Eu venho de uma família humilde, nasci, cresci e vivo no bairro Céu Azul, na regional Venda Nova. Cerca de 17km separam meus vizinhos, amigos e familiares do centro da cidade, local onde muitos estudam, trabalham e se deslocam diariamente para construir uma vida melhor. Morar fora do entorno da Avenida do Contorno pode não ser uma escolha, mas ser humilhado dia após dia pelo sistema de transporte público, ficar duas horas em pé num ônibus sem estrutura, não deveria ser uma opção; gastar 20% da própria renda para isso também não. Esse é o reflexo de uma cidade que nunca priorizou o transporte público.
Se a especulação imobiliária na região central impede as pessoas de morarem perto dos grandes centros econômicos, a tarifa cara no transporte público confirma o lugar que querem destinar a quem não tem dinheiro para bancar. É esse sistema que mantém as pessoas mais pobres distantes.
Por essa e tantas outras razões, me comprometi com a Tarifa Zero em Belo Horizonte na minha campanha para vereador. Agora eleito, suportei as pressões externas e votei sim no plenário na última sexta-feira (3/10). Este é o meu compromisso com quem me elegeu e com a cidade; sou servo da minha palavra, e isso não tem volta.
Durante a tramitação do Projeto de Lei 60/25, o que mais ouvi dos opositores ao texto foi: “quem vai pagar a conta?”. Essa resposta já foi dada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a 5ª melhor universidade da América Latina e entre as 600 melhores do mundo. O Tarifa Zero nunca foi uma aventura ou utopia progressista; é uma solução viável e, até então, a única alternativa possível para reverter as barbáries causadas por um contrato bilionário celebrado entre a Prefeitura e as concessionárias do ramo em 2008, com duração de 20 anos. O projeto Busão 0800 é tão bem fundamentado por estudos e pesquisas que, até agora, ninguém apresentou um contraponto que o inviabilize.
Não há nada mais urgente a ser discutido na Câmara do que mobilidade urbana. Afinal, entre 2011 e 2023, nossa cidade perdeu 42% dos usuários de ônibus, e 66% da população diz estar insatisfeita com o sistema. Para o Instituto Viva Voz, 42,3% das pessoas apontam o transporte público como o maior problema da cidade. Já existe uma comissão especial de estudo do contrato de ônibus; então, por que não debater o tema com a atenção e seriedade que ele merece?
Somente neste ano, o Executivo desembolsou mais de R$ 800 milhões em subsídio para as empresas concessionárias, sob a justificativa de impedir que o valor da tarifa, hoje em R$ 5,75, fique ainda mais caro. Para mim, esse é um sintoma do quanto o contrato deu errado para BH. Quem paga por isso é a população, e o faz duas vezes: nos impostos arrecadados pelo município e no ato do embarque no ônibus.
Por que não redistribuir essa conta? O texto previa que os empregadores passariam a pagar uma Taxa de Transporte Público (TTP), destinada ao Fundo Municipal de Melhoria da Qualidade e Subsídio ao Transporte Coletivo (FSTC), instituído pelo Plano Diretor, com isenção até o nono funcionário. A partir do décimo, a cobrança consideraria diferentes faixas: empresas com 20 empregados contribuiriam por 11; empresas com 30, por 19, e assim sucessivamente. Em todos os casos, os cálculos apresentados no PL estimam um custo médio mensal de R$ 168,82 por trabalhador, sem desconto na folha de pagamento. Quem utiliza o sistema sabe que esse valor é inferior ao vale-transporte que já é pago.
Quem sabe, assim, não teríamos que ouvir de mães de família que não puderam levar os filhos ao posto de saúde por falta de dinheiro para a passagem. Não teríamos que ver um estudante ter que escolher se come na faculdade ou se volta para casa de ônibus. Não teríamos que olhar nos olhos de uma juventude que não consegue acreditar que a política pode, sim, fazer alguma coisa por ela. E definitivamente pode.
Que o plenário Aminthas de Barros, palco de decisões históricas para BH, não seja novamente tomado pelo olhar de decepção de cada cidadão que se dispôs a ir até lá, pagando passagem, para lutar pelo direito de ocupar a própria cidade com equidade. Aqui, deixo meus parabéns à garra dessa mobilização e um recado esperançoso de que a política com trabalho, coragem e propósito vale a pena.
Nós não retrocederemos. Tarifa Zero já!









