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A professora por trás da escola de BH com a nota mais alta em redação no Enem

08/07/2026 às 13h49 - Atualizado em 08/07/2026 às 14h41
A professora por trás da escola de BH com a nota mais alta em redação no Enem
Colégio Piedade, no Calafate, é líder na redação do Enem em BH, com média de 877,7. (Imagens cedidas ao BHAZ)

Corredores estreitos, janelas de ferro e azulejos azuis portugueses convivem com nichos que abrigam imagens de santos católicos – remanescentes do convento que funcionou ali no início do século XX. No mesmo espaço, bandeirolas verdes e amarelas, confeccionadas por alunos da educação infantil em clima de Copa do Mundo, dividem lugar com o mural colorido que anuncia a temporada junina. O contraste sintetiza a identidade do prédio histórico, tombado pelo patrimônio de Belo Horizonte desde 2018, e introduz o cotidiano de crianças, adolescentes, professores e funcionários que circulam pelo Colégio Nossa Senhora da Piedade.

Fundada há 87 anos, no bairro Calafate, na região Oeste da capital mineira, a escola particular preserva as raízes na tradição católica enquanto busca conciliar história e contemporaneidade. A proposta tem rendido resultados. Há dois anos, a instituição, que atualmente conta com 463 alunos, alcançou a maior média na redação do Enem entre as escolas da capital mineira, feito que contrasta com o cenário de cinco anos atrás, quando o reduzido número de estudantes concluintes fazia com que o colégio ainda não figurasse entre os destaques. Parte dessa conquista passa pelo trabalho da professora Jacqueline Calisto Costa, de 36 anos, que, desde 2021, integra o corpo docente do Piedade.

A reportagem foi até a instituição não apenas para conhecê-la, mas para entender o método de ensino que levou um colégio de pequeno porte – sobretudo quando comparado a gigantes da rede particular da capital – ao topo do ranking da redação do Enem, com 877,86 pontos na prova de redação, média alcançada por uma turma de 28 estudantes. Considerando todas as áreas avaliadas pelo exame de 2025, a nota geral da escola cai para 661,26. Sem a redação, a pontuação foi de 607,11.

Em conversa com o BHAZ, os alunos do terceiro ano não hesitam em descrever Jacqueline como uma professora “rígida”, “exigente” e, por vezes, “brava”. A firmeza, no entanto, convive com o carinho e a terna admiração perceptíveis em relatos como: “Ela é a melhor professora que já tive” e “Sem ela, não teria melhorado tanto a minha escrita”. Não é preciso muito tempo para perceber que Jacque, como é carinhosamente conhecida na escola, é daquelas professoras que marcam a vida da gente.

‘A maior dificuldade dos alunos é a escrita’

Basta Jacqueline surgir pelos corredores para que os relatos dos alunos façam sentido. Elegante, maquiada e de postura firme, a professora transmite a seriedade que, segundo eles, também marca a forma de ensinar. No Colégio Nossa Senhora da Piedade, ela começou dando aulas de redação para as turmas do ensino fundamental II, do 6º ao 9º ano. Com o tempo, passou a assumir também as classes do ensino médio.

Para Jacqueline, esse percurso é um privilégio, já que permite acompanhar os estudantes desde os primeiros anos da adolescência até a reta final da vida escolar. “Hoje, trabalho língua portuguesa com os meninos do fundamental, enquanto dou aulas de redação para o ensino médio. É muito legal, porque consigo acompanhar a evolução que a escola proporciona aos estudantes”, afirma.

Foi justamente esse acompanhamento ao longo dos anos que fez Jacqueline perceber que a maior dificuldade dos alunos está na escrita. A professora afirma que eles não têm o hábito de escrever, e o avanço de ferramentas tecnológicas, como o ChatGPT, torna a prática ainda menos frequente. “É uma ferramenta que vai fazer tudo para eles. Então, é muito preocupante. E isso está escalando não apenas para dentro da escola, mas também para as universidades, embora, neste caso, veja que há um discernimento. No caso dos adolescentes, não há, o que torna um pouco complexo”, explica.

