BHAZ · Reportagem Especial

As histórias

Seis retratos da porta de saída: mulheres e homens que transformaram o benefício em ponto de partida, pelo emprego e pelo empreendedorismo.

01 Cria do Bolsa Família
Brenda Fernanda, 26 anos
Brenda Fernanda, 26 anos

Brenda Fernanda em seu salão de beleza, em Divinópolis · Imagens cedidas ao BHAZ

Brenda Fernanda, 26 anos

Cabeleireira · Divinópolis, Centro-Oeste de Minas Gerais

Tenho orgulho de dizer que sou cria do Bolsa Família

A cabeleireira Brenda Fernanda, de 26 anos, deixou o programa há três meses, após receber o benefício por dois anos e meio. O principal motivo foi o crescimento do seu salão de beleza, em Divinópolis, na região centro-oeste de Minas Gerais, que ampliou o movimento e consolidou uma clientela fiel.

A empreendedora conta que o Bolsa Família foi fundamental durante o período em que precisou se dedicar integralmente aos dois filhos, de 4 e 5 anos, já que não teria condições de custear uma babá e não havia ninguém para cuidar deles.

“Tive que largar o trabalho após o nascimento do meu segundo filho. Na época, avaliei contratar uma pessoa para ficar com eles, mas, literalmente, eu gastaria todo o meu salário. Não compensa. Seria inviável. O programa foi uma forma de adaptação e, até que eu pudesse me organizar, ajudou a pagar o aluguel e a alimentação. Era um dinheiro muito necessário.”

Ela começou a empreender em 2025 na área da beleza e, com o tempo, passou a obter uma renda superior à que receberia em um emprego formal. Ao atualizar o cadastro no CadÚnico, em abril deste ano, foi informada de que não se enquadra mais nos critérios de renda exigidos para receber o benefício. “Vi na área da beleza, na qual eu já tinha um certo domínio, a oportunidade de transformá-la em uma fonte de renda. E digo que, por conta do Bolsa Família, eu consegui ter um caminho para empreender”, relatou.

Para ela, o empreendedorismo ampliou não apenas a possibilidade de conquistar autonomia financeira, mas também de ter mais qualidade de vida e acompanhar o crescimento dos filhos. Hoje, Brenda consegue conciliar os horários de atendimento no salão com o período em que as crianças estão na escola.

Brenda não esconde a gratidão pelo programa, agora e no passado. Segundo a cabeleireira, durante a infância, o Bolsa Família foi essencial para que sua mãe pudesse criar ela e os irmãos, além de ajudá-los a superar períodos de insegurança alimentar. “Minha mãe recebeu e isso ajudou a matar a fome. Quando vejo pessoas criticando o programa, penso que elas talvez nunca tenham vivido o medo de ter a luz ou a água cortadas, nem de não ter o que comer dentro de casa. É uma questão muito humana, de olhar para quem mais precisa.”

A empreendedora também afirma que o benefício funciona como um “empurrão” e um “incentivo” para que as pessoas busquem autonomia financeira. “É um incentivo para correr atrás e não precisar depender dele para sempre. O Brasil é um país desigual e ainda existe muita pobreza. Quem não percebe isso, muitas vezes, vive em uma bolha e enxerga apenas a própria realidade”, completou.

02 Alimentação garantida
Geisa Rafaela de Souza, 40 anos

Geisa Rafaela de Souza agora também investe em maquiagem · Imagens cedidas ao BHAZ

Geisa Rafaela de Souza, 40 anos

Empreendedora e recepcionista · Montes Claros, Norte de Minas

Estando desempregada, vi nisso uma vitrine e uma nova oportunidade

Na casa da empreendedora e recepcionista Geisa Rafaela de Souza, de 40 anos, o Bolsa Família foi fundamental para garantir a alimentação dela e do filho, hoje com 17 anos, e também representou o impulso inicial para a abertura do próprio negócio.

Moradora de Montes Claros, ela se inscreveu no CadÚnico em 2020, durante a pandemia de covid-19, após ficar desempregada. “Foi uma época difícil, porque eu estava sem trabalhar e sem renda, com um filho para criar. Embora o valor fosse pouco, ajudou bastante, principalmente na alimentação da minha casa”, disse.

