Um estudante universitário, 22, usou as redes sociais para relatar o que considera um caso de discriminação e descaso. Gabriel Souza conta ter sido ignorado no primeiro dia dele em uma academia localizada no bairro Floresta, região Leste de Belo Horizonte. Segundo o jovem, ao perceber o tratamento recebido, tentou cancelar o plano junto à academia Pratique, ainda no mesmo dia, mas foi novamente desprezado no local – além de não receber de volta o dinheiro pago para dar início às atividades físicas no espaço. Em resposta enviada ao BHAZ na tarde desta sexta (8), a Pratique afirma que “os fatos narrados pelo consumidor não ocorreram como por ele afirmado” e que “tem como filosofia a inclusão de pessoas, sejam alunos ou funcionários, com incentivo aos bons costumes” e “respeito às individualidades” (veja na íntegra abaixo).
Gabriel relata ao BHAZ que foi até a academia na terça-feira (5) para realizar a matrícula. Chegando lá, recebeu a oferta de um plano e, como conta, os problemas no atendimento começaram naquele momento. “Não me falaram quais eram meus benefícios, quais modalidades da academia eu podia acessar. Só me informaram que para começar a malhar eu tinha que assinar o plano e pagar a primeira mensalidade no ato”, detalha.
O estudante diz que observou outros clientes no local sendo atendidas e orientados pelos funcionários, porém, este não foi o caso com ele, mesmo depois de contratar o plano e pagar a mensalidade de R$110. “Nenhum profissional me atendeu, ninguém me apresentou o espaço, os equipamentos, não mostraram nem onde era o banheiro. Foi uma situação que eu vi que aconteceu somente comigo, as outras pessoas estavam sendo bem tratadas, bem recebidas”, relembra.
Gabriel chegou a se exercitar na academia naquele dia, mas, frustrado com o tratamento, decidiu cancelar o plano logo após a contratação. Ao retornar à recepção para pedir o fim do plano, foi informado de que deveria pagar uma taxa de R$100 de anuidade. Gabriel também solicitou o valor da mensalidade de volta, já que não retornaria à academia, mas não conseguiu o estorno.
“Apesar da cláusula do contrato, faltou o mínimo de humanidade. Eu percebi que o ‘buraco era mais embaixo’. Quando eu falei que ia cancelar, ninguém perguntou porque. O meu dinheiro vale menos? Pareciam aliviados, como se pensassem: ‘isso não é um espaço pra você’. E foi assim que eu me senti, como se eu não fosse bem-vindo naquele local”, desabafa.
Mais descaso
No dia seguinte, na quarta-feira (6), Gabriel decidiu voltar à academia e explicou toda a situação aos atendentes. O estudante pediu novamente o reembolso do valor da mensalidade, já que usou o serviço somente por um dia, mas teve o pedido negado novamente. A justificativa era que ele havia assinado o contrato presencialmente. Ele foi orientado a procurar o SAC da academia para tentar resolver a situação.
Após passar a tarde inteira tentando resolver o problema pelo canal indicado, Gabriel recebeu a orientação de procurar a coordenadora da Pratique Floresta. De volta ao estabelecimento, ele explicou a orientação na recepção. “A funcionária falou que a coordenadora não estava e que não sabia quando ela estaria lá. Eu pedi o contato e a atendente disse que não tinha o contato. A única coisa que ela podia fazer era anotar meu nome e meu telefone para quando a coordenadora passasse por lá”, narra o estudante.
Gabriel também tentou contato com a unidade pelo WhatsApp, mas também não obteve retorno. Ele pediu que duas amigas que não são negras enviassem mensagens, pedindo outras informações, e elas foram respondidas em 30 minutos. “Eu voltei lá ontem, para tentar resolver pela última vez. A atendente já estava até virando o olho enquanto eu falava. Durante o meu atendimento, ela interrompia para brincar e conversar com outros clientes. É uma questão de respeito”, diz o universitário.
Repercussão nas redes
Sem resposta da empresa e frustrado com o tratamento recebido, Gabriel resolveu usar as redes sociais para divulgar o caso. As postagens começaram a ganhar repercussão e amigos dele também cobraram um posicionamento da academia, que bloqueou o próprio Gabriel e quem mais pedia por respostas.
“Eu realmente acredito que é um problema muito mais embaixo. Estamos em uma situação em que essas coisas não são mais aceitáveis e nem são tão veladas assim. Eu não estava pedindo um favor, eu paguei para estar naquele local, então eu deveria ser bem tratado como todas as pessoas estavam sendo. Eu só quero ser bem recebido como todos foram, mas sei que não fui bem tratado por outros fatores”, desabafa.
gente como não consigo resolver pessoalmente, nem por telefone, e eles bloquearam a mim e aos meus amigos que estavam cobrando um posicionamento no instagram, segue o FIO de como a academia PRATIQUE FITNESS em BH foi RACISTA comigo. por favor me ajudem com o RT pic.twitter.com/UOui80m4e0
— gabriel (@thendofgabs) April 8, 2022
Pratique entra em contato
Na manhã desta sexta-feira (8), após o caso repercutir nas redes sociais, a coordenadora da unidade Floresta entrou em contato com Gabriel. Ele diz que ela foi solícita, se desculpou pela situação e tentou entender tudo que havia acontecido. O estudante relata ter conseguido o estorno tanto da mensalidade quanto da anuidade.
