Cartão-postal de Belo Horizonte e um dos maiores símbolos da arquitetura moderna brasileira, o Conjunto Moderno da Pampulha completa, nesta sexta-feira (17), 10 anos do reconhecimento como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Para marcar a data, o BHAZ reuniu algumas das histórias e curiosidades sobre o local que se tornou um dos patrimônios culturais mais importantes do Brasil.
Segundo o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e responsável pelo dossiê de candidatura da Pampulha ao título de Patrimônio Mundial da Unesco, Flávio Carsalade, a ideia de Oscar Niemeyer era que os edifícios do conjunto conversassem entre si. No entanto, o estudioso explica que engana-se quem pensa que o conjunto tenha vivido uma “fase de ouro” logo após a inauguração. “No imaginário popular, parece que tudo funcionou junto durante muitos anos, mas isso nunca existiu”, destaca.
Do cassino que deu origem ao atual Museu de Arte da Pampulha, passando pela igreja que já foi chamada de “comunista” e pela lagoa que chegou a secar completamente, confira algumas curiosidades e transformações que marcaram a história da Pampulha.
Museu de Arte da Pampulha foi um cassino
Apesar da Igreja São Francisco de Assis ser o edifício mais famoso do conjunto, o grande protagonista do projeto inicial era o cassino, onde atualmente funciona o Museu de Arte da Pampulha.
De acordo com Carsalade, a ideia do então prefeito de BH, Juscelino Kubitschek, era transformar a região em um polo turístico, inspirado no sucesso de cassinos existentes em outras cidades brasileiras. “O prédio mais importante, que foi o âncora da Pampulha, foi o cassino. Os outros edifícios funcionavam quase como construções satélites (secundárias)”, diz o professor.

A proposta, porém, durou pouco. Em 1946, apenas três anos após a inauguração da Pampulha, o governo federal proibiu os jogos de azar em todo o país, obrigando o conjunto a se reinventar. “O fato do cassino ter fechado revela que o projeto original não saiu como planejado e a Pampulha teve que ir se adaptando, assim como aconteceu com esse espaço. Com a ausência do jogo, ninguém sabia o que fazer com o prédio do cassino, até que, anos mais tarde, ele virou o museu de arte”, comenta.
Casa do Baile
A Casa do Baile foi criada para ampliar o acesso ao complexo da Pampulha. Enquanto o cassino era frequentado pela elite, o espaço foi projetado para receber bailes, festas e eventos destinados a um público mais amplo, especialmente a classe média.
Projetada por Oscar Niemeyer e com jardins de Burle Marx, a casa fica em uma ilha artificial conectada à orla da lagoa por uma pequena ponte de concreto. O local se destaca pela arquitetura moderna, com linhas sinuosas e marquise ondulante.

Lagoa teve passeios de barco e até balsa
Quem visita a Pampulha hoje dificilmente imagine que, nas primeiras décadas do conjunto, a lagoa era palco de intensa atividade náutica, como veleiros e lanchas. “Tinha inclusive uma balsa que ligava o cassino a Casa do Baile”, destaca Carsalade.
Segundo o professor, existia um movimento intenso dentro da lagoa, já que a ideia de Oscar Niemeyer era que os edifícios fossem admirados também de dentro da água, oferecendo uma perspectiva diferente da arquitetura.
Barragem da Pampulha já se rompeu
A Lagoa da Pampulha é um reservatório artificial que começou a ser construído em 1936. “A represa foi criada pelo então prefeito de Belo Horizonte, o Otacílio Negrão de Lima, que foi o prefeito anterior ao Juscelino, para ser um reservatório de água para abastecer a cidade e para as fazendas que tinham na região”, revela o estudioso.
Em 1954, essa barragem se rompeu. O problema começou no dia 16 de abril, quando técnicos da prefeitura identificaram um vazamento na represa. Enquanto tentava reduzir a pressão da água, o município informava que não havia risco de a estrutura ceder. Ainda assim, moradores das áreas que poderiam ser atingidas foram retirados de casa.
Cinco dias depois, em 21 de abril, a barragem se rompeu. A enxurrada avançou pelo vale do córrego do Onça, destruiu casas, atingiu o aeroporto da Pampulha e deixou um rastro de prejuízos.

Além da destruição, havia preocupação com a contaminação da água da lagoa e o risco de doenças. Para evitar epidemias, a Prefeitura de Belo Horizonte realizou uma campanha de vacinação nas áreas afetadas.
“O local ficou completamente seco após o rompimento e as pessoas andavam por onde hoje á água. Esse é outro dado que acho bem interessante que poucos devem saber”, lembra Carsalade.
Um hotel que nunca foi concluído
Pouca gente sabe, mas o projeto original do Conjunto Moderno da Pampulha previa a construção do Grande Hotel de Turismo da Pampulha. De acordo com o professor, as obras chegaram a começar, mas foram interrompidas por falta de recursos, e o edifício nunca foi finalizado.
Localizado em uma enseada da lagoa, o edifício teria vista privilegiada para a Igrejinha São Francisco de Assis, o Iate Tênis Clube, a Casa do Baile e o Cassino, seguindo a proposta de Oscar Niemeyer de integrar visualmente todos os monumentos do conjunto.
O hotel teria cerca de 100 quartos, quatro apartamentos, salas de estar e de leitura, refeitório e até um cinema. As obras começaram em 1944, mas foram interrompidas no ano seguinte, após a deposição de Getúlio Vargas e a saída de Juscelino Kubitschek da Prefeitura de Belo Horizonte. A estrutura permaneceu abandonada por décadas, até que as colunas remanescentes foram implodidas no fim dos anos 1980.
Atualmente, restam apenas as fundações do edifício, que ainda oferecem um dos pontos de observação mais privilegiados da paisagem da Pampulha.
A igreja foi chamada de “comunista”
Hoje considerada um dos maiores cartões-postais de Belo horizonte, a Igreja São Francisco de Assis causou forte resistência quando foi construída. Carsalade explica que o formato moderno da igreja e o fato dela ter sido construída por um comunista fez com que a construção fosse alvo de críticas.
“Na época falaram que ela parecia um hangar de avião, feito por um comunista. Outras pessoas diziam enxergar uma foice e um martelo na composição entre a marquise, a torre e a cobertura da igreja”, declara o professor.

Além disso, conforme Carsalade, o painel do altar da igreja traz uma curiosidade que foi duramente criticada à época: o artista Cândido Portinari, ao retratar o padroeiro católico dos animais São Francisco de Assis, substituiu o tradicional lobo ao lado do santo por um vira-lata. Devido a essas polêmicas, a igreja permaneceu fechada e inutilizada durante 15 anos mesmo após sua inauguração.
O início da arquitetura moderna brasileira
Segundo Carsalade, especialistas consideram o Conjunto Moderno da Pampulha um dos marcos inaugurais da arquitetura moderna no Brasil e foi ali que começou a parceria entre Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer, que anos depois resultaria na construção de Brasília.
“Eu não diria que foi um laboratório para Brasília, como algumas pessoas gostam de falar. Mas ela foi, com certeza, o início de tudo e de toda a arquitetura moderna brasileira”, reforça.










