Um SUV zero quilômetro que era comprado em janeiro de 2026 R$ 432 mil perdeu R$ 72 mil seis meses depois. Não por defeito, não por acidente, simplesmente porque o mercado mudou ao redor dele. É o que mostram os dados da Tabela Fipe comparando os valores de janeiro e julho deste ano de veículos até R$ 500 mil. Sete dos dez modelos que mais perderam valor são SUVs, e uma das explicações para isso? As montadoras chinesas que chegaram ao Brasil com preços abaixo do praticado e forçaram uma revisão geral nos valores de toda a categoria.
Levantamento feito pelo BHAZ mostra que 238 de 673 carros dentre dessa faixa de valor são vendidos mais baratos no comparativo entre janeiro e julho. O mais barato aqui se considera só quedas superiores a 0,5%. Outros 50 veículos também tiveram redução de preço, mas em patamares menores.
O padrão se repete ao longo de toda a lista. BYD, GWM, JAC e Caoa Chery não apenas trouxeram carros baratos, trouxeram SUVs elétricos e híbridos tecnologicamente competitivos por preços que ficam, em muitos casos, 20%, 30% abaixo do que outras montadoras cobram pelos seus modelos equivalentes. E quando a demanda cai, os preços caem junto. E a Fipe registra essa queda mês a mês. Não à toa, cinco dos dez carros desta lista são elétricos ou híbridos: é exatamente no segmento eletrificado que a concorrência chinesa bateu mais forte.
A lista ainda reserva uma surpresa: dois dos dez modelos são veículos comerciais (o Citroën Jumper Furgão e o Iveco Daily Minibus, ambos usados por empresas para transporte de cargas ou passageiros). Esses veículos costumam ter preços estáveis porque são comprados por frotas corporativas, não por consumidores individuais.
Mas em 2026, com a taxa Selic elevada tornando o crédito caro, muitas empresas simplesmente seguraram a renovação dos veículos. Com menos compradores no mercado, os preços cederam. A RAM Rampage, picape que fecha o ranking, conta a mesma história por outro ângulo: até as picapes sentiram o impacto da chegada de modelos chineses no segmento.
Veja abaixo os 10 carros zero km que mais perderam valor em 6 meses
1º — Chevrolet Equinox EV 292cv Elétrico (R$ 72.938 a menos)
O Chevrolet Equinox EV chegou ao Brasil como a aposta da General Motors para democratizar os carros elétricos no país. Com preço de lançamento em torno de R$ 420 mil, ele prometia ser uma alternativa mais acessível dentro do segmento de SUVs elétricos. O problema é que o mercado não ficou parado esperando. Em seis meses, o modelo perdeu R$ 72.938, uma queda de 17,2%, a maior tanto em valor absoluto quanto em percentual desta lista. A principal razão é a pressão competitiva vinda das montadoras chinesas, que oferecem SUVs elétricos com autonomia e equipamentos comparáveis por preços menores.
2º — Kia EV5 Land Elétrico (R$ 65.418 a menos)
O Kia EV5 é um SUV elétrico coreano que chegou ao Brasil em 2025 com proposta de combinar design moderno, boa autonomia e tecnologia avançada. A versão Land, topo de linha, custava R$ 390 mil em janeiro e caiu para R$ 325 mil em julho, uma perda de R$ 65.418, equivalente a 16,7% do valor em apenas seis meses. O EV5 enfrenta um dilema comum entre os elétricos importados: o dólar e o won coreano influenciam diretamente seu preço, e qualquer movimento cambial favorável ao real significa revisão para baixo nas tabelas.
3º — Hyundai Palisade Signature 3.8 AWD Automático (R$ 42.735 a menos)
O Hyundai Palisade é um dos maiores SUVs disponíveis no Brasil abaixo de R$ 500 mil. Um veículo de três fileiras de bancos capaz de transportar até oito pessoas com conforto acima da média. A versão Signature é a mais equipada, com tração nas quatro rodas (AWD), tela traseira de entretenimento e uma série de assistentes de condução. A queda de R$ 42.735 (9%) em seis meses surpreende por se tratar de um modelo a combustão convencional. Uma explicação também está na combinação de câmbio e demanda: o Palisade é importado da Coreia do Sul, e o fortalecimento do real em relação ao dólar e ao won forçou a Hyundai a reajustar os preços para manter a competitividade frente a rivais que também baixaram seus valores.