Sem um emprego formal, Geisa encontrou na revenda de cosméticos e itens de perfumaria um caminho para conquistar a independência financeira. O “start” para o novo negócio veio dos elogios que recebia por “estar sempre cheirosa” e ser “vaidosa”. Em seis meses, deixou o programa. “Eu gosto muito de ver outras mulheres de alto astral. Então, como estava sempre cheirosa e arrumada, as pessoas ficavam me perguntando o que eu estava usando. Aí, estando desempregada, vi nisso uma vitrine e uma nova oportunidade”, relatou.

Geisa encontrou no Crediamigo, do Banco do Nordeste, a oportunidade de investir no próprio negócio. Um dos principais programas de microcrédito do Brasil, voltado a microempreendedores formais e informais, a iniciativa integra a ação “Acredita no Primeiro Passo”, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), e facilita o acesso a empréstimos para empreendedores inscritos no CadÚnico que buscam ampliar seus negócios.

Com o crédito obtido, Geisa passou a comprar mercadorias para revenda, representar marcas de cosméticos, como Mary Kay, e realizar atendimentos a domicílio. “Além dos produtos, consegui investir em cursos de maquiagem e design de sobrancelhas. Isso me permitiu conhecer novas marcas e ampliar meus atendimentos”, relatou. Pouco tempo depois, ela também conquistou um emprego formal em uma instituição pública da cidade. No entanto, como recebe um salário mínimo, o empreendimento ainda é fundamental para complementar a renda familiar.

“Guardo o sonho de ter a minha própria loja um dia. Desde criança, passava em frente a uma loja de O Boticário e ficava maravilhada com o perfume e a beleza do lugar. Sempre tive esse desejo de elevar a autoestima das pessoas por meio dos cosméticos, sabe? Tenho clientes que antes não gostavam de usar nada e que, hoje, se sentem completamente diferentes. Promover esse cuidado é muito gratificante”, finalizou.

03 Mulher realizada
Karine Rodrigues Ramos da Costa, 45 anos

Karine Rodrigues Ramos se orgulha de ser ‘referência’ · Imagens cedidas ao BHAZ

Karine Rodrigues Ramos da Costa, 45 anos

Comerciante · Montes Claros, Norte de Minas Gerais

Passei por muitas dificuldades, mas, a partir daquela primeira loja, só prosperei. Hoje, me sinto uma mulher completamente realizada

Karine Rodrigues Ramos da Costa, de 45 anos, é outro exemplo de ex-beneficiária que recebeu o Bolsa Família e, após abrir o próprio negócio, deixou o programa. Também moradora de Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, ela contou que precisou interromper os estudos na 5.ª série, para trabalhar e para ajudar nas despesas da casa. Aos 19 anos, passou a atuar com a mãe, vendendo bebidas em uma barraca durante festas na região.

“Nós participamos de eventos em cidades próximas, como Januária, Juramento e Bocaiúva. Montávamos a barraca na entrada das festas e ao lado dos palcos, quando havia shows. Isso nos ajudava bastante, mas sempre tive o sonho de crescer e precisava de dinheiro. Trabalho desde os 14 anos”, lembra.

A empreendedora contou que, em 2009, precisou se inscrever no CadÚnico, depois que a família viu a renda cair, ameaçando, inclusive, a sobrevivência do negócio. “Nós precisávamos comprar os itens da barraca. Além disso, tínhamos que viajar para chegar às cidades em que iríamos trabalhar, então havia o custo do combustível. O Bolsa Família foi fundamental para essa operação, pois me deu um impulso para trabalhar com a barraca e me trouxe segurança. Porém, eu queria mais”, relatou.

R$ 2 mil

foi o crédito liberado pelo Banco do Nordeste, quando outras instituições recusaram.

Karine Presentes

a loja que se tornou referência na cidade.

Ela também fez uso dos créditos do programa do Banco do Nordeste para alugar uma pequena loja. “Na época, cheguei a procurar outras instituições financeiras, mas diziam que eu não tinha possibilidade de obter um limite mais alto. O Banco do Nordeste, por sua vez, me acolheu, liberou R$ 2 mil, e eu me instalei em um pequeno ponto comercial”, disse.

A comerciante afirmou que vendia itens variados, desde brinquedos até acessórios, e que todo o valor obtido com as vendas era reinvestido no negócio. Com o tempo, a loja cresceu, ela conseguiu alugar um novo espaço e o estabelecimento se tornou referência na cidade. “Eu ia vendendo e comprando novas mercadorias. O banco também foi liberando mais crédito, e fui alavancando o meu negócio. Por isso, recebi o Bolsa Família por pouco tempo”, explicou.

