Quem passa pelas margens das grandes rodovias que cortam Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, nem imagina que, entre chaminés e galpões industriais, pulsa uma história de mais de três séculos. Muito além do asfalto e do movimento frenético do comércio, a cidade esconde em sua história alguns fatos que talvez nem o mais contagense dos moradores sabe sobre o munícipio. Selecionamos 7 curiosidades sobre Contagem que provam por que a cidade é um dos lugares mais peculiares e fascinantes de Minas Gerais.
Rebaixada a distrito de Betim
Contagem já era emancipada desde 1911. Mas eis que, de repente, em 1938, o então governador Benedito Valadares decide rebaixar Contagem à categoria de distrito de Betim, a cidade vizinha. E tudo porque a intenção era desapropirar as fazendas da região (caso da Fazenda do Ferrugem) para viabilizar a construção de um parque industrial, a hoje conhecida Cidade Industrial. O governo entendia que só assim seria possível tirar do “caminho” uma administração local forte, que, muitas vezes, se opunha a essa ideia e criava entraves. Assim foi criado, a pedido de Valadares, um decreto que tornou Contagem um mero distrito.
Claro que a decisão causou revolta, sobretudo, com o crescimento gerado pelas obras da Cidade Industral. Depois de dez anos de luta, um grande movimento ganhou força e, em 1948, Contagem conseguiu sua reemancipação. A cidade “tomou de volta” o seu território e, com ele, o presente que Valadares havia plantado ali: o parque industrial. Essa passou a ser uma das mais emblemáticas histórias entorno das curiosidades sobre Contagem.

A pane mecânica que criou uma feira
A Feira de Artesanato do Amazonas (Faba) também rende uma das grandes curiosiodades sobre Contagem. Hoje a feira é uma das mais queridas opções de quem procura aproveitar o final de semana na região do Cidade Industrial, seja para compras ou lazer.
Montada todos os domingos, há mais de 60 anos, ela oferece uma grande variedade de produtos. São quase 400 barracas e aproximadamente 1.200 expositores. Pelo seu trajeto, é possível encontrar itens de artesanato, gastronomia típica, vestuário, bijuterias e decoração. Também carinhosamente chamada de Faba, a feira é reconhecida oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial de Contagem.
No entanto, pouco gente sabe que a criação da feira se deu por um episódio inusitado, no início da década de 1960. Uma pane mecânica de um caminhão que seguia em direção à Ceasa impediu os agricultores de chegarem ao destino final. Para não perder a mercadoria e evitar desperdício, eles venderam seus produtos ali mesmo, no próprio bairro. O sucesso de vendas foi imediato e, aos poucos, a iniciativa foi se consolidando e se transformou na feira mais antiga de Contagem e uma das mais tradicionais da região metropolitana. Você já esteve lá?

Um sobsolo oco
Muitos pedestres e motoristas passam pela Avenida Cardeal Eugênio Pacelli, mas nem imaginam que, em alguns pontos, o solo sob seus pés e carros é oco, o que rende uma das boas curiosidades sobre Contagem. Isso mesmo, oco! Isso porque, diante da necessidade de criação de uma estrutura que suportasse indústrias gigantes e “pesadas”, o projeto de construção da Cidade Industrial contemplou dois sistemas distintos que se complementam.
A estrutura é formada por galerias de macrodrenagem, para canalizar córregos (como o Ferrugem e o das Indústrias), de dimensões monumentais, com vários metros de largura e altura, para suportar o volume de água em uma área quase totalmente impermeabilizada por fábricas. Soma-se a isso, ramais ferroviários subterrâneos, que entram literalmente por baixo ou por dentro de grandes complexos industriais (como a antiga Magnesita ou unidades siderúrgicas). Existem transposições onde a rodovia passa por cima de feixes de trilhos que ficam em níveis rebaixados, criando a sensação de um “solo oco”. Alguns desses túneis são tão largos que poderiam abrigar prédios deitados, servindo como a “coluna vertebral” invisível que escoa a produção pesada de Minas.
A prova é de que o trem circula abaixo do nível da rua, coberto pela estrutura da cidade. Pela visão de satélite, o Google Maps revela, próximo à Praça da Cemig, linhas de trem que parecem “brotar” debaixo do asfalto ou desaparecer sob as fábricas. É ali que o sistema subterrâneo se revela.

Contagem já foi BH, BH já foi Contagem
Na década de 1940, época em que um parque industrial estava sendo planejado, como forma de tornar Minas Gerais uma “potência”, a capital Belo Horizonte não tinha relevo adequado para a construção de fábricas pesadas e já estava bem ‘apertada’ para conseguir suportar um complexo tão grande como aquele que Benedito Valadares e Juscelino Kubitschek sonhavam. Assim nasceu mais uma das páginas que rende uma das boas curiosidades sobre Contagem.
Diante desse plano, a capital mineira cedeu parte da sua área, hoje o que conhecemos como a região do Cidade Industrial, para o então Distrito de Contagem, que ainda pertencia a Betim. A doação foi necessária para que incentivos fiscais próprios fossem criados, sem as amarras da legislação municipal de Belo Horizonte. Era como “começar do zero”, e permitir que se criasse um ambiente, inclusive jurídico, totalmente voltado para as indústrias, algo que seria difícil de fazer dentro das regras rígidas do antigo munícipio. Assim, no apagar das luzes de 1943, foi publicado um decreto e uma boa fatia de terra plana e estratégica foi doada ao ‘pequeno’ distrito de Contagem.
Esse decreto, em parte, é a razão de existir até hoje a confusão de divisas entre as duas cidades. O traçado foi feito seguindo linhas geográficas e córregos (como o Córrego do Ferrugem), mas o crescimento das casas ignorou essas linhas.

