Em 2019, o jornalista Guilherme Soares Dias saiu de São Paulo para passar um final de semana em Belo Horizonte. Então decidiu perguntar a conhecidos dicas do que fazer na capital mineira que remetesse à história negra.
A resposta foi a mesma: "'não tem nada, BH foi muito embranquecida, mas tem uma imagem de iemanjá na Pampulha, mas tem um samba embaixo do viaduto Santa Tereza uma vez por mês'. Depois do mas vinha uma dica, fui juntando todas e nesses dois dias que passei na cidade não fui capaz de conhecer tudo", recorda Guilherme.
Criador da plataforma de turismo Guia Negro, que, entre outros, a partir de 2017 busca recontar as histórias negras brasileiras a partir de um olhar afrocentrado, o intuito era desbravar o que havia relacionado à temática na capital mineira.
De cara, percebeu que não havia nada condensado, mas que havia muitos elementos negros espalhados pela cidade.
Estava dada a oportunidade de a empresa repetir as caminhadas negras já em andamento em outras cidades agora em BH. Em 2022, em parceria com a Sensações Turismo, a capital mineira ganharia seus roteiros contando a história negra, e três anos depois um guia voltado para o afro-turismo.
De Maria do Arraial (renomeada assim para dar fim ao elemento pejorativo que carregava por sofrer de bócio endêmico) à socióloga Lélia Gonzalez, da escritora Carolina Maria de Jesus ao jurista Afonso Arinos, diversas histórias passaram a ser recontadas sob uma nova perspectiva.
Hoje são cinco walking tours com temática negra em BH, que, pelo menos uma vez por mês, percorrem as ruas para rememorar o passado e também viver o presente. "A gente sempre tenta trazer as histórias para o presente, onde está essa negritude de Belo Horizonte hoje. Tem um Carnaval muito vivo, grupos de congado, a Lagoinha…", afirma Guilherme.
As cinco caminhadas negras são dedicadas a:
- ◆ Maria do Arraial
- ◆ Roteiro das artes (grafite, galerias de arte, exposições e outros)
- ◆ Direitos humanos (a constituição das leis e a evolução da questão racial no Brasil, o que inclui a primeira lei antirracista, que é assinada por um parlamentar mineiro, Afonso Arinos)
- ◆ Vidas Negras (a história de personagens negros mineiros, como Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzales, Conceição Evaristo e outros)
- ◆ Entre museus (passeio que leva do Abílio Barreto ao Museu dos Quilombos e Favelas Urbanas)
Qualquer pessoa interessada pode participar dos passeios guiados. Eles acontecem em um sábado a cada mês, mas é possível contratar para escolas, empresas ou mesmo para um grupo menor. Vale e Meta estão entre os contratantes do tour na capital mineira.
As caminhadas de BH se somam às de outras 34 cidades Brasil afora. Além dos walking tours, a proposta do Guia Negro é prestar consultoria e produzir conteúdo sobre a temática. Em 2025, eles organizaram o 1 Congresso Brasileiro de Afro-Turismo.
"A gente também produz conteúdo porque entende que as pessoas só vão para lugares que ela deseja estar, e como a história negra foi apagada, foi escanteada desses roteiros, do Brasil como um todo, não só das cidades, mas também do turismo, então a produzimos conteúdo para provocar as pessoas a fazerem roteiros", posiciona-se Guilherme.
Em BH, a maioria dos participantes é formada por mulheres, têm entre 30 e 55 anos e é negra, mas o fundador do Guia Negro diz que todos os públicos são convidados a participar.
A ideia dos passeios nasceu de uma viagem ao Atacama, no Chile. Lá, Guilherme conheceu uma lenda da briga entre dois vulcões, e entendeu que essas histórias que fazem parte do imaginário da cidade chamam mais atenção que outras mais centradas em dados históricos e fatos.
"Eles contavam também a história oficial, da colonização, da briga entre países, que parte do Chile antes pertencia à Bolívia, mas tudo isso era menos lembrado que as lendas e essas histórias que todo mundo na cidade e de alguma forma acredita naquilo, e quando reproduzido para os turistas eles ficavam muito interessados", conta o fundador do Guia Negro.
Em Belo Horizonte, uma dessas histórias sem tantos registros e documentação oficial e que, mesmo sendo real, ganhou diferentes versões cada vez que era contada é de Maria do Arraial - ou Maria Papuda, como era pejorativamente chamada por sofrer de bócio, doença que acometia vários dos moradores da localidade que viria a ser a capital mineira e, por isso, era chamada de Terra dos Papudos.
À época da construção da primeira cidade planejada, Maria se recusava a deixar a sua cafua, uma construção de estilo africano, nas redondezas do que seria a Praça da Liberdade e, devido à resistência, seu espírito teria retornado para assombrar o Palácio da Liberdade e seus futuros ocupantes - os governadores de Minas Gerais.
A história que ganhou tom fantasmagórico foi revisitada nos últimos anos por diferentes pessoas nas redes sociais, muitos deles buscando dar novo significado à personagem.
"Maria do Arraial", personagem anterior à fundação da cidade, é uma das mais misteriosas e que tem tom de lenda, mas, de fato, viveu onde é o palácio do governo. Algumas personagens negras são retratadas pela história oral. Zumbi dos Palmares a gente conhece pela oralidade, não tem documentos que comprovam a existência do quilombo, e isso faz com que a história mude dependendo de quem a está contando", afirma Guilherme Soares Dias, ressaltando que essa ausência está muito relacionada ao apagamento histórico do povo negro e ao racismo estrutural.
Diante desse desafio de se manter vivo um personagem quase que só existente na oralidade, o Guia Negro busca o suporte de uma rede de historiadores negros e pessoas mais velhas para reviver Maria do Arraial numa espécie de arqueologia da história.
"Belo Horizonte, assim como várias outras cidades, tem esse apagamento e não se vê como uma cidade negra, apesar de ter população de maioria negra. É uma história que foi apagada", reflete o jornalista.
E diz mais: "Em BH, a grande maioria [dos participantes das caminhadas] é da cidade. A gente percebe que a pessoa está indo pela décima vez na Praça da Liberdade ou algum lugar central e aí passa a ver a cidade dela por um outro olhar, é uma chave que muda esse olhar. Vai transformar e nunca mais voltar a olhar para aquela região da mesma forma. O tour provoca essas reflexões. É ver a cidade por um outro olhar e redescobrir ela".
Ao todo, mais de 3 mil pessoas passam pelas caminhadas negras anualmente em todo o Brasil. Em BH, são 10 tours por ano, com público de 10 a 15 pessoas por edição. Ao longo de três horas se revisita as histórias de cada roteiro.
As três horas, que, parecem tempo demais, mas são tempo de menos para se contar a história negra em BH, normalmente são finalizadas em um restaurante de um empreendedor negro no Mercado Novo, afinal, seja num bamba de couve ou num frango ensopado com quiabo, a cultura negra está bastante presente na gastronomia mineira, que, apesar de Guilherme não reconhecer publicamente em suas redes sociais para não criar problema com outros estados, ele assume ao BHAZ: "é a melhor do Brasil"!