‘Próxima pandemia é inevitável, apenas questão de tempo’, afirma diretora-adjunta da OMS

vírus da Covid-19
Diretora-adjunta da OMS disse que as novas variantes são preocupação do órgão (Daniel Roberts/Pixabay)

A diretora-adjunta da OMS (Organização Mundial da Saúde), Mariângela Simão, afirmou em entrevista, nessa segunda-feira (4), que uma nova pandemia é inevitável. Segundo ela, é apenas “uma questão de tempo” até que um novo fenômeno pandêmico se manifeste. A especialista também falou sobre o desenvolvimento da vacina intranasal, e disse que “ainda não estão lá”.

Durante a entrevista para a rádio RFI, Mariângela disse que a OMS fará uma assembleia em novembro, para discutir a possibilidade de se criar um “tratado para pandemias”. A decisão ainda não está aprovada, mas circula entre os países.

“Não só por reforçar o papel da OMS em uma situação de emergência de interesse público como essa”, mas também porque “cria uma série de formalidades que os países e o setor privado têm que tomar no caso de uma emergência como uma pandemia mundial”, explicou Simão.

‘Vai ter uma nova pandemia’

Quando questionada se a organização se prepara para uma nova pandemia, a diretora-adjunta afirmou: “Vai ter uma próxima pandemia. Isso é uma coisa que a gente já sabe e que é inevitável. É uma questão de quando vai acontecer”.

“Essa pandemia, depois da gripe espanhola, foi a mais impactante e é também uma constatação: acho que o mundo precisa acordar porque a gente vê que não foram apenas os países em desenvolvimento que fora afetados. Afetou o mundo todo, ninguém estava preparado”, analisou.

Na assembleia de novembro, pretende-se discutir também sobre as questões sobre as variantes do coronavírus e a respeito da distribuição das vacinas. “Um lado é em relação a esse coronavírus específico que é o Sars-Cov-2 e as variantes, algumas variantes de preocupação, como o caso da Delta, que está presente em 188 países”.

“Então a preocupação e o empenho [da OMS] em aumentar a cobertura vacinal é global, em todos os países e não apenas em alguns, para evitar que novas variantes preocupantes surjam”, esclareceu Mariângela Simão, sobre os tópicos de discussão na reunião.

Vacinação de adolescentes

A respeito da vacinação de adolescentes contra a Covid-19 enquanto problema de saúde pública, a diretora-adjunta Mariângela diz que as recomendações da OMS são baseadas em especialistas que auxiliam a organização nesse assunto.

“Desde julho desse ano, a gente tem recomendações relacionadas ao uso da vacina da Pfizer, é a única que tem recomendação para utilização na população entre 12 a 15 anos, e já havia a recomendação para pessoas acima de 16 anos”, relembrou.

Ela também relembrou a ressalva da OMS de que as vacinas devem ser priorizadas a adolescentes com comorbidades. Para o restante dos adolescentes, “a vacina para este grupo deve ser administrada após a cobertura de todos os outros grupos prioritários”, disse Mariângela.

Vacina intranasal e vacina para crianças

A vacina intranasal é recomendada por especialistas devido à facilidade de aplicação, pode diminuir algumas resistências e proteger a porta de entrada do coronavírus. Sobre ela, Mariângela Simão diz que ainda não há um produto aprovado mundialmente.

“Acredito que algumas possam estar em fase 3, a última fase antes dela ser autorizada emergencialmente em algum país. Faz sentido se pensarmos num tipo de produto ideal, seria ótimo uma vacina que pudesse ser administrada via nasal, mas ainda não estamos lá”, explicou.

As vacinas para crianças ainda não estão aprovadas e não possuem previsão de quando estarão disponíveis. “Nós só temos uma vacina aprovada para uso em adolescentes a partir de 12 anos. Tem vários estudos em andamento, mas nenhuma delas foi aprovada ainda pela OMS para uso em crianças”.

Imunização anual é possível

Mariângela Simão falou que ainda não existem indicações claras da OMS sobre a vacina anticovid se tornar anual, mas é possível que isso aconteça, pois o comportamento do vírus da família dos coronavírus é se tornar endêmico.

“O importante é ter sempre em mente que o mais importante é evitar que as pessoas mais suscetíveis morram por conta desse vírus e que a economia pare como parou”, ponderou.

Desigualdade no acesso às vacinas

Simão comentou que a desigualdade no acesso às vacinas para diferentes populações de todo o planeta “trata-se de uma inequidade vacinal”. Segundo ela, “a gente tem uma enorme distância entre a cobertura média vacinal em alguns continentes, e, por exemplo, o continente africano”.

“A média global hoje é de 32%, mas as médias, como se sabe, são ‘burras’, porque existem os extremos. O território da União Africana tem hoje menos do que 4% de cobertura vacinal”, afirmou Mariângela Simão.

Tratamento é caro e restrito a hospitais

No que diz respeito a um tratamento para a Covid-19, a especialista disse que a OMS já recomendou este ano a utilização de betametazona. No entanto, ele é voltado “para pacientes graves em ambientes hospitalares porque ele impacta na mortalidade”, disse.

A diretora lembrou que os medicamentos recomendados pela organização são caros e para utilização em ambiente hospitalar. “A gente ainda não tem nenhuma medicação aprovada pra prevenção, profilaxia e nenhuma medicação aprovada para casos leves” apontou Simão.

OMS discute preços com indústria famarceutica

“Esse é o objetivo básico, trabalhar com a indústria farmacêutica para que os países tenham acesso a preços sustentáveis para poder dar acesso aos seus pacientes”, esclareceu Mariângela. “Isso no momento está bastante difícil porque está concentrada em apenas dois produtores”.

“Um deles concentra 3 dos 4 produtos a Roche, Regeneron, e a Sanofi com outro produto, então está muito concentrado com uma capacidade de produção que não é grande. A expectativa é que a gente vai ter nesses primeiros 6 meses de produção uma disponibilidade ainda difícil desses produtos”.

Em relação à vacina para os países mais pobres, Mariângela Simão lembrou: “Os Estados Unidos não só se comprometeram o ano que vem em doar 500 milhões de doses da Pfizer, mas o governo norte-americano já possibilitou a entrada de 200 milhões de doses da Pfizer neste ano”.

“Então a França e vários outros países estão doando, o que é muito bem-vindo. Não resolve todo o problema mas é muito bem-vindo que países que têm condições e que já atingiram coberturas vacinais maiores estejam contribuindo para uma maior equidade da cobertura global”, finalizou.

 

Edição: Vitor Fernandes
Andreza Miranda
Andreza Mirandaandreza.miranda@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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