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‘Trauma de olhar no espelho’: pacientes de médico de BH que teve registro cancelado relatam as marcas de cirurgias mal-sucedidas

11/09/2026 às 19h17
Rodrigo Ribeiro Credidio e vítima com necrose pós operatório (Reprodução/Redes Sociais + Imagens cedidas)

‘Tenho trrauma de olhar no espelho’, revela uma pacientes que alega terem sido vítima do cirurgião plástico Rodrigo Ribeiro Credidio, proprietário e diretor da Clínica Credidio Cirurgia Plástica e Nutrologia, no bairro Anchieta, em Belo Horizonte. Ao BHAZ, ela e outra mulher relatam episódios de “terror” após realizarem procedimentos estéticos com o profissional. As denúncias envolvem possíveis irregularidades nos procedimentos cirúrgicos, problemas nos resultados das cirurgias e falta de acompanhamento no pós-operatório. (Veja nota da Clínica na íntegra)

O registro profissional do cirurgião foi suspenso pela Justiça de Minas Gerais na última terça-feira (8), após ação civil pública movida pela Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG), que reúne relatos e documentos de pelo menos 11 pacientes submetidas a cirurgias entre 2019 e 2024.

Além de impedir o exercício da medicina, a decisão determina que a clínica apresente termos de consentimento, prontuários e registros clínicos de todas as pacientes operadas pelo médico no período. Em caso de descumprimento, a Justiça poderá autorizar a busca e apreensão dos documentos.

Segundo a decisão, os elementos apresentados pela Defensoria, somados ao parecer do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), indicam, em análise preliminar, um possível padrão de condutas envolvendo múltiplas cirurgias de alta complexidade em uma única sessão, falhas no consentimento informado e deficiência na assistência pós-operatória.

Vítima relata medo de morrer após complicações

Pollyanna Carvalho, de 41 anos, foi uma das pacientes que denunciaram Rodrigo Credidio. Ela realizou a cirurgia em novembro de 2022, após indicação de uma amiga. Antes do procedimento, pesquisou sobre a clínica e o médico, mas encontrou apenas informações de que ele possuía registro regular no Conselho Regional de Medicina (CRM).

Segundo ela, a intenção inicial era apenas buscar orientação para uma futura redução de mama, motivada por dores na coluna após a maternidade e pelo excesso de peso. Durante a consulta, porém, afirma que foi convencida a fazer um “combo” de cirurgias. “Ele falava que seria vantajoso para mim. Disse que tinha experiência em operar pessoas acima do peso e que eu já resolveria o problema da coluna e ainda ficaria bonita.”

Além da redução de mama, o pacote incluía abdominoplastia e gluteoplastia, pelo valor de R$ 25 mil.

No dia da cirurgia, Pollyanna diz ter vivido o primeiro sinal de alerta: mesmo já estando preparada para entrar no centro cirúrgico, o procedimento só começou após a confirmação de um PIX de alto valor que havia sido bloqueado temporariamente pelo banco. “Eu já estava toda marcada, de camisola, ligando para o banco para autorizar a transferência. Enquanto o dinheiro não caiu, ele não começou a cirurgia.”

Ela afirma que, após o procedimento, Rodrigo deixou o hospital antes mesmo de sua recuperação. No dia seguinte, recebeu alta sem vê-lo novamente. “Eu queria falar com ele e as enfermeiras disseram que ele nem viria. Fui embora com uma alta que não foi dada pelo Rodrigo.”

Nos dias seguintes, as dores aumentaram e toda a comunicação passou a acontecer apenas por WhatsApp com enfermeiras da clínica.

Pontos necrosaram e ferida exalava cheiro de carne morta

Cerca de três dias após a cirurgia, Pollyanna começou a ter febre e percebeu que os pontos escureciam. Segundo ela, mesmo enviando fotos e relatando os sintomas, era informada de que tudo fazia parte da cicatrização.

A situação evoluiu para uma necrose extensa, os pontos abriram e a ferida passou a exalar um forte odor. “Eu andava com cheiro de carne morta. Foi traumatizante” afirma.

Ela conta que procurou ajuda de um ginecologista de confiança e contratou uma enfermeira especialista em feridas, que passou a orientar os curativos. Enquanto isso, afirma que Rodrigo insistia que se tratava apenas de uma “crostinha”.

Posteriormente, o médico realizou um procedimento para retirar tecido necrosado na própria clínica, sem anestesia, segundo a paciente. A retirada dos pontos também teria sido feita por uma enfermeira, causando intensa dor. Ela acredita que a intervenção de outros profissionais foi decisiva para evitar que seu quadro se agravasse.

Veja imagens dos pontos com necrose

Imagens alteradas para preservar conteúdo sensível e a vítima

O momento mais marcante do pós-operatório, segundo Pollyanna, foi o medo constante de morrer. Na época, seu filho tinha apenas quatro anos. “Eu repetia para ele: ‘Eu vou morrer, eu vou morrer’. E ele dizia que era normal, que eu só queria atenção.”

Ela relembra que chorava diariamente ao olhar para o filho, acreditando que não sobreviveria às complicações. “Eu olhava para ele e pensava: ‘Gente, eu vou morrer. Esse menino vai ficar sem mãe’. Era um desespero. Ele perguntava quando eu ia melhorar para voltar a dormir comigo, e eu achava que estava morrendo de verdade.”

Quatro anos depois, Pollyanna diz que decidiu denunciar o médico após assistir pela televisão ao caso de Norma, paciente que morreu depois de uma cirurgia realizada por Rodrigo Credidio. Ela afirma ter percebido que sua experiência não era um caso isolado. “Toda vez que esse caso volta para a mídia, eu revivo tudo. Precisei até ajustar minhas medicações porque os flashes daquela época voltaram.”

