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Blokecore: camisas de futebol viram tendência em BH e caem no gosto até de quem não gosta de esporte

21/06/2026 às 09h45 - Atualizado em 21/06/2026 às 10h07
(Lavínia Fernandes/BHAZ + Arquivo pessoal)

Durante décadas, as camisas de futebol estiveram associadas principalmente aos estádios, às torcidas e aos dias de jogo. Nos últimos anos, porém, elas passaram a ocupar outro espaço: o da moda. O crescimento do chamado blokecore — tendência que incorpora peças esportivas ao vestuário cotidiano — ajudou a transformar camisas de clubes em itens desejados por públicos muito além dos torcedores.

Em Belo Horizonte, esse movimento tem fortalecido brechós, impulsionado lojas colaborativas e criado novas oportunidades dentro da economia criativa.

(Lavínia Fernandes/BHAZ + Reprodução/Pinterest + Arquivo pessoal)

Segundo a analista do Sebrae Minas, Michelle Chalub, a economia criativa é baseada na criatividade, na cultura, no conhecimento e na capacidade de transformar ideias em negócios. Nesse cenário, os brechós deixaram de atuar apenas como pontos de revenda de roupas usadas para oferecer curadoria, identidade e experiências de consumo.

“O brechó não vende apenas uma peça. Existe um trabalho de seleção, construção de marca e conexão com o consumidor. É um segmento que se insere diretamente na economia criativa”, afirma a analista.

Quando o futebol encontra a moda

O que antes era visto principalmente como uniforme de torcedor hoje aparece em bares, festas, eventos culturais e no dia a dia de pessoas que nem sempre acompanham futebol. A popularização das camisas esportivas como item de moda ajudou a criar um mercado que vai além das lojas oficiais dos clubes e encontrou nos brechós um terreno fértil para crescer.

Foi observando esse movimento que Vitória de Souza Andrade começou a direcionar seu negócio para as peças esportivas. Quando iniciou as vendas pela internet, em 2018, ela não trabalhava exclusivamente com camisas de futebol. Aos poucos, porém, percebeu que algumas peças chamavam mais atenção do que outras. “Eu pegava as coisas que achava bonitas e vendia. Com o tempo, fui vendo que as camisas tinham uma procura muito grande.”

Vitória de Souza Andrade, fundadora do brechó Sociedade 21. (Arquivo pessoal)

Segundo ela, a mudança aconteceu ao mesmo tempo em que as camisas deixavam de ser um item restrito aos torcedores. O público interessado começou a se diversificar e passou a incluir pessoas atraídas pela estética, pela história e até pela exclusividade das peças.

Para o professor e coordenador do curso de Moda do Centro Universitário UNA, Fernando Barcellos, essa transformação ajuda a explicar o crescimento do segmento. Na avaliação dele, a camisa de futebol passou a ocupar um espaço que antes pertencia a outras peças clássicas do vestuário urbano.

“A camisa passou a ser mais um produto de moda do que propriamente uma vestimenta que caracteriza um time”, afirma Fernando.

A força das redes sociais também contribuiu para esse processo. Jogadores de futebol passaram a influenciar tendências de comportamento e estilo, enquanto conteúdos ligados à moda ampliaram a circulação das camisas para além do universo esportivo.

Mas, para Vitória, existe um fator que diferencia esse mercado de outros segmentos da moda: a história. “Muita gente compra pela estética, mas a camisa carrega um significado. Ela tem uma memória, uma história”, afirma Vitória.

(Lavínia Fernandes/BHAZ)

Essa relação com a memória é justamente um dos fatores que aproximam o setor da economia criativa. Segundo a analista do Sebrae Minas, negócios desse segmento geram valor não apenas pelo produto comercializado, mas também pela narrativa construída em torno dele.

“Existe um trabalho de curadoria, de identidade da marca e de conexão com o consumidor. Isso é economia criativa”, afirma Michelle.

Em Belo Horizonte, quase 600 pequenos negócios formalizados atuam no segmento de brechós, segundo dados do Sebrae Minas. Para Michelle, o crescimento do setor está ligado à capacidade de transformar cultura, comportamento e criatividade em oportunidades de negócio.