Jabuticaba como ‘arma’
Na década de 1970, Contagem vivia o auge da explosão industrial e demográfica. Um pedaço de terra passou a valer “ouro”. Para as construtoras e grandes indústrias, as antigas chácaras, cheias de jabuticabeiras, eram apenas “obstáculos” que precisavam ser derrubados para dar lugar a galpões e prédios.
O governo municipal da época percebeu que não adiantava apenas pedir “por favor”, para não cortarem as árvores. Era preciso mexer onde dói, ou seja no bolso. Veio então a criação de uma lei que instituiu um desconto no IPTU para quem cultivasse jabuticabas. A lei que instituiu esse mecanismo é a de número 1.611, de 30 de dezembro de 1983. O abatimento podia chegar a 25% ou mais, dependendo da quantidade de árvores.
Para muitos proprietários, era mais lucrativo manter o pomar do que vender o terreno imediatamente para uma construtora que iria cimentar tudo. A jabuticaba virou uma “arma” de resistência contra a verticalização desenfreada e, com o tempo, um símbolo da cidade.
A gratidão ao fruto é tão grande que, pela cidade, é possível encontrar vários equipamentos ou locais em homenagem à jabuticaba. No Centro Histórico de Contagem, por exemplo, foi construída a Praça da Jabuticaba É possível encontrar por lá cerca de 800 jabuticabeiras e se deliciar com o fruto. Na bandeira da cidade, um dos maiores símbolos cívicos, o desenho de uma jabuticabeira representa a riqueza agrícola e pastoril do início da formação da cidade. Gostou de mais uma das curiosidades sobre Contagem?

O origem da Cemig
A relação entre a criação da Cemig e a cidade de Contagem não é apenas próxima, ela é genética. Essa relação é uma das curiosidades sobre Contagem que muita gente desconhece.
A Cidade Industrial, o maior parque industrial de Minas Gerais, deu origem a maior companhia de energia do estado. E a maior companhia de energia do estado permitiu que Contagem se tornasse a potência que é.
Em 1941, o plano era ambicioso: transformar a Minas Gerais agrária em uma potência fabril. O problema é que a demanda de energia era grande, ou melhor, enorme. Num cenário em que o fornecimento de energia era fragmentado, instável e insuficiente, o então governador Juscelino Kubitschek percebeu que a Cidade Industrial de Contagem, uma aposta para que esse plano de concretizasse, morreria antes de nascer, se não houvesse uma empresa de energia capaz de alimentar o sonho industrial.
A solução foi criar uma empresa que pudesse dar conta do complexo. Assim, a Cemig, denominada inicialmente Centrais Elétricas de Minas Gerais, foi criada em 1952. Nos primeiros passos que deu, a Companhia teve Contagem como um grande laboratório, devido à presença das maiores indústrias. As primeiras grandes subestações de alta performance e as linhas de transmissão de alta tensão foram desenhadas para convergir com a complexidade de Contagem, cuja técnica de alimentar fornos a arco e fundições, em contrapartida, moldou a expertise que a Cemig usou depois para eletrificar o restante do estado.
Lembra da luta pela remancipação travada pelos contagenses quando a cidade ainda era um distrito de Betim? A Cemig ajudou a cidade a fortalecer essa ideia no período imediatiamente posterior à independência reconquistada. A arrecadação gerada pelas indústrias (alimentadas pela energia da Cemig) deu a Contagem recursos financeiros necessários para deixar de ser de vez apenas um distrito e voltar a ser uma cidade, e que cidade!
A arrecadação gerada pelas indústrias deu a Contagem recursos para se tornar o polo econômico que é hoje — com quase 100 mil empresas e milhares de vagas de emprego.

A água que é branca
Hoje, o bairro Água Branca é um dos principais pontos de passagem do Gasoduto e do Oleoduto que ligam a Refinaria Gabriel Passos (REGAP), da Petrobras, ao resto do país. Em algumas das ruas, inclusive, há placas que proíbem a escavação ou construção devido uma rede subterrânea de artérias invisíveis que transportam combustível e gás sob alta pressão a poucos metros dos pés dos moradores. Mas nem sempre foi assim.
Na Contagem de outros tempos, muito antes das fábricas, em que a região era essencialmente formada por fazendas, no solo da região havia a presença do calcário e do caulim, uma espécie de argila branca. Em contato com o córrego que cortava a região, a água ganhava uma coloração esbranquiçada, quase como se estivesse misturada com leite. Daí o nome do bairro, uma das curiosidades sobre Contagem.
Por causa dessa característica geológica, de embranquecimento da água em contato com o calcário e caulim, minerais, que funcionam como um filtro e um “alcalinizante” natural, o bairro sempre teve uma disponibilidade de água subterrânea muito alta. Isso ocorre porque, onnde há esse tipo de rocha, costumam existir as chamadas fraturas, que são fendas no subsolo que armazenam quantidades gigantescas de água (os aquíferos).
Embora a água parecesse “suja” (esbranquiçada) no córrego, por causa da erosão superficial, a água profunda, protegida pelas camadas de terra, era extremamente pura e mineralizada. Isso atraiu, nas décadas de 1970 e 1980, quando a legislação era mais frouxa, muitas lavanderias industriais e empresas têxteis para a região. Elas perfuravam poços artesianos profundos para aproveitar essa água “infinita” e gratuita.
Para o tingimento têxtil e para lavanderias industriais, a água não pode ter certas impurezas (como excesso de ferro) que mancham o tecido. A água do aquífero de Contagem, após uma filtragem simples para retirar o sedimento branco, era muito estável quimicamente. Isso economizava fortunas em produtos químicos para “corrigir” a água da rede pública.







