Com uma boina estilosa e microfone ao estilo Xuxa para deixar as mãos totalmente livres para apontar para cada detalhe enquanto narra, Ulisses caminha num sábado de manhã por ruas próximas à Praça da Liberdade seguido por 17 pessoas. O grupo tem advogada, enfermeira, profissional de TI e arquiteto.
Eles param na esquina de João Pinheiro e Aimorés, em frente a um casarão de estilo eclético projetado no penúltimo ano do século 19 pelo arquiteto João Pinto Ribeiro para ser residência daquele que seria presidente de Minas Gerais e da República - Afonso Pena. Vinte e sete anos depois, o imóvel seria transferido para o Grupo Escolar Afonso Pena, e exatamente um século depois segue sendo uma escola pública.
A passos dali está um outro casarão, este em estilo eclético, que foi erguido para abrigar outro político mineiro destacado: o também presidente da República Artur Bernardes.
Em meio ao detalhamento de pontos que simbolizam cada estilo arquitetônico - como a presença de gradis e varandas da primeira fase do ecletismo - o professor de arquitetura Ulisses Morato contextualiza os acontecimentos de cada período em que os imóveis foram construídos.
"É um trecho da cidade que representava epicentro do poder político nacional, configurada pelo Café com Leite", pontua em menção à política das primeiras décadas do século 20 onde Minas Gerais e São Paulo, os dois estados mais poderosos da República, revezavam os políticos à frente da cadeira presidencial. E diz mais: "Não à toa, [estão aqui] as casas de dois presidentes e do filho de um presidente, isso ao lado da Praça da Liberdade", afirma o criador do passeio arquitetônico, reforçando que o tour não busca avaliar questões técnicas relacionadas ao tema central, mas mistura literatura, artes, história e afins.
Formado em arquitetura na UFMG e com doutorado pela Universidade de Lisboa, foi em Portugal que Ulisses vislumbrou a possibilidade de transformar a paixão pela cultura arquitetônica num projeto que valorizasse o patrimônio cultural. Era a semente que o empreendedor precisava para germinar em Beagá algo que conservasse a memória das construções da capital mineira.
"[O projeto se baseia] muito da vivência que tive em Portugal em relação ao olhar para o patrimônio cultural, para o patrimônio edificado", ressaltando o outro olhar que os portugueses têm em relação à arquitetura da cidade e como essa vivência europeia contribuiu para inspirá-lo para formatar o novo projeto.
Os primeiros passos do novo projeto foram dados com a criação de um perfil no Instagram dedicado ao tema. Nascia o Arquitetos de BH. Os posts já juntaram 20 mil seguidores e, a partir deles, surgiram iniciativas que mudaram o rumo da carreira do arquiteto-empreendedor.
Além das caminhadas pela cidade, com a repercussão, Ulisses passou a organizar cursos livres para aprofundar em temas de interesse dos mais afeitos por arquitetura, foi convidado para ministrar palestras e também para ser curador de exposições. Há um ano, o arquiteto assina uma coluna no portal BHAZ e todo esse conhecimento já foi reunido em livro. E vem outras iniciativas por aí.
Todas as iniciativas reunidas viraram o "ganha pão" do arquiteto, que também dá aula na pós-graduação da PUC Minas.
"Eu gosto muito de ver os prédios mais antigos, conhecer a história da cidade", afirma a desenvolvedora de sistemas, Bárbara Perdigão, de 35 anos, e uma das participantes de uma caminhada do professor que conta a história de casarões que vão da Igreja da Boa Viagem à Rua da Bahia, passando pela Praça da Liberdade.
Nascida no interior de Minas Gerais, ela já havia morado em BH e retornou à cidade há cerca de um ano. Curiosa, Bárbara se diz leiga em arquitetura, mas, após já ter participado de alguns tours com Ulisses, já consegue apontar para um prédio aqui e outro ali e indicar qual seu estilo arquitetônico. Mas mais que isso: "a gente exercita o olhar para o que está à volta na cidade. A gente passa pelos prédios e não dá tanta atenção, fazendo essas caminhadas elas despertam o interesse e o olhar pela cidade", diz Bárbara.
A busca por conhecimento e o encantamento pela arquitetura levam a desenvolvedora de sistemas a participar dos passeios, mas e um professor de arquitetura, o que o leva a gastar as horas de sábado caminhando pelas ruas de Belo Horizonte para ouvir um colega falar sobre o tema? A resposta óbvia estaria na humildade socrática de dizer que conhecimento nunca é demais e sempre temos mais a aprender.
Mas Paulo Tadeu Leite Arantes vai além: "Posso resumir em uma palavra: paixão. Gostar é muito pouco, por tudo o que está envolta, não só a arquitetura quando se fala de projeto, de casa, mas também o contexto urbano, a cidade, que é a maior invenção do homem".
Aos 72 anos, a paixão pelo tema o faz chorar durante a caminhada ao vir à tona o centenário da Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde ele lecionou por décadas para o curso de arquitetura e urbanismo do qual é o criador.
Doutor na área, Paulo é um dos participantes dos tours a contribuir com a aula de Ulisses ao longo das horas de caminhada. No casarão onde residiu o presidente Artur Bernardes, ele recorda que o político nasceu em Viçosa e revive a sua ligação com a cidade.
O professor esteve em praticamente todos os 11 roteiros elaborados pelo colega de profissão, antecipa que irá repetir alguns e analisa a importância daquele conhecimento para uma pessoa com a mesma formação. "O curso de arquitetura é muito distante da realidade local. Para se ter uma ideia, como aluno, eu nunca fiz um passeio pela Praça da Liberdade, sendo que a Escola de Arquitetura está duas quadras abaixo. O nosso conhecimento era livresco, você via só livro. Era muito mais enriquecedor vir aqui. Estou redescobrindo Belo Horizonte pelos passeios", afirma Paulo, um dos habitués das caminhadas e que, após as três horas ao lado do grupo, aproveita para sentar em um café e seguir as conversas sobre o assunto.
E é importante mencionar que os arquitetos não são maioria nas caminhadas. Pelo contrário. Os perfis participantes são os mais diversos.
Bárbara e Paulo fazem parte das mais de 800 pessoas que participaram dos passeios com Ulisses de 2022 pra cá. São 11 roteiros criados pelo arquiteto para contar aos belo-horizontinos um pouco da história que, por vezes, não está disponível no Google, ou, se está, não está tão bem catalogada, oportunidades de negócio para o criador dos walking tours.
É possível caminhar com o xará do personagem mais famoso do escritor britânico James Joyce pela Praça da Liberdade, por bairros que integram os anos iniciais da primeira capital planejada do Brasil, como Floresta e Lourdes, e por escolas históricas, como o Instituto de Educação e o Colégio Arnaldo. Também há um tour para desbravar os edifícios em art déco no centro de BH, um dos principais palcos do estilo no Brasil, oportunidade para saber mais sobre os prédios, mas principalmente sobre as histórias que lhes permeiam.