“Eu já nem estava apostando mais e, com o início dessa Copa, eu decidi e comecei a apostar”, contou o jovem Rafael Silva (nome fictício) em sua primeira visita ao grupo de apoio Jogadores Anônimos, que promove encontros às terças e quintas-feiras no bairro Santa Efigênia, na região Leste de BH. Assim como ele, para uma grande parcela da população brasileira, o campeonato deixou de ser considerado algo prazeroso de acompanhar e se transformou em um gatilho para apostas online, as chamadas ‘bets’, levando muitos à recaída e ao endividamento.
Durante a reunião acompanhada pela reportagem do BHAZ, o jovem relatou que começou a apostar “brincando com amigos” na pandemia da covid-19, com valores baixos que não fariam falta no orçamento. Com o tempo, ele contou que chegou a apostar grandes quantias e, inclusive, fez empréstimos para cobrir os prejuízos. De acordo com Rafael, ele só conseguiu parar de apostar depois de se mudar para outro país, onde a prática não é permitida.
Conforme relatou aos quase 50 outros participantes da reunião, ele estava trabalhando e já tinha conseguido se “estabelecer novamente”. No ano passado, o jovem retornou ao Brasil e continuou longe das apostas, investiu o dinheiro que ganhou fora do país e retornou aos estudos. A recaída ocorreu com o início da Copa do Mundo, principalmente sob influência de amizades. “Eu sempre gostei muito de futebol”, relatou. Durante o período, Rafael contou que usou todos os valores investidos em apostas e até pediu dinheiro emprestado a um amigo.
No fim, o jovem relatou que, apesar de ter conseguido ganhar algum dinheiro inicialmente, o processo resultou em um estresse extremo, incluindo mentiras para amigos. “Eu devolvi para ele o dinheiro e perdi tudo. Então, eu saí no zero a zero e vi que isso não é vida”, disse Rafael. Desta vez, ele contou do vício para a mãe, que deu forças e o acompanhou na reunião da última terça-feira (21).
O estímulo às apostas não se limitou aos amigos de Rafael. Entre os veículos de comunicação que transmitiram o campeonato, a CazéTV, plataforma criada por Casimiro Miguel em parceria com a LiveMode, foi alvo de críticas por exibir os jogos patrocinados por casas de apostas. Ao longo das partidas, especialistas do canal chegaram a recomentar e sugerir apostas, resultando em uma investigação aberta pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para apurar as irregulares.
Ludopatia
Um painel divulgado pela fintech Klavi, com base em dados de Open Finance, confirma que o caso de Rafael não foi algo isolado. Durante o Mundial, a parcela de brasileiros que realizou apostas triplicou em relação ao mês de maio, saltando de 11% para 34,8% da população. Além disso, os dados indicam que houve um aumento no valor médio apostado, que subiu de R$ 188 por dia para R$ 524 no dia seguinte ao jogo entre Brasil e Marrocos.
Esse aumento está diretamente ligado à ludopatia, transtorno reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com a agência, o jogo patológico está ligado a exposição às telas, marcado por um comportamento severo o suficiente que resulte em impedimento significativo nas áreas pessoal, familiar, social ou educacional durante o período de pelo menos 12 meses.
Entretenimento [nada] inofensivo
Laura Lobo, psicóloga clínica e conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), destacou que o ambiente esportivo cria um fluxo de divulgação massivo, com inúmeras publicidades de casas de apostas veiculadas diariamente. Segundo a especialista, “a Copa do Mundo fez a máquina [das apostas] girar”, e tornou a publicidade quase que onipresente, sendo considerada cansativa e excessiva para grande parte dos espectadores.
A especialista alertou que essa exposição constante às publicidades entra no cérebro “de uma maneira tão sutil que a gente nem percebe”. Conforme Laura, campanhas veiculadas por grandes ídolos nacionais do esporte também trazem encorajamento para o apostador, fazendo com que o jogo pareça um entretenimento inofensivo, quando, na verdade, pode ser o início de uma dependência. “A gente tem aquele senso de que ‘essa pessoa que eu admiro tanto não me faria mal'”, explicou.
Além disso, a psicóloga destacou que sites de apostas estão disponíveis para acesso 24 horas por dia, diferentemente de outros tipos de jogos envolvendo dinheiro, como loteria e bingo. Segundo ela, essa facilidade eliminou o “tempo de reflexão” que o trajeto físico impõe, permitindo que as pessoas apostem, inclusive, em momentos de fragilidade emocional sem qualquer interrupção.
De acordo com Laura, ainda há o agravante de que, no ambiente digital, o dinheiro perde a forma física e se transforma apenas em números em uma tela, dessensibilizando o apostador em relação ao tamanho do prejuízo. “A pessoa perde a dimensão de quanto é, acaba perdendo essa sensibilidade de que ‘é meu dinheiro e meu patrimônio'”, elucidou.
Autoexclusão
Apesar do aumento exponencial de publicidades de apostas online em diferentes meios, como televisão, internet, rádio, eventos presenciais e, inclusive, nos uniformes dos jogadores, o desejo dos brasileiros é o contrário. De acordo com dados divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), durante as duas primeiras semanas da Copa do Mundo, o número médio de pedidos diários para autoexclusão do CPF de plataformas de bets aumentou quase sete vezes.
A Plataforma Centralizada de Autoexclusão registrou, entre 15 e 28 de junho, 17.866 pedidos por dia. Em comparação, na primeira quinzena de maio, o número médio de solicitações era 2.594. Segundo o Ministério da Fazenda, os motivos alegados são, em sua maioria, a prevenção ao vício. Em contrapartida, antes da Copa do Mundo, a maior parte dos pedidos era relacionada à perda de controle sobre o jogo.
Como acessar e ativar o bloqueio
O sistema é uma ferramenta gratuita que permite ao cidadão bloquear o próprio acesso a todas as casas de apostas autorizadas a operar no Brasil. O acesso é feito por meio da conta Gov.br, nos níveis prata ou ouro. Ao entrar no sistema, o usuário deve aceitar os termos e escolher um dos motivos para a exclusão, que incluem desde decisão voluntária e dificuldades financeiras até perda de controle sobre o jogo (saúde mental) ou recomendação profissional.
Assim que a solicitação é registrada, o sistema comunica automaticamente todas as operadoras autorizadas pela SPA/MF. Segundo a pasta, a casa de apostas tem o dever de encerrar a conta do apostador em até três dias e deve permitir que ele retire seus recursos financeiros da plataforma em até dois dias. Além disso, o usuário fica protegido da publicidade direcionada, não podendo receber marketing ou ofertas das plataformas durante o período de exclusão.