(Gabriela Fagundes/BHAZ)

Para contornar a situação, ela conta que, ainda durante o ensino fundamental II, trabalha a importância da escrita e, sobretudo, do pensamento crítico. Para a professora, não basta saber se comunicar bem, é preciso conhecer os acontecimentos do mundo que os cerca e construir argumentos com credibilidade. É apenas a partir das turmas do 9º ano ao 3º ano do ensino médio que Jacqueline começa a trabalhar a estrutura da redação dissertativo-argumentativa, modelo cobrado no Enem.

“A gente sabe que a língua portuguesa fica chata a partir do momento em que você tem que escrever. E eles têm tudo muito fácil na mão com o celular. Por isso, em sala de aula, sugiro debater primeiro sobre o assunto, entender o que está acontecendo na sociedade e, só depois, passar para o papel. Falo para eles que, apesar de estarmos em uma escola tradicional, o Piedade me dá essa abertura para conversar sobre qualquer tema. O Enem quer saber a sua visão diante das coisas do mundo”, reflete.

A tradição a que Jacqueline se refere não está apenas na forma de ensinar. Ela está presente na própria história da escola, pertencente à Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade, fundada em 28 de agosto de 1892 pelo monsenhor Domingos Evangelista Pinheiro. Ao todo, a Rede Piedade reúne nove instituições de ensino, cinco delas em Minas Gerais.

Em Belo Horizonte, o colégio funciona em um prédio centenário que, antes de abrigar salas de aula, foi um convento. No fim da década de 1930, a instituição passou a oferecer o tradicional curso de magistério, voltado exclusivamente para meninas. Hoje, recebe estudantes do maternal ao 3º ano do ensino médio, mas preserva as marcas desse passado. Nos fundos do prédio, após o grande pátio, ficam a sala de artesanato e um pequeno parque aquático. Dali, uma passagem liga a escola à casa onde vivem seis freiras da congregação, mantendo o antigo convento integrado ao cotidiano do colégio.

‘Não há uma fórmula para tirar nota 1000’

Conforme a professora, uma das prioridades em sala de aula é tirar os alunos da zona de conforto e, sobretudo, da “bolha” em que vivem, muitas vezes restrita à escola, à casa e às redes sociais. Para isso, ela promove debates sobre temas ligados à saúde, à educação, ao meio ambiente, à tecnologia e aos direitos de crianças e adolescentes.

“Por exemplo, no 9º ano, já abordamos o feminicídio. Coloco eles para pesquisarem quantas mulheres morrem por ano em Minas Gerais. Isso é fundamental, porque dá sustentação aos argumentos do aluno. Hoje, a banca do Enem não quer um texto estrutural, mas um texto mais fluido. O interesse é saber o que o participante pensa sobre aquele tema, respaldado em fatos, dados e fundamentos”, afirma.

Jacqueline considera essencial ampliar o repertório dos estudantes para além das referências “coringas” – aquelas que podem ser aplicadas a praticamente qualquer tema, como artigos da Constituição Federal ou o conceito de modernidade líquida, do sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman. Na tarde em que o BHAZ esteve no colégio, por exemplo, a discussão girava em torno da gordofobia. Como ponto de partida para a reflexão, a turma assistiu a trechos do filme A Baleia (2022), dirigido por Darren Aronofsky e estrelado por Brendan Fraser. Vencedor de dois Oscars em 2023, o longa aborda temas como isolamento, compulsão alimentar e saúde mental.

Depois da discussão, os próprios estudantes elaboram textos motivadores, inspirados no modelo do Enem, e utilizam esse material para delimitar o tema e orientar a produção da redação. Em seguida, aprofundam a pesquisa em fontes confiáveis, como sites do governo e levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “É muito fácil para o professor de redação chegar e dar uma estrutura, e o aluno simplesmente copiar e colar. A nossa ideia não é essa. Aqui, nenhum dos alunos fica perguntando qual será o tema do ano ou tentando adivinhar. Não interessa qual é o tema, porque eles conseguem argumentar em cima de qualquer temática”, diz a professora.