Por meio da loja Karine Presentes, ela não apenas conseguiu criar o filho, de 14 anos, e ajudar o marido com as despesas, como também conquistou a casa própria, uma pequena fazenda e dois apartamentos alugados por meio da plataforma Airbnb. Hoje a empreendedora tem um “bom” patrimônio.

04 Sempre houve porta de saída
Júnia Rosa Gonçalves Rezende, 53 anos

Júnia Rosa abriu mão do benefício após o sucesso de vendas com o próprio negócio · Foto: Arquivo Pessoal

Júnia Rosa Gonçalves Rezende, 53 anos

Empresária · Santa Luzia, Região Metropolitana de BH

Se pegar R$ 200 para investir em algo que a pessoa saiba fazer bem, o dinheiro duplica ou até triplica

Embora tenham se intensificado nos últimos anos, como mostram os dados do Caged e do Sebrae, os programas de transferência de renda sempre contaram com movimentos que permitiram aos beneficiários encontrar, seja por meio do trabalho formal ou do empreendedorismo, uma ‘porta de saída’. As histórias da empresária Júnia Rosa e do estudante Antônio Rian são provas de que é preciso romper com esse preconceito.

A empresária Júnia Rosa Gonçalves Rezende, de 53 anos, foi beneficiária de um programa de transferência de renda por três anos. O desejo por autonomia financeira também fez com que ela buscasse aliar o valor recebido mensalmente a uma aposta empreendedora como forma de ampliar os ganhos. Deu tão certo que ela deixou de depender do benefício pago pelo Programa de Garantia de Renda Mínima (PGRM), ainda em 2000, antes do Bolsa Família ser instituído no Brasil.

Mãe solo de seis filhos, sendo um deles com paralisia cerebral, Júnia encontrou no ramo dos doces uma alternativa para conciliar o trabalho com os cuidados dedicados às crianças. Na época, ela morava em Santa Luzia, na Região Metropolitana de BH. “Fazia trufas, ovos de Páscoa, cestas de café da manhã, presentes para o Dia das Mães, Dia dos Namorados e outras datas comemorativas. Como precisava permanecer em casa para cuidar dos meus filhos, essa atividade acabou se tornando minha principal fonte de renda”, contou.

Em entrevista ao BHAZ, Júnia contou que não queria ficar “refém do comodismo” e, por isso, passou a investir parte do benefício no próprio negócio. “Quis sair da minha zona de conforto. Era interessante porque, às vezes, o valor que eu empregava retornava triplicado. Então, eu investia novamente. Com isso, consegui criar meus seis filhos. Um deles, inclusive, é engenheiro”, afirmou com orgulho.

Após alcançar uma renda mais estável, Júnia conta que fez questão de procurar a prefeitura para informar que não precisava mais receber o benefício. “Ele foi importante como um incentivo, entende? Naquela época, o valor era suficiente para comprar 10 kg de chocolate. Porém, com o passar do tempo, essa quantidade se tornou insuficiente, porque eu precisava de mais de 30 kg para atender à demanda. Assim, consegui conquistar minha própria independência”, relembra.

Embora tenha conseguido “colher bons frutos” com o trabalho de doceira, Júnia precisou passar por uma “virada de chave”, diante da pandemia de covid-19 e do aumento da concorrência no setor. Em 2020, ela começou a trabalhar com costura, inicialmente na confecção de máscaras e, atualmente, na produção de bolsas. “Hoje, produzo bolsas de diferentes modelos, tamanhos e estilos. Caso não venha a continuar a dar certo, com certeza arrumarei outra área para empreender”, reiterou.

Bolsas produzidas por Júnia Rosa
Bolsas produzidas por Júnia Rosa
Bolsas produzidas por Júnia Rosa

Bolsas e mochilas produzidas por Júnia · Imagens cedidas ao BHAZ

05 Desejo de deixar o Bolsa Família
Tatiana Porto Batista, 40 anos

Tatiana Porto, beneficiária do Bolsa Família, participa de cursos no Sebrae · Foto: Leonardo Fonseca

Tatiana Porto Batista, 40 anos

Empreendedora · Bairro Taquaril, Região Leste de BH

Meu objetivo é conquistar a independência financeira e não precisar mais do Bolsa Família

Embora muitas famílias tenham conseguido, em vários momentos e sob diferentes formatos, deixar os programas ao longo dos últimos anos, a entrada ou permanência de algumas ainda é necessária, mesmo num contexto de empreendedorismo. Nesses casos, o dinheiro recebido acaba sustentando, em parte, os investimentos, e a renda do negócio ainda não é suficiente para abrir mão da quantia transferida pelo governo.

