Em dezembro de 2020, a pandemia de covid-19 estava em seu auge. Bares e restaurantes só pelos aplicativos de delivery. Academias eram adaptadas para a frente da smart TV nas casas da classe média e bicicletas ergométricas dividiam o espaço da sala com sofás e mesas de jantar (até um belo dia virarem cabides). Mas, aos poucos, algumas atividades ao ar livre começaram a ser liberadas até como forma de os belo-horizontinos escaparem do agravamento dos problemas de saúde mental.
Nesse cenário, a jornalista Luísa Dalcin, criadora do projeto Onde Comer e Beber BH, uma página no Instagram dedicada à divulgação dos melhores lugares da capital mineira para se visitar, levou uma ideia ao marido, o também jornalista Rafael Câmara: que tal se ele criasse um projeto voltado a contar as histórias de Belo Horizonte para os próprios belo-horizontinos?
Nascia ali o BH a Pé!
Desde 2011, Rafael já era um empreendedor do mundo digital, tendo criado um site de turismo para divulgar as melhores experiências nos quatro cantos do planeta. Mas, com a pandemia, "ficou impossível ganhar dinheiro com turismo", recorda ele.
"Sempre tive fascinação pela história de BH, sempre pesquisei muito. Quando a Luísa veio com a ideia, já tinha a primeira caminhada idealizada na minha cabeça, contar as histórias de todo mundo que escreveu sobre BH, da fundação da capital até os anos 20 e 30 com a geração modernista", conta o jornalista e escritor.
O primeiro roteiro ganharia o nome de Páginas Viradas, uma caminhada dedicada a falar sobre as vivências de Cyro dos Anjos, Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros nomes ligados à literatura mineira e brasileira.
Ao longo de três horas, Rafael acompanhado de seus seguidores percorrem três quilômetros, passando, por exemplo, pelo casarão da família Vivacqua, na esquina de Sergipe e Gonçalves Dias, onde Drummond frequentou durante seus anos em BH, e, perto dali, também pelas estátuas dos Cavaleiros do Apocalipse (Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino) no jardim da Biblioteca Pública Luiz de Bessa, ao lado da Praça da Liberdade.
Com o sucesso das caminhadas e o arrefecimento da pandemia, começaram a surgir outros roteiros sobre temas diversos. Nostálgicos F.C passa pelas histórias dos três clubes da capital e Almas de Minas pelos fantasmas, lendas e assombrações. Tem caminhadas dedicadas aos cinemas da capital mineira, a Hilda Furacão e a BH de Juscelino Kubitschek.
Cada história é como se fosse um capítulo de um livro da cidade planejada por Aarão Reis e que extrapolou os limites da Contorno muito acima do previsto. Os passeios variam de R$ 79 a R$ 239, de acordo com a temática escolhida e o que está envolvido na caminhada.
O tour pela história do futebol de Belo Horizonte é uma experiência que vai além do caminhar pelas ruas. Luísa Dalcin também é sommelier de cerveja, e durante o passeio, numa parada na Cantina do Lucas, apresenta aos participantes duas possibilidades: experimentar um rótulo que harmonize com um momento doce ou amargo do seu time de coração.
A partir de cada escolha, ela entrega uma bolacha de chope com um QR code e, ao ler o código, é encaminhado para uma cena de Atlético, Cruzeiro ou América. "Você pode ver os lances de um rebaixamento ou de um título", afirma Rafael, ressaltando orgulhoso que o passeio chamou atenção da Belotur, empresa de turismo da Prefeitura de Belo Horizonte.
O êxito garantiu a ele ser colocado no menu de experiências que é recomendado para moradores e visitantes no site da empresa municipal, e inclui outras atividades como tomar café da manhã no Copa Cozinha, visitar o terraço do edifício Acaiaca e vários outros passeios.
Não foi só! A caminhada Minas é Muitas, um passeio pelos sabores regionais do Mercado Novo e do Mercado Central, foi selecionado por Sebrae e Embratur como uma das 101 experiências mais autênticas e sustentáveis do Brasil. No tour, os participantes recebem um mapa de Minas Gerais onde você cola selos a cada nova região visitada através de sucos, cervejas, cafés, cachaças e licores dentro dos mercados.
Mas, até o ano passado, o BH a Pé era um projeto secundário e que servia como complemento de renda para Rafael. Após a pandemia, houve um boom no setor de viagens e ele se dedicou ao site de turismo, porém, como a vida de empreendedor é feita de desafios, após a bonança veio outra tempestade. A inteligência artificial derrubou consideravelmente os cliques que o site recebia e ele decidiu investir de vez no projeto de passeios por BH. "Acabou com o meu negócio do dia para a noite. Ninguém mais pesquisa no Google, as pessoas jogam na IA", analisa Rafael.
Deu certo! A comunidade dos alucinados pelas histórias de Belo Horizonte vem crescendo exponencialmente no Instagram. Em um ano, a página BH a Pé saltou de 10 mil para 100 mil seguidores no Instagram. Lá, Rafael dá uns spoilers de algumas das histórias que serão contadas nas caminhadas.
Um dos mais recentes é que conversando com um dos biógrafos de Alberto da Veiga Guignard ele descobriu que o setelagoano Mauro Faccio Gonçalves, o Zacarias da trupe Os Trapalhões, foi aluno do pintor numa escola ao ar livre no Parque Municipal. Detalhe: "ele foi da mesma turma do Osvaldo Evaristo, pai da ex-ministra Macaé e tio da Conceição Evaristo", diz o jornalista ainda em tom de surpresa.
Como o perfil do Instagram cresceu, passou a ser um veículo de comunicação também e, por lá, Rafael Câmara faz campanhas publicitárias para diferentes empresas e entidades. A lista inclui, por exemplo, Sesc e CDL-BH.
Um ponto relevante que mostra como o jornalista-empreendedor conseguiu aproveitar uma oportunidade é a limitação do alcance da inteligência artificial e dos mecanismos de busca de informações e conhecimentos antigos. "Muita coisa está dita e não está ao acesso da IA. São histórias que as pessoas não sabem, mesmo coisas básicas. Por exemplo, de cada 20 pessoas dos grupos, poucos vão saber que Mercado Central era um estádio de futebol", conta Rafael. Você sabia?