Uma jardineira da década de 50 estaciona ao lado da Praça da Liberdade, um músico empunha um violão e solta a voz para cantar clássicos do Clube da Esquina. É a primeira parada do tour organizado em homenagem ao principal movimento musical de Minas Gerais, do qual fazem parte Milton Nascimento, Lô e os irmãos Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta, Fernando Brant, Flávio Venturini e outros mais.
Dali, o grupo segue em direção a pontos icônicos por onde os amigos passaram ao longo da juventude para compor letras marcantes da MPB. Edifícios Levy e Maletta, Viaduto Santa Tereza, a casa da família Borges e, claro, a esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, num resgate histórico do movimento.
O projeto nasce da ideia de criar um museu em homenagem ao Clube da Esquina. Dez anos atrás um casarão no Santa Tereza, a alguns passos da famosa esquina, passou a abrigar uma exposição permanente com itens dos músicos, como o primeiro piano de Beto Guedes, fotos do acervo pessoal de todos eles e um LP da primeira impressão da obra-prima Clube da Esquina (hoje vendido nos sebos por R$ 1.500), assinada pelo casal Márcio Borges e Cláudia Brandão.
"Não existia um ponto turístico que centralizasse todas as informações, em especial onde pudéssemos receber as pessoas e contar a história", diz Luiz Augusto, gerente de Marketing do Bar e Museu do Clube da Esquina, um dos responsáveis pelo espaço de preservação da memória do movimento.
O local também funciona como um bar e é lá que ainda hoje eles e seus sucessores se reúnem para apresentações musicais com clássicos do movimento. Ao fim da caminhada, é lá que os turistas se sentam para prosear e ganham uma galinhada, receita originária da matriarca dos Borges, dona Maricota, e escutam um dos expoentes do Clube da Esquina cantar clássicos compostos por Milton, Lô, Beto, Brant e outros.
Morador de Vitória, capital do Espírito Santo, o engenheiro eletricista Francisco Gonçalves, de 62 anos, veio visitar o filho na capital mineira e, desta vez, ganhou o tour de presente. O capixaba e a esposa percorreram cada ponto marcante ao lado do filho e da nora e puderam aprofundar nas histórias dos jovens mineiros apaixonados pelos Beatles.
"Sempre ouvi a história dos músicos do Clube da Esquina. Milton, Flávio Venturini, Lô Borges, Beto Guedes... Mas conhecia a história superficialmente. Agora estou vendo tudo pessoalmente, entrando no Edifício Levy. É conhecer a história de BH através da música", resume seu Francisco, convidado pelo filho que veio morar em BH após casar para fazer o tour.
O perfil do público presente no tour é diferente dos outros. Em vez de belo-horizontinos, a maioria é formada por turistas. E, por isso mesmo, a jardineira faz paradas em pontos tradicionais, como o Mercado Central e o Café Palhares, onde se pode experimentar quitutes típicos de BH, e faz rápida passagem pela porta dos restaurantes de Léo Paixão no bairro de Lourdes.
O mesmo se repete entre os visitantes do museu. Os dados mostram que 9 a cada 10 não são moradores da capital mineira, mas vindos de outras regiões, inclusive do exterior. Gringos do Chile, Argentina, Portugal, Países Baixos, Reino Unido e Estados Unidos já passaram pela exposição.
Numa das paradas do passeio, é possível entrar no Edifício Levy, o ponto dos primeiros encontros de Milton e dos irmãos Borges. Foi ali, num dia em que dona Maricota pediu ao pequeno Salomão Filho, o Lô, para ir comprar pão e leite na padaria e ele, ao descer do décimo sétimo andar com toda a energia de uma criança de dez anos pelos corrimões da escadaria, ouviu uns acordes e um falsete que lhe impressionaram. Era Milton - ou Bituca, como ele, dez anos mais velho, se apresentou aquele que a partir daquele encontro seria seu maior parceiro na música.
O lanche daquela tarde teve pão e leite, e Bituca foi convidado para se reunir com os irmãos no apartamento deles, cena que se repetiria muito na residência dos Borges com a chegada de um décimo segundo filho. "Chegando da aula, entrei no quarto e ele estava deitado na minha cama. Entendi que era alguém ensaiando com meu irmão Marilton. Acompanhei aquele resto de ensaio e à noite a gente já era super amigo, indo a cinemas juntos, ao ponto dos músicos e noitadas no Maletta", relata Márcio Borges num áudio gravado especialmente para o tour sobre o dia que conheceu Bituca, morador de uma pensão no mesmo Edifício Levy, na avenida Amazonas, a um quarteirão do Mercado Central.
Aquela era uma das coincidências nos encontros que resultaram na formação do Clube da Esquina. Anos antes, recorda Virgínia Câmara, a produtora do passeio sobre o grupo mineiro, Milton, aos três anos, havia se mudado do interior do Rio de Janeiro para a cidade mineira de Três Pontas e, lá, Wagner Tiso era seu vizinho de rua. O futuro maestro viria a ser um dos principais expoentes do movimento.
Diferente dos demais ao se pensar o público que se pretende atingir, o tour pela história do Clube da Esquina é focado em turistas. O passeio de nove horas de duração custa R$ 399 (à vista) ou 12 parcelas de R$ 45, totalizando R$ 540.
Um diferencial da imersão pela história dos músicos é que praticamente todas as histórias apuradas para o tour e o museu são extraídas de fontes primárias. Os próprios músicos e seus amigos e familiares contaram tim-tim por tim-tim do que aconteceu, permitindo assim se conservar a história dos meninos do Clube da Esquina. Além disso, se pode ingressar em alguns desses pontos e compreender de perto o comportamento deles. "A história estava toda espalhada. Vimos a necessidade de integrar para levar os turistas a esses locais", completa Luiz.