Emprego · Empreendedorismo · Autonomia
Porta de
saída
Emprego e empreendedorismo ajudam milhões de famílias a deixar o Bolsa Família
O Contexto
O Bolsa Família nasceu em 2003 para combater a fome e garantir uma rede de proteção às pessoas em situação de pobreza extrema. Mais de duas décadas depois, embora 19 milhões de famílias ainda recebam o benefício, mais de 5 milhões deixaram o programa apenas nos últimos três anos.
Em Minas Gerais, nesse período, foram 430 mil famílias que passaram a não depender mais do auxílio. Por trás desse movimento estão pessoas que conseguiram aumentar os ganhos por meio do trabalho formal ou de atividades autônomas. Para elas, o Bolsa Família e outros programas de transferência de renda cumpriram seu papel: ofereceram suporte em um momento de vulnerabilidade e, em muitos casos, ajudaram a conquistar a autonomia financeira.
famílias tiveram o benefício encerrado em BH entre março de 2023 e maio deste ano.
SMASDH · apuração BHAZ
Cidade com o maior número de beneficiários, Belo Horizonte teve, entre março de 2023 e maio deste ano, mais de 39,3 mil famílias deixando o programa, segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH). Na capital mineira, atualmente, 124,1 mil famílias ainda recebem o benefício.
Os dados, apurados pelo BHAZ junto à prefeitura, correspondem a cerca de 10% do total em Minas Gerais, onde 430 mil famílias saíram do Bolsa Família no mesmo período.
Embora o movimento de entrada e saída seja dinâmico, podendo tanto aumentar quanto diminuir, os números demonstram que, em BH, a curva é ascendente. Ou seja, nos últimos anos, a cidade vem experimentando um crescimento sustentado de famílias que deixam de receber o dinheiro do Bolsa Família por não se enquadrarem mais nos critérios de renda. Em 2023, foram 5.830 deixando o programa; em 2024, 11.116, alta de 90,7%. Já em 2025, o total de desligamentos chegou a 16.131, um crescimento de 45,1% em comparação ao ano anterior. Neste ano, entre janeiro e maio de 2026, outras 6.287 famílias já deixaram de receber o benefício.
Famílias que deixaram o Bolsa Família em BH
Desligamentos por ano · a curva é ascendente
Fonte: SMASDH / apuração BHAZ
O critério de renda
O critério de renda é simples: o ganho mensal de cada membro da família não pode ultrapassar R$ 218. Se isso não ocorrer, cada integrante tem direito a R$ 142. Há ainda um valor adicional de R$ 150, no caso de criança menor de 7 anos, e mais R$ 50, no caso de gestante ou familiar entre 8 e 17 anos. Se a soma for menor que R$ 600 por família, há um complemento até esse valor.
Para receber o benefício, além de comprovar renda menor que R$ 218 por pessoa, as famílias precisam cumprir uma série de contrapartidas, como a manutenção da frequência mínima das crianças na escola e o acompanhamento médico regular, com atualização das vacinas e comprovação de nível nutricional adequado.
Simulação
Um exemplo: família de seis pessoas
Em uma família de seis integrantes, por exemplo, com mãe gestante, pai, dois filhos menores de 7 anos e outros dois filhos menores de 17 anos, a transferência bruta chega a R$ 1.302, média de R$ 217 por pessoa. Em BH, o valor da cesta básica é de R$ 800,76, segundo o Ipead-UFMG.
Pai
base
R$ 142
Mãe gestante
gestante · +R$ 50
R$ 192
Filho 01
menor de 7 · +R$ 150
R$ 292
Filho 02
menor de 7 · +R$ 150
R$ 292
Filho 03
8 a 17 anos · +R$ 50
R$ 192
Filho 04
8 a 17 anos · +R$ 50
R$ 192
Transferência bruta no mês
R$ 1.302
Média de R$ 217 por pessoa — logo abaixo do teto de R$ 218 que dá direito ao benefício.
