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‘Já acabou, Jéssica?’: Ao virar meme, jovem mineira lidou com bullying, depressão e até deixou a escola

01/09/2021 às 17h17
Lara da Silva
Lara da Silva tinha apenas 12 anos quando vídeo de briga viralizou na internet (Arquivo pessoal)

Se você era usuário das redes sociais em 2015, provavelmente já viu o vídeo que tornou a frase “já acabou, Jéssica?” uma das mais repetidas entre os internautas naquele ano. Foi em uma briga de escola Alto Jequitibá, na região da Zona da Mata, em Minas Gerais, que Lara da Silva foi filmada provocando uma colega e soltando as palavras de efeito. Anos depois, a jovem lida com depressão e outras consequências de ter se tornado um meme no Brasil inteiro.

Em entrevista à BBC Brasil, Lara da Silva, que hoje tem 18 anos, conta que passou a sofrer bullying depois que o vídeo da briga viralizou nas redes sociais. O meme chegou a virar assunto de Justiça, a jovem abandonou os estudos e passou a se automutilar na batalha contra a depressão.

‘Já acabou, Jéssica?’

Tudo começou em novembro de 2015, quando Lara saiu da escola municipal e caiu no chão ao brigar com uma colega por ciúme de um namorado. No vídeo que viralizou, a então jovem de 12 anos troca agressões com Jéssica enquanto está ao solo, e consegue se levantar depois que a adolescente a solta. “Já acabou, Jéssica?”, questiona Lara.

“Quando eu me levantei, pensei: ela me jogou no chão, me bateu enquanto eu estava caída e agora vai correr? Foi quando eu disse a frase, que depois se tornou um inferno na minha vida”, conta a jovem à BBC. No mesmo dia, o vídeo começou a circular nas redes sociais e a tomar grandes proporções. “Ela nunca tinha brigado antes, até tinha medo de briga. Ela era uma menina muito boba”, relata a mãe de Lara, a agricultora Deusiana Figueredo.

As mães das jovens foram chamadas à escola para uma reunião no dia seguinte, mas logo todas as envolvidas perceberam que o registro da briga estava se espalhando com muita rapidez. “Não consegui estudar, porque me zoaram muito e eu fiquei muito mal com isso”, conta Lara. Segundo ela, as pessoas a ofendiam e riam da pergunta “já acabou, Jéssica?”.

Depressão

Os pais da garota notaram que ela estava abalada com a repercussão e a tiraram da escola. Eles ainda proibiram Lara de acessar a internet ou de assistir à televisão. A família viajou por alguns dias para esperar a poeira abaixar, mas quando voltou à cidade, a briga ainda era assunto entre os moradores e entre usuários das redes sociais.

Depois de virar meme, Lara passou a ficar mais em casa e só deixar o local para ir a lugares próximos. Quando saía, sempre ouvia comentários sobre o vídeo. Ela conta que começou a se mutilar dias depois de o registro viralizar, e que já havia pensado em fazer isso em outros momentos de tristeza, mas nunca havia tido coragem.

“Eu já costumava me culpar por tudo de ruim que acontecia comigo ou com meus pais. Quando aconteceu isso, eu não sabia o que era pior: que a minha mãe continuasse me prendendo em casa, como ela começou a fazer, ou me deixasse sair na rua. Mais ou menos uns quatro dias depois da briga, comecei a me cortar, por causa de tudo o que estava acontecendo”, comenta.

Briga na Justiça

Lara e Jéssica entraram na Justiça contra emissoras de televisão, plataformas virtuais em que o vídeo viral foi exibido e mais: o Google, o Facebook, a SBT, Record e Band e dois rapazes que criaram um jogo baseado no vídeo da briga. De acordo com a BBC, a defesa de Lara aponta que o Google e o Facebook foram fundamentais para a rápida propagação do registro e que as plataformas não impediram os compartilhamentos da cena, que envolvia adolescentes.

A defesa também argumenta que as emissoras de TV ajudaram a propagar a frase “já acabou, Jéssica?” sem autorização das responsáveis. A ação contra os criadores do jogo menciona que eles usaram a briga para lucrar, também sem qualquer tipo de autorização.

“Se tivesse como excluir [qualquer publicação do vídeo na internet], eu gostaria. Mas acredito que não tenha mais jeito”, comenta Lara. Nos últimos anos, os comentários sobre o meme diminuíram, mas ela ainda enfrenta várias piadas ao publicar fotos no Instagram.

“Quando publico alguma foto, muitos comentam: ‘já acabou, Jéssica?’ Eu fecho os comentários por isso. Não faz sentido ler esses comentários. Vai acabar alguma coisa? Por que estão perguntando se já acabou, Jéssica? Não faz sentido”, relata.

Futuro pela frente

Hoje, Lara da Silva continua em tratamento para a depressão, mas parou de se cortar há cerca de um ano. Ela trabalha como auxiliar de limpeza e cuidadora de idosos, e está concluindo o ensino médio. No futuro, ela planeja cursar farmácia ou enfermagem.

“Eu tenho marcas que não mudaram em nada a minha vida. Não fiquei rica ou pobre. Só tenho marca. Mas hoje vivo intensamente. É raro que eu seja reconhecida nas ruas atualmente, mas se isso acontecer e se fizerem comentários ruins, tento ignorar”, finaliza a jovem de 18 anos.

Editado por: Giovanna Fávero

Sofia Leão

Repórter do BHAZ desde 2019 e graduada em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagens premiadas pelo Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados, pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021.
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Repórter do BHAZ desde 2019 e graduada em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagens premiadas pelo Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados, pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021.
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