A docente também considera que outra estratégia para desestimular o uso da inteligência artificial é não atribuir nota às redações semanais. Os textos recebem apenas uma avaliação simbólica nos moldes do Enem, sem impacto na média dos estudantes. Segundo ela, isso incentiva os alunos a escreverem com foco no aprendizado e no aperfeiçoamento da escrita. “As provas, sim, são pontuadas, porque, no fim do semestre, elas são necessárias para fechar o diário. Nesses casos, eu atribuo duas notas: a da escola e a do Enem. Um aluno que tira 8,8, por exemplo, significa que, no exame, faria 880 pontos, e isso é considerado uma nota baixa. Sempre digo a eles que quero mais, porque são capazes. Percebo que eles dão mais importância à nota do Enem”, conta.

Quando diz que os alunos são capazes de ir além, Jacqueline fala com convicção. Em conversa com a reportagem, a professora foi categórica ao afirmar que nunca atribuiu nota mil a uma redação, embora reconheça que alguns estudantes já tenham produzido textos compatíveis com a pontuação máxima. Para ela, conceder essa nota pode “iludir” o estudante e transmitir uma falsa sensação de segurança às vésperas do Enem. “Temos visto que, a cada ano, o número de participantes que conquistam a nota mil diminui. No ano passado, apenas 10 candidatos alcançaram essa pontuação, em um universo de quatro milhões de participantes. É um grupo muito seleto, entende? Meus alunos sabem disso, e eu faço questão de mostrar que o texto precisa ser natural. Não existe uma fórmula para tirar mil. Essa nota é consequência”, ressalta.

A cobrança da professora foi encarada como incentivo pelo estudante do 3º ano Gustavo Vilaça, de 17 anos. A meta dele é conquistar a nota mil na redação do Enem. Treineiro nos últimos dois anos, o adolescente, que pretende cursar Jornalismo e Educação Física, já obteve 960 pontos e agora acredita estar preparado para alcançar o desempenho máximo. Ele atribui parte desse resultado ao trabalho de Jacqueline. “É a melhor professora que já tive na minha vida. E redação é exatamente o que ela fala: ‘a prática leva à perfeição’. Ela ensina muita coisa mesmo”, garante.

Parceria e carinho

Na avaliação de Jacqueline, o único “segredo” para alcançar uma excelente nota é aliar a prática constante da escrita à leitura, fundamental para a construção de um repertório consistente. Os alunos já conhecem de “cor e salteado” o nível de exigência da professora: a meta é alcançar, no mínimo, 920 pontos na redação. “Sou muito competitiva e chata com nota. Até mesmo com os meninos do 1º ano, que são treineiros, quando chegam dizendo que tiraram 880, eu sempre brinco: ‘não aprendeu nada comigo, né?’. Porque a gente sabe que eles podem sempre mais. Com o 3º ano, então, nem preciso falar. Eles já sabem que a meta é tirar acima de 920”, cobra a professora.

Jacqueline também adota essa postura por acreditar que a escrita está em constante desenvolvimento e que o Enem é apenas uma etapa na trajetória dos estudantes. Por isso, incentiva a leitura e o enriquecimento do vocabulário dos alunos como parte do processo de aprimoramento da escrita.

“Brinco com eles que o texto é um saco de pancadas. Você vai bater, bater e bater até olhar e pensar: ‘agora acho que está bom’. E, ainda assim, não vai estar, porque sempre é possível melhorar. Eles não estão escrevendo apenas para o Enem, mas para a vida, seja no trabalho, ao redigir um e-mail…”, argumenta.

Gustavo afirmou que, além de seguir fielmente as orientações da professora, adota o hábito de reler as redações que conquistaram nota mil em edições anteriores do Enem. “São textos que estão em outro patamar de argumentação e vocabulário. Isso ajuda a inspirar”, diz.