O que esse valor representa em BH
Cálculo BHAZ sobre as regras do Bolsa Família · cesta básica: Ipead-UFMG
Ele representa a presença do Estado na vida das pessoas que mais precisam, colaborando para o combate à fome, a permanência das crianças na escola e o acesso aos serviços de saúde. É um instrumento de promoção da justiça social.
18,8 mi
famílias atendidas pelo programa no Brasil até março.
MDS
R$ 683,75
é o benefício médio pago no país.
MDS
Até março deste ano, cerca de 18,8 milhões de famílias brasileiras eram atendidas pelo programa, com benefício médio de R$ 683,75. Apesar do grande número, dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com o Ministério de Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), divulgados em dezembro de 2025, apontam que, nos três primeiros anos após a reestruturação do programa, em 2023, houve, em média, mais saídas mensais, cerca de 447 mil pessoas por mês, do que entradas, cerca de 359 mil por mês.
Entradas e saídas mensais no Novo Bolsa Família
Brasil · 2023–2025 · em mil famílias
Reprodução / Pesquisa Filhos do Bolsa Família (FGV)
De cada dez pessoas que recebiam o Bolsa Família em 2014, seis conseguiram deixar o programa nos dez anos seguintes.
Enquanto a taxa média de desligamento foi de 6%, entre os jovens de 15 a 17 anos a proporção chega a 71,25%. Ou seja, de cada dez, sete não precisaram do benefício na década seguinte.
Destinado a núcleos familiares com renda mensal de até R$ 218 por pessoa, o Bolsa Família não é cancelado automaticamente. Quando os ganhos da família ultrapassam esse limite, a situação passa a ser analisada conforme as regras de proteção do programa. Comprovado o aumento substancial e permanente, o benefício é suspenso. Em suma, esse crescimento dos ganhos vem de duas formas. A primeira e principal é pelo emprego formal.
foi a taxa anual de desocupação em 2025, o menor índice da série histórica iniciada em 2012. A subutilização ficou em 14,5%.
IBGE
87%
do saldo líquido de novos empregos formais (janeiro a abril de 2026) veio de inscritos no CadÚnico.
MDS · Caged
62%
das vagas foram ocupadas por beneficiários do Bolsa Família.
MDS · Caged
Alice Ramos Conrado / Imagens cedidas ao BHAZ
Jorge Alexandre Neves
Pesquisador e professor de sociologia · UFMG
“Na esmagadora maioria dos casos, a saída do programa é resultado de as pessoas estarem conseguindo trabalhos formais e quebrando o ciclo da extrema pobreza.”
Segundo Neves, desde 2023 há aumento na oferta de vagas para pessoas com baixa qualificação no mercado de trabalho brasileiro, isto é, com ganhos entre um e dois salários mínimos.
“É diferente das pessoas de alta qualificação. A nossa economia não tem conseguido ter a complexidade e a sofisticação suficientes para gerar bons empregos. Em contrapartida, trabalhos de baixa qualificação vivem um ‘boom’. São vagas para atendentes, operadores de caixa, frentistas e serviços de limpeza, entre outros. Isso leva ao aumento real do salário mínimo”, explica.
Outros fatores que explicam o aumento da renda e o consequente desligamento, conforme Neves, — que em agosto lança o livro “O Dilema do Aventureiro”, em parceria com Felipe Nunes, da Quaest —, são a abertura de pequenos negócios e o aumento da produtividade.
“Se tem o mínimo garantido, como é o caso do Bolsa Família, a pessoa consegue canalizar a energia para algo mais produtivo. Pessoas que recebem o benefício conseguem usar esse recurso como capital de giro em atividades informais e, com isso, elevar a renda da família, criar um pequeno negócio e, posteriormente, deixar o programa”, afirmou.
Diferentemente do que pensa boa parte das pessoas, o fato de empreender não tira, automaticamente, o direito ao benefício. A diretora de Proteção Social Básica da PBH, Patrícia Silva, explica que, quando há uma melhora na renda familiar, mas ela ainda permanece entre R$ 218 e R$ 706 por pessoa, a família continua recebendo 50% do benefício durante 12 meses, amparada pela regra de proteção. Só quando esse valor ultrapassa R$ 706, o programa é encerrado imediatamente.