É o caso da empreendedora Tatiana Porto Batista, de 40 anos, moradora do bairro Taquaril, na região Leste de Belo Horizonte, beneficiária do Bolsa Família. Para ampliar a renda e proporcionar uma vida melhor para ela e para os dois filhos, de 12 e 17 anos, ela comercializa cosméticos, acessórios e roupas. “O Bolsa Família ajuda bastante, mas, sozinho, não é suficiente. Tenho despesas com aluguel, água, luz e supermercado, e sabemos que, hoje em dia, nada disso está barato. Mesmo recebendo o benefício, nunca deixei de empreender”, disse em entrevista ao BHAZ.

Segundo Tatiana, a trajetória no empreendedorismo começou quando ela ainda mantinha um emprego formal. Na época, o ex-marido havia ficado desempregado e ela precisou assumir sozinha as despesas da casa e dos filhos. Para complementar a renda, conciliava o trabalho em um hospital com a venda de cosméticos.

Em 2023, após ser demitida, Tatiana passou a se dedicar integralmente ao empreendedorismo. Com a instabilidade da renda obtida com as vendas, decidiu se inscrever no CadÚnico em outubro de 2025. “Consegui segurar as pontas porque já mexia com as vendas. Entretanto, a situação começou a ficar delicada, porque tinha mês em que eu vendia bem e outro em que não vendia tanto assim”, afirmou.

Para aprimorar a administração da atividade, Tatiana buscou cursos de capacitação e passou a integrar o programa Comunidade Empreendedora, do Sebrae, voltado ao fortalecimento de negócios locais em vilas, favelas e periferias. “Sempre busco me aprimorar com os cursos do Sebrae e do Senac, porque eles agregam conhecimento e me permitem oferecer mais produtos e serviços. Meu objetivo é conquistar a independência financeira e não precisar mais do Bolsa Família”, disse.

06 Saída pelo emprego
Antônio Rian Araújo dos Santos, 19 anos

Antônio Rian Araújo dos Santos · Imagens cedidas ao BHAZ

Antônio Rian Araújo dos Santos, 19 anos

Orientador social e estudante de Letras da UFMG · Região do Barreiro

Depois da escola, consegui participar das ações do Cras, algo que foi fundamental para minha aprovação na universidade

Como mostram os números do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), a melhora da renda também se dá pelo mercado de trabalho. Para o jovem Antônio Rian Araújo dos Santos, ter encontrado um emprego formal fez com que não precisasse mais do Bolsa Família. Ele é parte de um contingente que lidera a saída do programa, em razão de critérios como idade e renda conquistada por meio de uma ocupação. Entre 2023 e 2025, mais de 76% dos beneficiários que foram desligados tinham entre 15 e 18 anos. À época, Antônio tinha 19 anos.

Taxa de saída por faixa etária

Beneficiários de 2014 e situação em 2025 · % que deixou o programa

0%
25%
50%
75%
100%
média 60,68%
41,26
55,19
68,80
71,25
63,46
0–5
6–10
11–14
15–17
18+

Reprodução / Pesquisa Filhos do Bolsa Família (FGV)

Atualmente trabalhando como orientador social e cursando Letras na UFMG, ele conta que o programa garantiu direitos fundamentais durante a infância e a adolescência. Graças aos recursos, o jovem conseguiu estudar e participar das atividades do Centro de Referência de Assistência Social (Cras Petrópolis), na Região do Barreiro.

“Na minha casa, éramos seis pessoas. E ajudou muito, porque eu não precisava trabalhar e, depois da escola, consegui participar das ações do Cras, algo que foi fundamental para minha aprovação na universidade”, conta.

Com a conquista de um emprego, a família deixou de receber o benefício. “Quando tínhamos o benefício, foi muito positivo. Nós passamos por uma fase em que somente a minha mãe trabalhava e, embora o valor fosse baixo, auxiliava na compra de alimentos e de outros itens essenciais. O que recebíamos já fazia diferença”, conta.