BHAZ

Atlas Afetivo de Beagá — Histórias que desenham a cidade

ATLAS
AFETIVO
DE

Histórias que
desenham a cidade

BEAGÁ

Empreendedores transformam memória, cultura e território em narrativas sobre Belo Horizonte

Livro aberto

Epígrafe

"A vocês eu conto, se é que ainda não sabem: Belo Horizonte é o rincão que eu pedi a Deus. É a minha roça. É o caminho de minha roça. É minha aldeia. É minha cidade. É a capital de Minas. É a capital do mundo. É meu mundo."

Roberto Drummond

COMPARTILHAR

Introdução

Você sabia que o Mercado Central já foi um campo de futebol?

E que o trapalhão Zacarias teve aula de pintura com o Guignard no Parque Municipal? Que o Lô Borges conheceu o Milton Nascimento num dia que escorregava no corrimão do prédio para comprar pão e leite? Talvez ainda não tenha ouvido sobre uma mulher que habitava Belo Horizonte antes mesmo da capital planejada sair do papel e que, por se recusar a deixar a casa, teria passado a assombrar o Palácio da Liberdade. Era a Maria do Arraial (ou Maria Papuda como pejorativamente a chamavam).

Foi de olho nessas e centenas de outras histórias representativas da jovem centenária cidade que alguns de seus moradores com pensamento empreendedor decidiram criar walking tours, caminhadas a pé, que exploram locais por vezes desconhecidos e que revelam muitas curiosidades sobre diferentes figuras e acontecimentos de BH. Por horas, os participantes passeiam por vários bairros na companhia de um especialista capaz de contar detalhes que despertam o interesse do turista.

Do Clube da Esquina, movimento da segunda metade do século 20 que bebia na água dos Beatles em meio às montanhas da Serra do Curral, às lendas urbanas da cidade, passando pelos anos de formação de América, Atlético e Cruzeiro, muito antes da profissionalização dos clubes, esses empreendedores criaram comunidades de pessoas interessadas pela história de Belo Horizonte, cada uma com um foco específico.

Ulisses revela os pormenores da arquitetura de BH e o contexto da época de cada edificação. Marcelina passeia por cada lápide do cemitério do Bonfim e destaca o melhor da vida de quem hoje está sepultado no local. Virgínia conta sobre os momentos marcantes do Clube da Esquina: as letras, as melodias, as parcerias e o que está por trás de cada verso. Rafael explora temas que vão da literatura à gastronomia (e já foi premiado por isso). E os personagens pretos, muitas vezes apagados das histórias contadas sob a ótica branca, são revisitados num tour organizado pelo Guia Negro.

Em comum entre quase todos, o empreendedorismo dos contadores da história de BH tem início nas redes sociais, com a criação de páginas no Instagram. Mas fazem um dos movimentos mais complexos para quem atua no ambiente digital: se transpõe do universo online para fortalecer o projeto no offline, criando comunidades formadas por pessoas com um interesse em comum.

Todas essas histórias estão registradas em algum lugar. Seja em livros, jornais e revistas antigas, em documentos históricos ou mesmo na memória dos mais velhos. Umas mais organizadas, outras dispersas, necessitando mais de uma checagem ou de complemento de outra fonte, é verdade.

"É um movimento extremamente interessante. São pessoas que estudam, conhecem e reconhecem e valorizam os pormenores da cidade. Uma forma de empreendedorismo muito legal porque as pessoas utilizam dessas informações para empreender e criar seus negócios e serviços", avalia o analista de Negócios do Sebrae Minas, Renato Lana.

Mais do que um negócio capaz de impactar os ganhos dos seus idealizadores, a iniciativa pode representar um passo importante que contribui para o desenvolvimento do turismo, no "melhor momento do estado", segundo Renato Lana.

"Para o empreendedor, até para ele internacionalizar seu produto ou serviço, ele precisa ter um mercado já acontecendo, entender o fluxo, o perfil das pessoas. Isso serve como uma renda imediata e uma preparação para receber pessoas de outros mercados", afirma o analista de Negócios do Sebrae Minas.

O especialista categoriza essa como uma atividade da "porta pra dentro", onde os participantes, muitas vezes moradores da própria cidade, não vão usufruir da rede de turismo como um todo, deixando de lado hotéis e agências, mas contribuem para valorizar e divulgar esses serviços para interessados de fora de BH.

Nas próximas páginas dessa reportagem, o BHAZ conta a história de cinco projetos desenvolvidos para manter viva a memória de alguma página do livro de Belo Horizonte. São quatro empreendedores e uma pesquisadora que com seus projetos e empresas se tornaram responsáveis por recontar as histórias da cidade.

01

Capítulo 01

Guia Negro

Redescobrir a cidade pelos olhos negros

"A gente percebe que a pessoa está indo pela décima vez na Praça da Liberdade e aí passa a ver a cidade dela por um outro olhar."

