também uma realidade prática delas.
Para cada uma das respostas que tivemos, pedimos aos órgãos competentes por mais iluminação, mais profissionais da segurança pública e, acima de tudo, um olhar atento às necessidades de quem só pede pelo direito de existir em igualdade. Que façamos todas as homenagens, mas creio eu que o melhor presente é fazer o nosso papel enquanto homens, enquanto Poder Público e, principalmente, enquanto cidadãos.









