A mobilização de uma rede ligada ao “jogo do bicho” para a prática de coações e ameaças presenciais no Rio de Janeiro comporia a estrutura da suposta organização criminosa liderada por Daniel Vorcaro, segundo revelam investigações da Polícia Federal detalhadas na decisão do ministro André Mendonça que culminou na sexta fase da Operação Compliance Zero.
Conforme os autos da Petição 15.978/DF, esse subgrupo atuaria como um braço executor territorializado, pronto para ser acionado sempre que o núcleo central da organização demandasse o uso de força ou pressão física contra seus desafetos.
O papel de liderança desse braço local seria exercido por Manoel Mendes Rodrigues, identificado nas apurações como um “empresário do jogo” que atuaria como o elo entre os mandantes do esquema e o emprego de força bruta nas ruas.
Vorcaro e o jogo do bicho
De acordo com a decisão ministerial, a autoridade policial considera plausível que este subgrupo fosse formado não apenas por operadores do jogo do bicho, mas também por milicianos e policiais, funcionando como uma espécie de “força privada” para servir aos interesses da família Vorcaro.
Uma das principais funções deste núcleo, inserido no braço operacional denominado “A Turma”, seria a de agir como “intimidador qualificado”. O objetivo central, segundo a investigação, seria conferir credibilidade às ameaças e projetar poder coercitivo local contra aqueles que contrariassem os interesses do grupo.
Relatos colhidos pela PF sugerem que o subgrupo carioca seria acionado para monitorar, perseguir e abordar diretamente pessoas que detivessem informações sensíveis ou conflitassem com o núcleo central.
Um episódio de junho de 2024, detalhado na representação policial, descreve como Manoel e cerca de sete homens teriam se deslocado até Angra dos Reis para intimidar ex-funcionários de Daniel Vorcaro.
Na ocasião, um dos homens teria se identificado expressamente como “Manoel”, afirmando ser amigo de Daniel Vorcaro e que “mexia com jogo do bicho”, enquanto proferia ameaças de morte contra o ex-comandante da embarcação do empresário e um ex-chefe de cozinha. A investigação aponta que a ordem para “ir para cima” teria partido diretamente de Daniel Vorcaro.
A articulação de Manoel com a cúpula do esquema seria demonstrada por uma comunicação intensa, incluindo a troca de 58 mensagens em apenas um dia com Felipe Mourão, apontado como o gerente operacional do grupo. Além disso, o suposto operador do bicho teria participado de reuniões estratégicas que envolveriam também Henrique Moura Vorcaro (pai de Daniel), o que reforçaria sua inserção na cadeia de comando e nas tratativas internas da estrutura investigada.
Diante do que descreveu como um quadro indiciário robusto de periculosidade, o ministro André Mendonça decretou a prisão preventiva de Manoel Mendes Rodrigues. O magistrado fundamentou a medida na necessidade de garantir a ordem pública e impedir que a rede de influência e força física do grupo continuasse a coagir testemunhas e vítimas, ressaltando o risco concreto de reiteração delitiva dada a habitualidade das práticas de intimidação.