A estratégia também é adotada pelo colega de turma Murilo de Bellis, de 17 anos. Na edição anterior do exame, ele alcançou 940 pontos. “É um vocabulário diferente, uma consistência argumentativa muito mais sólida. Mesmo assim, sempre busco orientação com a Jacqueline, porque confio mais nela”, afirma o estudante, que pretende ingressar no curso de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Já Isabela de Azevedo, de 18 anos, prefere ampliar o repertório por meio dos filmes e das séries indicados pela professora. “Faço isso com frequência, o que permite ampliar meu contexto cultural”, afirma. Nos dias que antecedem a prova, ela também recorre à fé para lidar com a ansiedade. “Gosto de ir à missa e pedir a Deus para me ajudar. Mas, é claro, não deixo de fazer a minha parte, acompanhando as aulas e estudando as disciplinas do colégio (risos). Só rezar não basta”, relata.

‘A vida não é um morango’

O método desenvolvido por Jacqueline integra a reestruturação do colégio, que, desde 2022, está sob a direção de Kelly Cristina Marques, de 46 anos – a primeira dirigente não religiosa da instituição. Em parceria com a coordenadora pedagógica, Marcela Guerra, de 39 anos, a gestão implementou um trabalho voltado à melhoria dos resultados e à ampliação do número de alunos em todos os segmentos da escola.

Kelly e Marcela (Gabriela Fagundes/BHAZ)

“É uma responsabilidade muito grande cuidar de um legado que tem mais de 100 anos. Mas, quando fui chamada para assumir a direção pela irmã Terezinha, que ocupa o cargo de vice-diretora, perguntei se poderia propor novas ideias. Queria tornar o colégio reconhecido e fazer com que as pessoas se lembrassem dele; afinal, temos uma infraestrutura maravilhosa. Antes, a escola estava esquecida, mesmo tendo sido uma referência anos atrás na área do magistério”, afirma Kelly.

Para Marcela, o papel da escola não está restrito à preparação para o vestibular, mas também à formação integral dos estudantes. “A gente trabalha para que eles saibam conversar, tenham pensamento crítico e não sejam massa de manobra. Por isso, cobramos tanto em todas as áreas e matérias. O nosso intuito é abrir a janela para que eles possam pensar o mundo”, explica.

Por trás da busca por uma nota alta, a escola aposta em um equilíbrio entre exigência e acolhimento. Na avaliação de Marcela, preparar os jovens para o Enem também envolve ajudá-los a lidar com as próprias inseguranças e com os desafios da adolescência. “Não temos uma relação numérica com eles. Existem estudantes que estão aqui a vida inteira. Percebemos que essa geração enfrenta dificuldades para lidar consigo mesma e com o mundo. Às vezes, eles precisam de um tempo para respirar, e terão esse tempo. Mas, ao mesmo tempo, também são chamados à responsabilidade. É como a orientadora sempre diz: ‘a vida não é um morango’. Não é fácil, e a realidade precisa ser apresentada. Não dá para fazer apenas o que dá prazer ou aquilo que agrada”, afirmou.

Essa mesma preocupação orienta o trabalho de Jacqueline com os alunos que se preparam para o Enem. Segundo ela, a relação humanizada é o que faz toda a diferença. Durante a preparação para o vestibular, ela faz questão de conversar com os alunos, especialmente na semana que antecede o exame. “Eles vão fazer redação? Não vão mais, porque já sabem o que têm que fazer. A gente fala sobre a questão da ansiedade, sobre essa vontade de provar para a sociedade que é capaz de passar em uma universidade federal. Às vezes, nem é tanto por eles, mas pelo pai, pela mãe, pela família que pagou uma escola cara. A gente vai entrando nisso até eles se acalmarem e entenderem que é só uma prova e, chegando lá, vão dar o melhor deles”, finalizou a professora.

Ana Magalhães

Jornalista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi estagiária do Jornal Estado de Minas e do programa Agenda da Rede Minas de Televisão. Repórter do BHAZ desde agosto de 2024.
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