Ao visitar Buenos Aires, ir ao cemitério da Recoleta é quase uma obrigação. Não que Evita Perón seja um nome conhecido no Brasil para além do filme com Madonna, mas todos querem conhecer o túmulo da famosa figura da política argentina. Em Paris, o cemitério do Père-Lachaise é ponto turístico não só para os roqueiros que querem visitar a sepultura do vocalista do The Doors, Jim Morrison, ou para os eruditos adorados de música clássica que buscam por Frédéric Chopin. Em Belo Horizonte, o cemitério do Bonfim, anterior à fundação da capital, também guarda esse papel de arquivo urbano e conta parte da história centenária da cidade. Foi de olho nisso que a professora Marcelina Almeida criou um projeto de visitação ao espaço.
Inicialmente, a cada semestre a historiadora levava os seus alunos para conhecer o cemitério como forma de pesquisa e estudo. "Sempre tive esse hábito. Era uma aula. Na programação do semestre indicava que nos dias X e Y iríamos ao Bonfim para conhecer, objetivo estritamente acadêmico".
A lista de visitas incluía, por exemplo, o túmulo de Leodegária de Jesus, escritora contemporânea e amiga de Cora Coralina, uma mulher preta, ativista e super combativa para a época.
Também o de Roberto Batata, craque do Cruzeiro na década de 1970, que morreu em um acidente de carro na Fernão Dias, meses antes do time ser campeão da Libertadores. Bem diferente da ostentação de grandes sepulturas, o jogador está em uma lápide simples, sem pomposidade.
Em 2012, a professora da Universidade Estadual de Minas Gerais foi até a Fundação Municipal de Parques para receber autorização definitiva para entrar e sair do cemitério com os alunos sem empecilhos. A prefeitura autorizou, mas pediu uma contrapartida. "Será que podemos assistir a uma das aulas e passar a oferecer para a população em geral?", recorda Marcelina.
Ela autorizou. As aulas se transformaram em um projeto de extensão. Sempre no último domingo do mês, pela manhã, a historiadora guia as pessoas interessadas pelos jazigos contando a história daqueles que estão enterrados ali.
Com o sucesso, a professora passou a criar roteiros específicos para cada mês. Em março, a visita era dedicada a mulheres. Em pauta, a história de umas mais conhecidas e outras menos, enterradas no Bonfim ou que de alguma forma se relacionam com o cemitério, como Luz del Fuego, como ficou conhecida Dora Vivacqua, sobrenome de uma das mais tradicionais famílias mineiras.
Após uma visitante sugerir à professora contar a história do tio, um médico relevante na metade do século 20, Marcelina estabeleceu para maio um roteiro sobre profissionais de saúde, que inclui a história de Alfredo Balena, médico que dá nome à Faculdade de Medicina da UFMG, e Iracema Baccarini, primeira ginecologista de Belo Horizonte.
Além de Roberto Batata, o roteiro sobre futebol inclui a visitação aos túmulos de Jair Bala, ex-jogador do América e da Seleção Brasileira, e Mário de Castro, Said e Jairo, o Trio Maldito do Atlético.
Outra celebridade do cemitério é a Loira do Bonfim: uma mulher cujo fantasma, diz a lenda, tira o sono dos taxistas que rodam pela região. Ela pede carona, mas some misteriosamente. Mesmo sem túmulo, ela habita o imaginário das pessoas que passam pelo espaço. "É a principal personagem. Tenho que contar todas as vezes, e elas querem visitar o túmulo da loira, mas preciso dizer que o túmulo da loira está na nossa imaginação", explica a historiadora, que ainda não teve contato com a Loira, mas diz ter esperança no encontro.
"As pessoas vão no sentido de conhecer as celebridades, querem conhecer as celebridades, querem adorar as celebridades. O túmulo do Jim Morrison é muito visitado, o túmulo da Edith Piaf é muito visitado. Mas há outras coisas a serem vistas, e é isso que a gente tenta aqui no Bonfim", explica a historiadora e pesquisadora do tema. Mas admite: a primeira pergunta de cada visita é sempre a mesma: "quem de famoso está enterrado aqui?".
"Outro dia uma amiga me perguntou: 'Marcelina, sabe onde fica o túmulo do pai da Ana Paula Renault?'. Antes desconhecido, o pai da vencedora do Big Brother Brasil (BBB) morreu às vésperas do encerramento do reality show e foi sepultado no Bonfim.
Mas diferente dos demais contadores de história de BH, ela não se classifica como uma empreendedora ou uma influenciadora segundo a categorização moderna do termo.
"Não me encaixo na categoria de empreendedora, tampouco faço turismo. Sou uma professora de história, dando aula de história. Para mim, o cemitério do Bonfim é uma sala de aula", afirma Marcelina. E diz mais: "Sou uma doutrinadora, quero mais pessoas enxergando o cemitério como um lugar de pesquisa, de conhecimento, de descobertas e até de lazer. Por que não? Ir passear no cemitério pode ser uma coisa boa".
Com o projeto em parceria com a Prefeitura de BH, ela não ganha nada a mais. E também aceita convites de escolas públicas para visitar o cemitério, sem cobrar por isso. Já treinou guias turísticos também numa parceria com a Belotur. Mas quando grupos privados, escolas e outras instituições a procuram, ela cobra pelo serviço.
Marcelina também não está nas redes sociais contando as histórias do local. Para além da fama e do dinheiro, a educadora enxerga o projeto como uma forma de cuidar do patrimônio imaterial, da memória das pessoas.