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04

Capítulo 04

Clube da Esquina e a Jardineira

Clube da Esquina e a Jardineira

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"Chegando da aula, entrei no quarto e ele estava deitado na minha cama. À noite a gente já era super amigo, indo a cinemas juntos e noitadas no Maletta."

— Márcio Borges, sobre o dia em que conheceu Milton Nascimento

Uma jardineira da década de 50 estaciona ao lado da Praça da Liberdade, um músico empunha um violão e solta a voz para cantar clássicos do Clube da Esquina. É a primeira parada do tour organizado em homenagem ao principal movimento musical de Minas Gerais, do qual fazem parte Milton Nascimento, Lô e os irmãos Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta, Fernando Brant, Flávio Venturini e outros mais.

Músico ao violão durante o passeio na jardineira clássica do Clube da Esquina
Músico ao violão durante o passeio na jardineira clássica do Clube da Esquina

Dali, o grupo segue em direção a pontos icônicos por onde os amigos passaram ao longo da juventude para compor letras marcantes da MPB. Edifícios Levy e Maletta, Viaduto Santa Tereza, a casa da família Borges e, claro, a esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, num resgate histórico do movimento.

O projeto nasce da ideia de criar um museu em homenagem ao Clube da Esquina. Dez anos atrás um casarão no Santa Tereza, a alguns passos da famosa esquina, passou a abrigar uma exposição permanente com itens dos músicos, como o primeiro piano de Beto Guedes, fotos do acervo pessoal de todos eles e um LP da primeira impressão da obra-prima Clube da Esquina (hoje vendido nos sebos por R$ 1.500), assinada pelo casal Márcio Borges e Cláudia Brandão.

Placa do Museu Clube da Esquina no histórico Edifício Levy
Placa do Museu Clube da Esquina no histórico Edifício Levy

"Não existia um ponto turístico que centralizasse todas as informações, em especial onde pudéssemos receber as pessoas e contar a história", diz Luiz Augusto, gerente de Marketing do Bar e Museu do Clube da Esquina, um dos responsáveis pelo espaço de preservação da memória do movimento.

O local também funciona como um bar e é lá que ainda hoje eles e seus sucessores se reúnem para apresentações musicais com clássicos do movimento. Ao fim da caminhada, é lá que os turistas se sentam para prosear e ganham uma galinhada, receita originária da matriarca dos Borges, dona Maricota, e escutam um dos expoentes do Clube da Esquina cantar clássicos compostos por Milton, Lô, Beto, Brant e outros.

Visitante fotografando a famosa esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis
Visitante fotografando a famosa esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis

Morador de Vitória, capital do Espírito Santo, o engenheiro eletricista Francisco Gonçalves, de 62 anos, veio visitar o filho na capital mineira e, desta vez, ganhou o tour de presente. O capixaba e a esposa percorreram cada ponto marcante ao lado do filho e da nora e puderam aprofundar nas histórias dos jovens mineiros apaixonados pelos Beatles.

"Sempre ouvi a história dos músicos do Clube da Esquina. Milton, Flávio Venturini, Lô Borges, Beto Guedes... Mas conhecia a história superficialmente. Agora estou vendo tudo pessoalmente, entrando no Edifício Levy. É conhecer a história de BH através da música", resume seu Francisco, convidado pelo filho que veio morar em BH após casar para fazer o tour.

O perfil do público presente no tour é diferente dos outros. Em vez de belo-horizontinos, a maioria é formada por turistas. E, por isso mesmo, a jardineira faz paradas em pontos tradicionais, como o Mercado Central e o Café Palhares, onde se pode experimentar quitutes típicos de BH, e faz rápida passagem pela porta dos restaurantes de Léo Paixão no bairro de Lourdes.

Visitantes analisando itens do acervo no museu do Clube da Esquina
Visitantes analisando itens do acervo no museu do Clube da Esquina

O mesmo se repete entre os visitantes do museu. Os dados mostram que 9 a cada 10 não são moradores da capital mineira, mas vindos de outras regiões, inclusive do exterior. Gringos do Chile, Argentina, Portugal, Países Baixos, Reino Unido e Estados Unidos já passaram pela exposição.

Numa das paradas do passeio, é possível entrar no Edifício Levy, o ponto dos primeiros encontros de Milton e dos irmãos Borges. Foi ali, num dia em que dona Maricota pediu ao pequeno Salomão Filho, o Lô, para ir comprar pão e leite na padaria e ele, ao descer do décimo sétimo andar com toda a energia de uma criança de dez anos pelos corrimões da escadaria, ouviu uns acordes e um falsete que lhe impressionaram. Era Milton - ou Bituca, como ele, dez anos mais velho, se apresentou aquele que a partir daquele encontro seria seu maior parceiro na música.

O lanche daquela tarde teve pão e leite, e Bituca foi convidado para se reunir com os irmãos no apartamento deles, cena que se repetiria muito na residência dos Borges com a chegada de um décimo segundo filho. "Chegando da aula, entrei no quarto e ele estava deitado na minha cama. Entendi que era alguém ensaiando com meu irmão Marilton. Acompanhei aquele resto de ensaio e à noite a gente já era super amigo, indo a cinemas juntos, ao ponto dos músicos e noitadas no Maletta", relata Márcio Borges num áudio gravado especialmente para o tour sobre o dia que conheceu Bituca, morador de uma pensão no mesmo Edifício Levy, na avenida Amazonas, a um quarteirão do Mercado Central.

Aquela era uma das coincidências nos encontros que resultaram na formação do Clube da Esquina. Anos antes, recorda Virgínia Câmara, a produtora do passeio sobre o grupo mineiro, Milton, aos três anos, havia se mudado do interior do Rio de Janeiro para a cidade mineira de Três Pontas e, lá, Wagner Tiso era seu vizinho de rua. O futuro maestro viria a ser um dos principais expoentes do movimento.

Diferente dos demais ao se pensar o público que se pretende atingir, o tour pela história do Clube da Esquina é focado em turistas. O passeio de nove horas de duração custa R$ 399 (à vista) ou 12 parcelas de R$ 45, totalizando R$ 540.

A jardineira histórica atravessando a ponte sobre o rio, parte do itinerário do passeio
A jardineira histórica atravessando a ponte sobre o rio, parte do itinerário do passeio

Um diferencial da imersão pela história dos músicos é que praticamente todas as histórias apuradas para o tour e o museu são extraídas de fontes primárias. Os próprios músicos e seus amigos e familiares contaram tim-tim por tim-tim do que aconteceu, permitindo assim se conservar a história dos meninos do Clube da Esquina. Além disso, se pode ingressar em alguns desses pontos e compreender de perto o comportamento deles. "A história estava toda espalhada. Vimos a necessidade de integrar para levar os turistas a esses locais", completa Luiz.

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