O BHAZ tentou entrar em contato com a Pratique, por meio do SAC, pelo WhatsApp da unidade Floresta e por mensagens no Instagram. Porém, não obteve retorno em nenhum dos canais. Assim que a empresa se manifestar, a matéria será atualizada.
Nota da Pratique na íntegra
“Os fatos narrados pelo consumidor não ocorreram como por ele afirmado, e pelos possíveis impactos negativos à imagem da empresa, as alegações serão tratadas de maneira criteriosa e adequada. A empresa tem como filosofia a inclusão de pessoas, sejam alunos ou funcionários, com o incentivo aos bons costumes, o respeito às individualidades, a inclusão e o incentivo às boas práticas para melhoria da saúde.
O consumidor, em contato direto com a empresa somente afirma mal atendimento, falta de atenção, indagado sobre quem teria lhe ofendido não soube informar. Na oportunidade, e com base no princípio constitucional da presunção de inocência (art. 5º, inciso LVII da CF), a empresa proíbe a veiculação da marca, ou qualquer meio que a identifique sob pena de ações das medidas cabíveis”.
Racismo estrutural
O presidente da Comissão Estadual de Promoção da Igualdade Racial da OAB/MG (Ordem dos Advogados do Brasil), Marcelo Colen, explica que o racismo se manifesta de diferentes maneiras na sociedade. “Do ponto de vista da teoria social, quando falamos que existe um racismo estrutural, afirmamos que existem estruturas jurídicas, políticas, econômicas e até familiares que perpetuam as mais diversas formas de discriminação”, afirma.
O especialista ressalta que é um grave equívoco dizer que condutas racistas são apenas aquelas delimitadas na lei penal como injúria racial ou outros crimes raciais. “O racismo, no sentido genérico, está contido em todo e qualquer ato discriminatório e preconceituoso contra pessoas negras e outras minorias étnicas e, também, nas estruturas sociais do nosso país”, detalha.
“O reconhecimento do crime de racismo, por sua vez, demanda preenchimento de requisitos técnicos do ponto de vista jurídico e podem ou não ocorrer quando falamos de uma conduta discriminatória ou preconceituosa. O que não afasta a responsabilidade civil, como o dever de indenizar, por exemplo, de quem pratica o ato de discriminação”, conclui.
Racismo x Injúria Racial
De acordo com o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), é classificada como crime de racismo – previsto na Lei n. 7.716/1989 – toda conduta discriminatória contra “um grupo ou coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça”.
A lei enquadra uma série de situações como crime de racismo. Por exemplo: recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou residenciais, negar ou obstar emprego em empresa privada, além de induzir e incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. O crime de racismo é inafiançável e imprescritível, conforme determina o artigo 5º da Constituição Federal.
Já a discriminação que não se dirige ao coletivo, mas a uma pessoa específica, também é crime. Trata-se de injúria racial, crime associado ao uso de palavras depreciativas referentes à raça ou cor com a intenção de ofender a honra da vítima – é o caso dos diversos episódios registrados no futebol, por exemplo, quando jogadores negros são chamados de “macacos” e outros termos ofensivos.
Quem comete injúria racial pode pegar pena de reclusão de um a três anos e multa, além da pena correspondente à violência, para quem cometê-la. Em outubro de 2021, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que o crime de injúria racial também deve ser declarado imprescritível e inafiançável, assim como o crime de racismo.
Canais de denúncia
- Delegacia Especializada em Repressão aos crimes de Racismo, Xenofobia, Homofobia e Intolerâncias Correlatas – DECRIN
Telefone: (31) 3335-0452
Endereço: Avenida Augusto de Lima, 1942 – Barro Preto
Horário de Funcionamento: Segunda à Sexta, de 12h às 19h
- Ministério Público – Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos, Igualdade Racial, Apoio Comunitário e Fiscalização da Atividade Policial
Telefone: (31) 3295-2009
Endereço: Rua dos Timbiras, 2928 5º andar Barro Preto – Belo Horizonte – MG
Horário de Funcionamento: Segunda à Sexta, de 13h às 18h
E-mail: [email protected]
- Disque 100 – Disque Direitos Humanos
Horário de funcionamento: diariamente de 8h às 22h
Cidadão brasileiro fora do Brasil, pode discar: +55 61 3212-8400.
E-mail para denúncias: [email protected]
- Disque 190 – Policia Militar
O 190 é destinado ao atendimento da população nas situações de urgências policiais. Atendimento 24 horas por dia, todos os dias da semana.
- Disque 181 – Denúncia Anônima
Serviço destinado ao recebimento de informações dos cidadãos e cidadãs sobre crimes de que tenham conhecimento e possam auxiliar o trabalho policial.
No Disque Denúncia 181 a identidade do denunciante e denunciado é preservada.
Atendimento 24 horas por dia, todos os dias da semana.