4º — Mini Cooper Countryman ALL4 2.0 Turbo Automático (R$ 40.338 a menos)
O Mini Countryman é o maior modelo da marca britânica, e o que mais se parece com um SUV convencional, apesar de manter o estilo retrô e descolado que é a marca registrada da Mini. A versão ALL4 tem tração integral e motor de 2.0 litros turbinado, o que o coloca em um nicho interessante: é premium, esportivo e compacto ao mesmo tempo. A queda de R$ 40.338 (quase 10%) em seis meses reflete a sensibilidade dos importados europeus ao câmbio. A Mini pertence ao grupo BMW, e seus preços no Brasil são fortemente influenciados pelo euro. O Countryman compete com modelos como o Audi Q3 e o Volkswagen T-Roc em um segmento que tem se tornado cada vez mais disputado, o que também contribui para a pressão nos preços.
5º — Caoa Chery Tiggo 8 PRO 1.5 Turbo Híbrido (R$ 33.231 a menos)
O Tiggo 8 PRO Híbrido é um dos modelos mais vendidos da Caoa Chery, marca que representa no Brasil os carros da fabricante chinesa Chery. A versão híbrida combina um motor a gasolina de 1.5 litro com um sistema elétrico que permite economizar combustível e reduzir emissões. O que chama atenção neste caso é que se trata de um carro montado no Brasil e ainda assim perdeu R$ 33.231 (12,2%) em seis meses. A explicação está na própria concorrência interna do segmento: outras marcas chinesas como BYD, GWM e JAC chegaram ao Brasil com SUVs híbridos e elétricos a preços agressivos, forçando a Chery a reposicionar seus preços para baixo para não perder espaço no mercado.
6º — Ford Mustang Mach-E GT Performance Elétrico (R$ 31.797 a menos)
O Ford Mustang Mach-E é um SUV elétrico que usa o nome icônico do Mustang para atrair compradores que querem um carro elétrico com identidade. A versão GT Performance é a mais potente da linha, com aceleração de 0 a 100 km/h em menos de 4 segundos. Apesar do apelo, o modelo perdeu R$ 31.797 (6,6%) em seis meses. O Mach-E enfrenta um problema de posicionamento: é caro demais para competir com os elétricos chineses mais acessíveis, e menos sofisticado do que os elétricos europeus de preço similar. A Ford reduziu os preços do modelo ao longo do semestre como resposta direta à concorrência, e essa revisão ficou registrada na tabela Fipe.
7º — Citroën Jumper Furgão 2.2 Turbo Diesel (R$ 25.055 a menos)
O Citroën Jumper é um furgão comercial de grande porte, usado principalmente por empresas para transporte de cargas ou como base para ambulâncias, vans de passageiros e veículos especiais. Não é um carro que alguém compra para lazer — é uma ferramenta de trabalho. A presença dele nesta lista, com queda de R$ 25.055 (9,1%), reflete um movimento do mercado de frotas no Brasil: com o crédito caro e a incerteza econômica do início de 2026, muitas empresas seguraram a renovação dos veículos comerciais.
8º — Mitsubishi Outlander Signature 2.4 4×4 Híbrido (R$ 24.557 a menos)
O Mitsubishi Outlander Híbrido é um SUV de médio porte com tecnologia PHEV — sigla em inglês para “híbrido plug-in”, ou seja, um carro que tem bateria grande o suficiente para ser carregada na tomada e rodar alguns quilômetros apenas no elétrico antes de usar o motor a gasolina. A versão Signature é topo de linha e custava R$ 400 mil em janeiro, caindo para R$ 375 mil em julho — uma perda de R$ 24.557 (6,1%). O Outlander PHEV é um dos pioneiros do segmento de híbridos plug-in no Brasil, mas enfrenta concorrência crescente de modelos mais novos que oferecem maior autonomia elétrica. A combinação de câmbio e competição mais intensa no segmento de eletrificados explica a queda.
9º — Iveco Daily Minibus 50-180 Fretamento Diesel (R$ 23.470 a menos)
O Iveco Daily na versão Minibus é um veículo utilitário de grande porte usado em fretamento de passageiros, turismo e transporte corporativo. Com capacidade para transportar entre 15 e 20 pessoas dependendo da configuração, é um produto voltado exclusivamente ao mercado empresarial. A queda de R$ 23.470 (5,2%) segue a mesma lógica do Citroën Jumper: a demanda corporativa por veículos de fretamento desacelerou no início de 2026, e com menos empresas renovando frotas, os preços recuaram.
10º — RAM Rampage Laramie Hurricane 2.0 Turbo 4×4 Automático (R$ 23.468 a menos)
A RAM Rampage é a picape intermediária da marca americana RAM, um veículo que tenta unir a utilidade de uma picape à praticidade de um SUV. A versão Laramie Hurricane tem motor 2.0 turbo, tração 4×4 e uma série de equipamentos de conforto e tecnologia que a posicionam acima das picapes tradicionais do segmento. A queda de R$ 23.468 (8,8%) em seis meses é expressiva para uma picape, um segmento historicamente conhecido por manter bem o valor de mercado.







