A tragédia de Mariana, na Região Central de Minas Gerais, pode estar relacionada à alta taxa de deformidades encontradas em peixes no litoral do Espírito Santo, segundo pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
O rompimento da barragem da Samarco ocorreu em 5 de novembro de 2015 e liberou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, que percorreram o Rio Doce até chegar ao Oceano Atlântico, causando um dos maiores desastres ambientais do Brasil.
De acordo com o estudo, foram identificadas deformações em 60,5% dos exemplares da espécie Stellifer naso, conhecida como cabeçudo-preto ou tambor-estrela. Os peixes foram coletados em maio de 2022, quase sete anos após o desastre, na foz do Rio São Mateus, próximo ao município de Conceição da Barra, no litoral norte do Espírito Santo.
A pesquisa apontou uma taxa de anomalias considerada recorde para peixes na costa brasileira. O percentual supera registros anteriores descritos na literatura científica, como o índice de 27,1% observado em bagres da espécie Cathorops spixii. Segundo os cientistas, as deformações foram encontradas nos otólitos sagitais, estruturas localizadas no ouvido dos peixes responsáveis pelo equilíbrio, orientação espacial e percepção sonora.
Pesquisa
O pesquisador Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da UFRJ, explicou que o resultado encontrado está acima da média registrada em outros estudos realizados no Brasil e em diferentes regiões do mundo. Para ele, a alta quantidade de peixes com anomalias pode estar associada aos impactos deixados pelo desastre ambiental.
A espécie analisada vive no fundo do mar, em águas rasas, e permanece em contato direto com sedimentos onde podem ter se acumulado rejeitos transportados pelo Rio Doce. Por esse motivo, os pesquisadores avaliam que o Stellifer naso pode estar mais exposto a possíveis contaminantes presentes na lama.
Apesar dos resultados, os autores ressaltam que a pesquisa não comprova uma relação direta de causa e efeito entre o rompimento da barragem e as deformações encontradas nos peixes. Isso ocorre porque não existem amostras coletadas na região antes de 2015 para comparação com o período anterior ao desastre.