“No primeiro caso, é uma forma de permitir que essas famílias se organizem para deixar de receber o benefício. No segundo, se houver desemprego ou perda de renda, elas podem voltar a recebê-lo”, contou.
No ano passado, dados da Secretaria Nacional de Renda de Cidadania (Senarc), do MDS, comprovam que mais de 2 milhões de beneficiários deixaram de receber o Bolsa Família entre janeiro e outubro. Desses, 1.318.214 saíram em razão do aumento da renda, conquistado por meio do emprego formal, da abertura de um pequeno negócio ou da melhora nas condições financeiras do domicílio.
Em entrevista ao BHAZ, a secretária-extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do MDS, Valéria Bury, reforçou que o Bolsa Família ainda é fundamental para enfrentar a insegurança alimentar.
“Metade das pessoas que estão incluídas no programa são crianças e adolescentes, de 0 a 17 anos, gestantes e nutrizes. Já a outra parte são homens e mulheres que estão na busca ativa de emprego”, relatou.
Valéria Bury
Secretária-extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome · MDS
1,69 mi
de vagas foi o saldo de empregos em 2024.
Caged
1,29 mi
de vagas em 2025. Três quartos dessas ocupações foram de quem estava no Bolsa Família.
Caged
Para a secretária, a combinação entre renda, crédito com juros baixos e formação profissional pode transformar a vida dessas famílias. “Não se trata apenas de garantir a sobrevivência, mas de oferecer condições para que elas possam melhorar de vida.”
Quando olhamos para a população mais pobre do país, estamos falando, em grande parte, de mulheres negras. O Brasil tem uma história marcada pela escravidão e ainda carrega desigualdades estruturais profundas.
Por trás dos números
Existem pessoas em cada porta de saída
Seis mulheres e homens que transformaram o benefício em ponto de partida. Histórias de coragem, trabalho e recomeço, que emocionam e mostram, na prática, o que os dados só sugerem.
Patrícia Silva, diretora de Proteção Social Básica da PBH · Imagens cedidas ao BHAZ
Embora o Bolsa Família seja de responsabilidade do governo federal, é a prefeitura de cada município que faz a inclusão e a atualização das famílias no Cadastro Único (CadÚnico). Na capital mineira, a PBH faz o acompanhamento por meio de visitas domiciliares, entrevistas sociais e consultas aos sistemas oficiais. Entre os mecanismos estão a averiguação cadastral de renda, a revisão periódica dos cadastros, a verificação da composição familiar e o cruzamento de informações com bases governamentais.
Patrícia ressalta que, embora a Rede Federal de Fiscalização identifique o aumento da renda familiar, muitos beneficiários fazem questão de comunicar essa mudança.
“Percebo que são famílias que estão em busca de oportunidades melhores. Que não querem ficar acomodadas recebendo o benefício. É muito comum as pessoas retornarem aos serviços da assistência social para informar que não precisam mais. Vemos muitas famílias cujos filhos, que acompanhamos ainda pequenos e participavam das atividades do Cras, hoje estão na faculdade, trabalhando e também não necessitam mais do programa.”
Para manter o benefício, é necessário que as famílias atualizem o CadÚnico a cada 24 meses. Caso isso não ocorra, o pagamento é suspenso. “Todo ano, recebemos do governo federal a listagem das famílias que têm o cadastro com prazo de validade próximo do vencimento. Com isso, organizamos os serviços de assistência social para um processo de busca ativa”, explica.
O governo federal ainda consegue avaliar o cadastro por meio da Rede Federal de Fiscalização, que, desde 2023, cruza a base de dados das pessoas com os sistemas da Receita Federal, do INSS e do Ministério do Trabalho. Jorge Neves explica que a ferramenta é essencial para coibir fraudes, já que, durante os governos de Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019-2022), houve descontrole, o chamado “vazamento”, em que pessoas que não deveriam receber passaram a ter acesso ao benefício.