— Guilherme Soares Dias, fundador do Guia Negro

Walking Tour História Negra Afroturismo BH

Em 2019, o jornalista Guilherme Soares Dias saiu de São Paulo para passar um final de semana em Belo Horizonte. Então decidiu perguntar a conhecidos dicas do que fazer na capital mineira que remetesse à história negra.

A resposta foi sempre a mesma: 'nao tem nada, BH foi muito embranquecida, mas tem uma imagem de iemanja na Pampulha, mas tem um samba embaixo do viaduto Santa Tereza uma vez por mes'. Depois do mas vinha uma dica. Em dois dias que passou na cidade, nao foi capaz de conhecer tudo.

02

Capítulo 02

Arquitetos de BH

O patrimônio edificado da capital mineira

"Estou redescobrindo Belo Horizonte pelos passeios. O nosso conhecimento era livresco — era muito mais enriquecedor vir aqui."

— Paulo Tadeu, professor de arquitetura

Arquitetura Patrimônio Walking Tour Ecletismo

Com uma boina estilosa e microfone ao estilo Xuxa para deixar as mãos totalmente livres para apontar para cada detalhe enquanto narra, Ulisses caminha num sábado de manhã por ruas próximas à Praça da Liberdade seguido por 17 pessoas. O grupo tem advogada, enfermeira, profissional de TI e arquiteto.

Eles param na esquina de João Pinheiro e Aimorés, em frente a um casarão de estilo eclético projetado no penúltimo ano do século 19 pelo arquiteto João Pinto Ribeiro para ser residência daquele que seria presidente de Minas Gerais e da República — Afonso Pena.

03

Capítulo 03

Roteiros que contam Histórias

Caminhadas que revelam as memórias de Belo Horizonte

"Muita coisa está dita e não está ao acesso da IA. São histórias que as pessoas não sabem — mesmo coisas básicas."

— Rafael Câmara, jornalista e criador do BH a Pé

Literatura Gastronomia Futebol Lendas Urbanas

Em dezembro de 2020, a pandemia de covid-19 estava em seu auge. Nesse cenário, a jornalista Luísa Dalcin levou uma ideia ao marido, o também jornalista Rafael Câmara: que tal criar um projeto voltado a contar as histórias de Belo Horizonte para os próprios belo-horizontinos? Nascia ali o BH a Pé!

O primeiro roteiro ganharia o nome de Páginas Viradas, uma caminhada dedicada a falar sobre as vivências de Cyro dos Anjos, Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros nomes ligados à literatura mineira e brasileira.

04

Capítulo 04

Clube da Esquina

A jardineira e o som que nasceu em BH

"Chegando da aula, entrei no quarto e ele estava deitado na minha cama. À noite a gente já era super amigo, indo a cinemas juntos e noitadas no Maletta."

— Márcio Borges, sobre o dia em que conheceu Milton Nascimento

Música MPB Turismo Cultural Milton Nascimento

Uma jardineira da década de 50 estaciona ao lado da Praça da Liberdade, um músico empunha um violão e solta a voz para cantar clássicos do Clube da Esquina. É a primeira parada do tour organizado em homenagem ao principal movimento musical de Minas Gerais, do qual fazem parte Milton Nascimento, Lô e os irmãos Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta, Fernando Brant, Flávio Venturini e outros mais.

Dali, o grupo segue em direção a pontos icônicos por onde os amigos passaram ao longo da juventude para compor letras marcantes da MPB. Edifícios Levy e Maletta, Viaduto Santa Tereza, a casa da família Borges e, claro, a esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis.

05

Capítulo 05

Cemitério Bonfim

Memórias e lendas de um arquivo urbano

"Para mim, o cemitério do Bonfim é uma sala de aula. Sou uma doutrinadora — quero mais pessoas enxergando o cemitério como lugar de pesquisa e de lazer."

— Marcelina Almeida, historiadora

História Patrimônio Lendas Pesquisa

Ao visitar Buenos Aires, ir ao cemitério da Recoleta é quase uma obrigação. Em Paris, o cemitério do Père-Lachaise é ponto turístico. Em Belo Horizonte, o cemitério do Bonfim, anterior à fundação da capital, também guarda esse papel de arquivo urbano — e foi de olho nisso que a professora Marcelina Almeida criou um projeto de visitação ao espaço.

Inicialmente, a cada semestre a historiadora levava seus alunos para conhecer o cemitério como forma de pesquisa. A lista incluía o túmulo de Leodegária de Jesus, escritora contemporânea e amiga de Cora Coralina, e o de Roberto Batata, craque do Cruzeiro nos anos 70 que morreu em acidente meses antes do time ser campeão da Libertadores.