Mais uma paciente enfrenta consequências após a cirurgia

Outra vítima que alega ter tido danos pelas irregularidades, que preferiu não ser identificada, tem 41 anos e relatou ter realizado uma cirurgia com Rodrigo em julho de 2019. Ela conta que chegou ao consultório interessada em fazer uma abdominoplastia e uma lipoescultura, mas acabou incluindo procedimentos nas mamas após uma proposta apresentada pelo médico.

Segundo ela, Rodrigo mostrou fotos de resultados de cirurgias realizadas por ele e afirmou que via maior necessidade de intervenção nas mamas do que na barriga. Como ela não tinha condições financeiras para realizar os procedimentos separadamente, o médico teria oferecido um valor reduzido para fazer as cirurgias no mesmo bloco cirúrgico. “Eu cheguei para fazer a abdominoplastia. Ele falou comigo que não via tanta necessidade de eu fazer a barriga, mas sim o peito, a mama. Eu falei que não tinha condições de fazer os dois, mas ele fez um valor mais satisfatório”, relatou.

O pacote, segundo a vítima, ficou em cerca de R$ 18 mil e incluiu lipoescultura, abdominoplastia, mastopexia e colocação de prótese de silicone.

Ela afirma que passou mal após o procedimento, realizado pela manhã, e precisou permanecer no hospital durante a noite. “Comecei a tremer muito, vomitar, sentir tontura. Passei muito mal a noite toda, com muita dor”, contou. Segundo ela, Rodrigo não a acompanhou após a cirurgia e só voltou a vê-la no retorno, cerca de 15 dias depois.

A vítima também afirma que começou a questionar o resultado da cirurgia. De acordo com ela, a mama ficou com a prótese solta e sem sustentação, além de apresentar excesso de pele. Ela diz ainda que a cicatrização demorou e houve saída de pus. “Minha mama ficou como se fosse um balão e ele jogou um carocinho de feijão lá dentro. Ficou aquela prótese solta dentro da mama, sem sustentação. Como eu amamentei, tive muito excesso de pele. Ele não fez a mastopexia e acabou que meu corpo ficou pior do que era antes”, afirmou.

‘Meu corpo ficou pior do que era antes’, diz vítima

A paciente conta que continuou reclamando do resultado e que, inicialmente, o médico dizia que o inchaço era responsável pela aparência das mamas. Segundo ela, em outro retorno, Rodrigo reconheceu que seria necessário realizar uma nova cirurgia.

Ela afirma que o médico teria proposto cobrar apenas os custos de anestesia e hospital. No entanto, antes que o procedimento fosse marcado, ela sofreu um acidente e ficou internada por quatro meses e 19 dias.

Após se recuperar, voltou ao consultório para retomar a conversa sobre a cirurgia. Foi nesse encontro, segundo ela, que teria se sentido ameaçada e humilhada pelo médico. “Ele me chamou de pobre. Falou que não gosta de operar pobre porque o rico, quando a cirurgia não fica boa, vai lá e paga de novo. E o pobre fica lá enchendo o saco dele”, relatou.

Ainda segundo a vítima, Rodrigo teria dito que ela poderia procurar a Justiça, pois teria dinheiro para contratar os melhores advogados e peritos de Belo Horizonte. “Eu saí da sala dele chorando. Foi um dinheiro suado que eu tive que trabalhar muito para juntar. Ele me mostrou resultados satisfatórios e, depois de tudo, falou que o problema era a minha pele, que era ruim”, afirmou.

Ela conta que deixou o consultório e foi amparada por uma mulher que passava pela rua. Uma viatura da polícia teria sido acionada, e ela registrou um boletim de ocorrência. Na época, porém, diz que não pretendia processar o médico porque se sentia ameaçada.

Depois do procedimento, vítima enfrenta marcas e sequelas

Sete anos após a cirurgia, a vítima afirma que ainda convive com as consequências do procedimento. Segundo ela, a cicatriz da abdominoplastia ficou profunda, o umbigo ficou torto e as roupas se enrolam na região inferior da barriga.

Ela também relata que ficou com uma cicatriz extensa nas mamas e que evita determinadas roupas por causa das marcas. “Ele mutilou o meu corpo. Hoje eu tenho trauma de olhar para o meu corpo no espelho. No começo, eu tinha vergonha de trocar de roupa na frente do meu marido”, afirmou.

Ela diz ainda que ficou emocionalmente abalada com o resultado. “Era um sonho meu e ele acabou mutilando o meu corpo. Ficou horrível”, declarou.

“Eu acho que ele não deveria ser um profissional da saúde, principalmente um cirurgião plástico. A gente paga para ter uma melhoria e ele não deu auxílio nenhum”, completou.

Veja imagens das marcas

Imagens alteradas para preservar conteúdo sensível e a vítima

Veja nota da Clínica

A Clínica informa que a referida decisão será objeto de recurso imediato, pois foi proferida em desacordo com a legislação. A clínica também comunica que possui todas as licenças e alvará sanitário válido.

O processo em questão foi apresentado levando a defensoria pública a erro, a partir da atuação maliciosa de denunciante que distorceu fatos e apresentou documentação propositalmente incompleta.

Todas as provas da regularidade e qualidade dos seus procedimentos médicos já foram levantadas e a clínica confia que, após a sua apreciação, a referida decisão será revogada.

Isadora Vianna

Estudante de jornalismo pela PUC Minas e estagiária do BHAZ desde fevereiro de 2026. Atuou na redação da Record Minas e na comunicação interna do Grupo Valence
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Isadora Vianna

Email: isadora.ribeiro@bhaz.com.br

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