No fim do mês passado, durante um evento empresarial, uma fala do apresentador Luciano Huck reacendeu a polêmica sobre o Bolsa Família. Ele afirmou que o benefício não era capaz de romper com a pobreza e que muitas famílias procuram “atalhos” para permanecer no programa por tempo indeterminado. Em resposta, o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, afirmou que mais de 5,1 milhões de famílias deixaram a iniciativa desde 2023.
Taxa de saída por faixa etária
Beneficiários de 2014 e situação em 2025 · % que deixou o programa
Reprodução / Pesquisa Filhos do Bolsa Família (FGV)
“É realmente irritante ver pessoas que são contra o benefício, mas que também se beneficiam, por exemplo, de incentivos fiscais. A elite se incomoda quando vê o Estado deixar de ser um monopólio seu.”
Jorge Alexandre Neves · UFMG
O professor da UFMG comentou que os estigmas que “culpabilizam” o Bolsa Família pelo fato de haver vagas sobrando no mercado desconsideram o aumento das possibilidades de atuação como microempreendedor individual (MEI).
“Temos, atualmente, o trabalhador de aplicativo, que muitas vezes consegue uma renda muito maior comparada aos empregos formais, embora não tenha as mesmas garantias das leis trabalhistas. Então, o MEI é o grande concorrente do mercado de trabalho formal”, disse.
Em 2023, o MDS firmou uma parceria com o Sebrae para apoiar brasileiros inscritos no CadÚnico, muitos deles beneficiários do Bolsa Família, que desejam aumentar a renda por meio do empreendedorismo. Segundo o presidente nacional do Sebrae, Rodrigo Soares, foi estabelecida uma cooperação técnica que permitiu à instituição acessar, em conformidade com a LGPD, informações relacionadas ao cadastro dos inscritos.
“O objetivo é compreender o perfil das pessoas inseridas nesse contexto. É possível identificar seus talentos e apoiar seus projetos, contribuindo para o aumento da renda e, consequentemente, para a promoção da cidadania”, explica Rodrigo, em entrevista ao BHAZ.
microempreendedores individuais inscritos no CadÚnico, quase 3 em cada 10 MEIs do país.
Sebrae · MDS
Cerca de 57% desses empreendedores, aproximadamente 2,6 milhões, abriram o CNPJ depois de ingressar na plataforma de assistência do governo federal.
A maioria é formada por mulheres (55,3%) e pessoas não brancas (64%). A faixa etária de 30 a 49 anos concentra 53% do total, e 51% têm ensino médio completo ou escolaridade superior.
MEI no CadÚnico por abertura do CNPJ
Anterior ou posterior ao registro no CadÚnico
2.697.769
2.034.161
MEI no CadÚnico por setor
Número de microempreendedores individuais
DataSebrae / Reprodução
A partir desses dados, o Sebrae passou a disponibilizar, em parceria com o BNDES, uma série de cursos de empreendedorismo, gestão de negócios e qualificação profissional. “Temos uma procura muito grande por cursos voltados para confeiteiros, manicures e cozinheiros”, relata Rodrigo.
Outro desafio é incentivar esses trabalhadores a formalizar o próprio negócio, já que cerca de 3 milhões permanecem na informalidade. Um dos principais entraves é a crença de que a abertura do MEI resulta automaticamente na perda do Bolsa Família. Para combater essa desinformação, o Sebrae lançou nas redes sociais a mininovela semanal “Dona do Seu Próprio Destino”.
“O MEI não faz a pessoa perder o benefício. Pelo contrário, garante acesso à aposentadoria, à proteção previdenciária e cria condições para aumentar a renda. O governo não considera o faturamento do negócio, porque há custos com insumos e mão de obra. O que é levado em conta é o lucro”, explica.
“A partir do momento em que a pessoa mata a fome, ela quer melhorar de vida.”
Para o presidente do Sebrae, políticas públicas como o Bolsa Família representam um caminho concreto para a autonomia financeira e a construção de um futuro mais digno. “A pessoa vai buscar, por exemplo, um eletrodoméstico ou um meio de locomoção que não tinha antes. Então, o benefício não é simplesmente uma transferência de renda, mas uma verdadeira política pública”, diz Rodrigo Soares.