Fé, macumba, música e brasilidade resumem o universo criado por Anitta em “Equilibrium”, lançado em abril deste ano, que mistura espiritualidade, ancestralidade afro-brasileira e uma sonoridade que transita entre o sagrado e o popular. Na última quinta-feira (23), a cantora completou o quebra-cabeça artístico com o lançamento da segunda parte do trabalho, movimentando a indústria fonográfica. Além da música, os figurinos também ganharam destaque. Assinadas por designers brasileiros, as peças ajudaram a construir uma narrativa visual alinhada ao conceito do projeto. Entre os estilistas convidados está o mineiro Ronaldo Fraga.
Em conversa com o BHAZ, Ronaldo afirmou que a escolha dos designers foi feita pela própria Anitta. Além dele, também participam do projeto nomes como Helô Rocha, Penha Maia, Camila Klein, Isabela Capeto, Victor Hugo Mattos, Madame Sher e Adriana Meira. “Ela sugeriu que fossem estilistas brasileiros, porque no projeto ela trabalha a coisa do Brasil e, por isso, queria vestir moda brasileira”, disse.
O estilista mineiro contou que o vestido escolhido para a música “Deus Mãe” é uma peça confeccionada com patchwork de crochê e bordados. O modelo faz parte da coleção “Minas/Nascimento”, lançada em outubro do ano passado como uma homenagem a Milton Nascimento.
“É um look feito em crochê de palha da costa e fio de seda. Fiz desenhos como se fossem mandalas, e a crocheteira foi Mariane Sampaio, uma artesã da região do Vale do Jequitinhonha. É uma peça feita à mão”, explicou.
‘Ética e estética
Ao longo da carreira, Ronaldo já vestiu diferentes artistas, incluindo Milton Nascimento, na turnê de despedida ‘A Última Sessão de Música’, em 2022. O estilista relatou que assinar um dos figurinos de “Equilibrium” foi uma experiência bastante especial.
“É uma menina que, quando você observa a trajetória dela, percebe que ela nunca teve medo. E, para mim, os verdadeiros artistas são aqueles que caminham por terrenos mais difíceis, que se arriscam. Ela começou no funk, vem aprimorando cada vez mais a sua voz e ampliando o diálogo com diferentes temas, muito além de simplesmente fazer um disco brasileiro. Além disso, ela fala e flerta diretamente com uma religião que sempre foi demonizada no Brasil, que são as religiões de matriz africana”, disse.
Para ele, outro fator que chama atenção é o fato de a cantora fazer questão de usar figurinos que captam a essência do universo artístico, com acessórios simbólicos e referências à Umbanda e ao Candomblé.
“Eu acho que esse trabalho da Anitta alcançou esse sucesso porque reúne ética e estética no mesmo lugar. Isso também passa pela escolha dos estilistas. Hoje, muitos artistas acham bonito vestir marcas gringas, europeias, mas a Anitta fez o contrário e valorizou profissionais brasileiros. No próprio Instagram, ela incentiva o público a conhecer e prestigiar esses estilistas. Sou muito fã da Anitta e sempre fui. E passei a admirá-la ainda mais à medida que ela vai abrindo caminhos que considero mais do que necessários para o momento que estamos vivendo”, finalizou.
Relação com Minas Gerais
Além de Ronaldo Fraga, Equilibrium também reúne outros talentos mineiros. No primeiro volume do projeto, a cantora Marina Sena, natural do Norte de Minas, divide os vocais com Anitta na faixa “Mandiga”. Já a coreografia de “Desgraça” foi criada por Cassi Abranches, diretora do Grupo Corpo, de Belo Horizonte, que também assinou a coreografia do videoclipe de “Girl From Rio”, lançado em 2022.
Outro destaque do projeto foi o cenário escolhido para as gravações da primeira parte: Ibitipoca, na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais. As filmagens ocorreram durante seis dias no chamado Projeto Ibiti, um povoado em área remota que recebeu uma estrutura cenográfica e maquinário montados especialmente para a produção.
A iniciativa mobilizou cerca de 220 profissionais de diferentes regiões do país, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Manaus, Salvador e João Pessoa, além de outras cidades brasileiras.
Lançado três meses depois, Equilibrium II encerra o projeto, prestando homenagem a grandes nomes da cultura brasileira, como Carmen Miranda, e reunindo participações de artistas como Mart’nália, Maria Bethânia, MC Tha, Letícia Fialho e Alceu Valença. A espiritualidade de matrizes africanas também ocupa papel central na narrativa do álbum, refletida tanto nas letras quanto na estética dos videoclipes.
Em menos de 24 horas de lançamento, o disco ultrapassou 10 milhões de reproduções e emplacou seis faixas simultaneamente no Top 50 Brasil do Spotify.
Nas redes sociais, Anitta comentou sobre a importância e o caráter pessoal do projeto. “Me coloquei inteira nesse disco. Quem ouvir vai perceber isso. São músicas que têm muito da minha espiritualidade, da minha visão de mundo, das brasilidades que me encantam e pitadas autobiográficas também”, disse.