A Cúpula

Abrir uma loja física era um desejo compartilhado por Vitória Andrade, Andrezza Maris e Thays Baesse, mas também um desafio. Depois de anos tocando seus negócios de forma independente, elas se depararam com uma realidade conhecida por muitos pequenos empreendedores: os custos para manter um espaço próprio. A solução surgiu justamente daquilo que hoje define o projeto que construíram juntas: a colaboração.

Da esquerda pra direita: Andrezza Maris, Thays Baesse e Vitória Andrade. (Arquivo pessoal)

Foi assim que nasceu A Cúpula, brechó colaborativo localizado no Centro de Belo Horizonte. Mais do que dividir um endereço, o espaço reúne três trajetórias que se cruzam há anos e que encontraram no trabalho coletivo uma forma de crescer sem abrir mão da identidade de cada negócio. Veja o vídeo sobre a tendência:

A história começou muito antes da abertura da loja. Andrezza Maris, fundadora do Kubrick Brechó, e Vitória Andrade, da Sociedade 21, se conheceram ainda adolescentes por meio do skate. A amizade atravessou diferentes fases da vida e também os primeiros passos no universo dos brechós. As duas chegaram a criar juntas um perfil de vendas nas redes sociais, experiência que serviu como porta de entrada para o mercado de moda circular.

Com o passar do tempo, cada uma desenvolveu seu próprio negócio, mas a ideia de ter um espaço físico permaneceu. Frequentadoras de feiras e eventos voltados para moda independente, elas passaram a enxergar a possibilidade de construir algo maior em conjunto.

Foi nesse contexto que surgiu a aproximação com Thays Baesse, fundadora do Viaduto Brechó. A convivência em feiras e a troca constante de experiências fizeram com que a parceria surgisse de forma natural. Antes mesmo da loja existir, as três já compartilhavam dúvidas, desafios e aprendizados da rotina de quem vive da própria marca.

A procura do espaço físico

A busca pelo espaço ideal foi feita em conjunto e culminou na criação da A Cúpula. Desde então, as empreendedoras dividem despesas, responsabilidades e a administração do espaço, mantendo a identidade de cada brechó, mas trabalhando em uma lógica de apoio mútuo. Conheça A Cúpula:

(Arquivo pessoal)

“O que seria muito difícil sozinha acabou se tornando possível quando a gente começou a pensar junto”, resume Vitória.

Para Andrezza, a força do projeto está justamente na confiança construída ao longo dos anos. Segundo ela, a relação entre as três vai além da divisão de custos e se reflete na forma como o negócio é administrado diariamente, com decisões tomadas em conjunto e responsabilidades compartilhadas.

A lógica colaborativa também se tornou um diferencial do espaço. Embora atuem em nichos semelhantes, as três não se enxergam como concorrentes. A proposta é que o crescimento de uma impulsione as demais, em um ambiente marcado pela troca de referências, apoio mútuo e construção coletiva.

“Nós somos muito parceiras. Existe responsabilidade, mas também compreensão a realidade de cada uma”, afirma Thays.

A relação construída dentro da loja vai além da administração do espaço. Quando uma precisa se ausentar, as outras assumem parte da rotina. Quando surgem dúvidas ou dificuldades, as soluções costumam ser discutidas coletivamente. O que começou como uma estratégia para reduzir custos acabou se transformando em uma rede de apoio.

Esse modelo dialoga diretamente com os princípios da economia criativa. Segundo a analista do Sebrae Minas, Michelle Chalub, iniciativas colaborativas fortalecem pequenos empreendedores ao estimular conexões, compartilhamento de recursos e construção conjunta de valor.

Na prática, A Cúpula funciona como um reflexo dessa lógica. Em vez de disputar espaço em um mercado cada vez mais competitivo, as três empreendedoras decidiram crescer juntas. O resultado é um ambiente onde moda, criatividade e colaboração ocupam o mesmo lugar.

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Classificação etária: Livre
Entrada: Gratuita

Lavínia Fernandes

Jornalista formada pela PUC Minas. Publicou um artigo sobre alfabetização midiática pela Intercom. Foi estagiária de assessoria de comunicação na ALMG. Repórter no BHAZ desde novembro de 2024.
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